Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 23 de Janeiro de 2018
...

Procuro no efémero a vulgaridade.

Nada mais do que a vulgaridade.

 

Porque haveria de querer vida de santo

Ou mordomias de sindroma de poder

Se tenho todas as coisas que do mundo

São minhas e me fazem crescer

Desde sempre, ontem, hoje e até morrer

 

Procuro no efémero o transitório

Agarro a luz e fico nevoeiro, orvalho

E num fresco rodopio de vento

Olha as estrelas que do firmamento

Me dizem que tudo é universo.

 

Sou tornado vitral e sentimento

 

Nada mais do que os momentos

Um somatório de girandolas numa iris

Fazem a felicidade de ter flores

Numa janela. 

 

A cidade é um vulcão

Não quero nada com ela.



carlos arinto maremoto às 09:55
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018
luzidio obscuro e sagaz

linhares.17.JPG

 Vem do alto das montanhas e enche de sorrisos o rosto das crianças

Tudo à volta é selvagem e desconhecido, pleno de luz e corpo novo

São as trovoadas do inverno a substituirem-se ás gentes que houve

Nas ribeiras que agora crescem sozinhas e desaguam em futuros novos

 

O frio, e a geada são companhia. de manhã em espesso nevoeiro.

À tarde em dourados bailes nas folhas verdes do etéreo calendário

 

Onde estão as gentes da beira-serra? Onde desapareceu o moinho,

O lagar, a azenha, as pedras de xisto empilhadas com o saber antigo?

Onde estão os avós e os que antes desses foram nossos pais?

Apenas ficou a natureza e a sua generosa brutalidade despida.

 

Um sol clarissimo embala toda a serra que cria a ribeira e os poços

Onde os chãos fermentam vida e apaziguam lumes ancestrais

Não se ouvem outros cantares que o silencio que a água cria

 

E a alma de quem se atreve fica mais velha, mais triste, mais só.

Perdida nos gostos de outrora, como se o mundo fosse hoje

O absoluto, obscuro, e estupido abandono de todo o  sagrado.

 

E tudo descansa na tranquilidade da paz que é nada! 

(beleza, dirão, pois que seja, mas que os meus olhos a vejam)

E o mundo segue perfeito, mais uma vez, no rosto de uma criança

Bamboleante no rastilho de uma estrela magica adormecida.

 

 



carlos arinto maremoto às 18:32
link do post | comentar | favorito

Sábado, 13 de Janeiro de 2018
Peregrinação

Os percursos são caminhos que nos unem

Vias e estradas que nos conduzem, faróis que nos orientam

Os percursos levam-nos. Arrastam-nos. Trazem-nos de volta

 

Entre o percurso e o caminho está o pisar do chão

A pedra, o cascalho, a lama e os sonhos

 

O mundo pode ser um casino, uma lotaria ou coisa nenhuma

Somos nós que somos o mundo.

 

Os percursos são caminhos que nos separam

Sulcos que deixam marcas, luzes que nos cegam e inebriam

Vozes, doenças, amores, ilusões… risos e choros.

 

Uma abelha fecunda a sombra de onde nascem os sorrisos

E depois chapinhamos na militância da velocidade

Desaparecendo no vórtice da voragem e no eclipse dos rostos

 

Todos os rostos são meus. Eu sou a saudade!



carlos arinto maremoto às 19:06
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018
Novo ano, ano novo

Um certo amanhecer cheio de luz,

Água, vento, réstias de ontem pelo chão.

 

Barcos e aviões na chegada

Festas e familia na consoada do encontro.

Um dia colorido, um erguer de janeiro

Sinto-me outro, sendo o mesmo

Juro que sou igual, mas envelheci.

 

Um certo amanhecer que me embala

Uma lágrima que também é sorriso

 

Penso que o tempo é ilusão, mas sinto

A dor que se instala nos ossos

(quem não quer ser jovem outra vez?)

A memória, a recordação, o arrependimento

De qualquer coisa que não fiz

Abana-me o corpo e o juizo

Chama-me á razão, grita-me aos ouvidos

Devolve-me o chão, o céu e os sentidos

E anuncia que a vida continua.

E nisto...neste desvario embriegado,

Um certo amanhecer me diz:

- Tens razão!

A vida é um tufão.

 

Olho o teu retrato e sou feliz.



carlos arinto maremoto às 18:22
link do post | comentar | favorito

Domingo, 31 de Dezembro de 2017
O adeus

 

vela dágua.jpg

 

Custa sempre dizer adeus

por isso me afasto das despedidas.

 

Sou água, sou vela, sou sombra!

 

Há adeus definitivos que mogoam muito

outros mais suaves que sabemos

Serem pouco duradouros, quase falsos

Adeus de circunstancia e de ausênsia

Como se dormir e sonhar fossem naturais

Na perenidade do tempo

 

Um estilhaço, um hiato, uma bofetada.

 

Aceno com adeus de risos mansos

Nos aguaceiros da incerteza

Até sempre, sabendo que o sempre não volta

Nem retorna a ser. Foi, acabou, apagou-se

Extingui-se. Outra nova coisa será.

Nunca a mesma. A vida segue adiante.

 

Também não acredito na morte. Por isso

Todo o adeus é uma mentira.

 

Retornarei em todos os que me quiserem

Nem o ano tem fim, nem a vida:

Apenas mudamos de aconchego e de luz

 

 

 

 

 



carlos arinto maremoto às 18:16
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2017
O tempo adormece

livro-2.jpg

A luz se amortiça numa rede de cadeados

O ano se escoa na firme decisão que acabou

E o crupusculo dará lugar ás árvores nuas

E aos gelos da madrugada.

 

Alimento o sonho pensando em vidas anteriores

Se é que as houve, que não sei nada!

Alimento o sonho em vidas futuras, que podem ser

Se forem capazes de nascer e de se tornarem

Realidades!

 

Quem sabe se do fim há continuidade

(As aguas voltaram a descer pelas ribeiras

Fragas despejam caudais sem juizo)

Quem sabe se do fim há continuidade



carlos arinto maremoto às 17:59
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
apelo à contenção - natal 2017

explosão.jpg

Quero-vos dizer que não é caso para tanto.

Explodir, sim!

Mas devagar!

 

Tenho risos e tenho memórias

Tenho tempo que sobra e artérias fracas

(rechega no xisto e nos socalcos da vida)

Toda a sistólica é lua,  leite, linho e luta

Altar de céus e firmamento. Punhal!

Nuvem traiçoeira.

 

Troveja, faz frio, há neve e geada

 

Gordo, gordo é o capão.

Belo arroz-doce

Bela canja.

Peru e perfume de cozinha

Onde fritos se misturam

em orgias de preferências,

com açucares e ovo.

 

Explodir sim! Mas devagar!

 

O amor é remédio.

Mel, ocarina, missa.

Mil gargalhadas em

Engomadas tardes.

E nisto...

A cidade adormece

Numa girandola de estrelas e riscos

 

Quero filhoses.

 

Quero-vos dizer que (isto) é caso para muito mais.

Hoje e todos os Natais.

  



carlos arinto maremoto às 15:18
link do post | comentar | favorito

Domingo, 17 de Dezembro de 2017
as dolinas (do meu parafuso)

felino.1.jpg

 

A água, sempre a água.

- Sim, é por isso que os cientistas se preocupam tanto em encontrar água nos planetas que descobrem.

- Mas tanta chuva já é demais.

- A chuva nunca é demais. É como o amor ou a preguiça.

- Que comparação mais sem sentido.

- O mundo faz-se com a preguiça, uma camada de emoção e muita chuva. Bem sabes que “verdes são os campos da cor do limão”.

- Para além da luz, do sol e da vontade.

- Filosofas! Diz um. Gregos sentados ao luar, sobre as rochas de um tabernáculo, diz o outro. Que alguém nos acuda!

Gregos ou Judeus?

João e José olham despreocupados o horizonte.

Olham as ruinas de Harappa.

Mil e cinquenta e seis cidades desaparecidas depois de um período de grande florescimento. Há mais de seis mil anos.

Não, não foi ontem, nem foi de um momento para o outro.

É muito mais do que uma faúlha.

Os desaparecidos, sem explicação sempre fascinaram estudantes, companheiros, homens sem casa, arqueólogos, curiosos, desocupados. Um pouco de cada coisa um pouco de tudo e no fundo – como sempre é – nenhuma coisa que se possa colocar em palavras.

Apenas fascínio.

Quando os desaparecidos são civilizações…

Assim, são João e José. Nomes, nem bíblicos nem artísticos, apenas nomes.

As palavras surgem como que por magia.

- Palavra do Senhor!

Ouve-se, mas não se acredita.

Se o senhor tivesse dito aquilo eu teria ouvido. Eu, estava lá.

A blasfémia não tem sentido, é um conceito inventado pelo Homem.

Aqui, em Harappa, onde as palavras escritas ainda não existiam, a palavra dita deu origem a uma religião.

- Sim a religião Védica! Mas como comunicavam eles entre si?

- Há tantos mistérios por desvendar… não sei!

(nunca se diz não sei, revela falta e ausência de conhecimento, o que não é conveniente. Quando não se sabe, inventa-se)

- Neste lugar, a cabeça de um parafuso terá gerado uma dolina, depois um micro clima, uma conjugação de sorte e azares criaram a harmonia.

- Sim a água escorria pelas valetas, havia esgotos e piscinas para banhos. As casas eram abastecidas. Os espaços públicos largos e semelhantes, uma sociedade sem castas…

- Onde as castas, agora florescem. Uma coisa e o seu contrário sucedem-se no tempo, durante o tempo, através do nós.

- Aqui, há nove mil anos já havia a roda.

- Sim o clima é um factor de mudança, de desenvolvimento e de retrocesso.

- Repara, naquelas rochas, naquela vegetação. Quem diria que por ali já correu um rio?

Cabras pastam na mansidão do espaço seco.

Tudo em redor é secume. Existem pequenos oásis, mas do sítio onde estamos não se avistam.

Não se descobre pastor.

A terra é grande e seriam precisos dias para a percorrer, mesmo em veiculo todo-terreno. Isto só para circunscrever uma zona que pode ter sido a dolina.

Nada é certo. Quem tem certezas, tem mais incertezas acerca de tudo, do que os que questionam. 

Afirma, para depois duvidar, melhor seria que duvidasse primeiro. Assim fazem os nossos actores, quais declamadores em palco, pois nem figuras míticas, históricas ou actuais são.

Dois pobres actores desempregados que emprestam rosto, corpo e imagem a um experimentalismo cénico.

Há livros numa estante sobre Mohenjo Daro. Teorias. Apostas, discursos arqueológicos.

- O rio secou há muitos anos. Saravasti era o seu nome.

- Sim, foi possível radiografá-lo do espaço. Descobrir-lhe o percurso e as cidades que se foram erigindo na sua passagem.

- Hoje tudo é possível.

- Quase tudo!



carlos arinto maremoto às 09:35
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
Oumuamua

charuto.jpg

 

 

A vida é sempre igual e aquele dia não seria diferente de todos os outros.

Parei o carro no alto da serra e olhei para os montes em redor.

Havia cinzentos e castanhos, folhas secas em tapete no chão, estradas a cruzar todo o percurso que os madeireiros necessitavam para fazer a sua vida de trabalho.

Ao longe as eólicas.

Pequenos tufos de verde rebentavam aqui e ali. Eram manchas no meio de nada.

Numa enseada casas ardidas, sem telhado.

Pedras a lembrar paredes, abrigos e lares.

Os eucaliptos pareciam ter ardido apenas pela metade, nas copas verdes, no tronco queimados. O mesmo acontecia com diversas zonas de mato, que ardendo havia desaparecido, mas cujo fogo não atingira as árvores que no mesmo sítio cresciam.

O fogo ali, havia sido rasteiro, não menos mortífero.

Ao fundo os muros de antigos socalcos tinham o aspecto de eiras carbonizadas, de vinhedos destruídos, todos com as pedras a desabar e os terriços a fazerem monte.

Senti, mais do que ouvi, uma trepidação ou um rasgar de vento e notei um objecto alongado a voar no espaço.

Não andava depressa, nem devagar.

Não era folha a flutuar, nem parecia nave tripulada, como se descobre nos filmes de ficção cientifica, quando se quer impressionar com o inusitado.

Aquilo tinha o aspecto um enorme charuto.

Era qualquer coisa vinda do espaço.

Do alto, lá de cima, não tinha aparência de ser daqui – era certeza.

Qualquer coisa que se havia formado fora do nosso sistema solar, da nossa estrela: o sol. Sim qualquer coisa que havia tropeçado numa linha invisível, ao descrever curva, para se afastar em direção à origem a muitos milhões de anos-luz.

Afinal estamos no cosmos.

O seu formato alongado não deixava dúvidas. Rocha, metais e cores fazem deste piercing algo raro e muito curioso. Talvez, até, valioso.

Tem cerca de nove metros em comprimento por, apenas dois em largura, calculo.

Silencioso, mas rápido, deixo de o ver e ao procura-lo já o encontro espetado no chão, no fundo da ravina, que dali desce até ao fundo das escarpas, onde ziguezagueia um regato que empossa sonolento.

É um monstro espacial e deveria ter causado devastação ao cair no terreno, estou em Chão de Meninos, onde só existe mato e socalcos.  Mas não! Tudo o que se ouviu foi um baque surdo, um restolhar, um clarão mais fraco do que um trovejar.

Guardo as chaves do carro no bolso e desço pelas terras queimadas, sujando-me com as cinzas que existem por todo o lado.

A curiosidade é mais forte do que eu.

Ao investigar, porque o lugar, sendo perigoso, e abrupto,  não era longe da estrada em que me encontrava, deparo com o mencionado “charuto” enfiado entre ramagens de árvores e um ribeiro com águas ferventes, talvez devido ao impacto do estranho objecto.

Parecia um tronco carbonizado.

Mais um, de entre tantos, que os últimos incêndios se haviam espalhado em redor, igual a  outros que existem por todo o lado, deitados ao chão pelos primeiros ventos do outono.

À volta começavam a crescer pequenos cogumelos. Bombas atómicas? pensei!

Que disparate, se fossem bombas produzidas por átomos eu já estaria morto e não estou.

Parecem mais duendes com barretes na cabeça – que imaginação, com a devastação dos incêndios nem coelhos ou raposas havia.

A ponta que tocava na água modificava-se para amarelo. De gema de ovo escuro para uma tonalidade dourada.

Poderia ser ouro, o que via aparecer ali?

Na outra extremidade, o escuro tornava-se mais escuro.

Puxo do meu canivete e tento raspar a pedra, que para minha admiração se deixa cortar com facilidade.

Creio que chamam a este metal lítio.

As árvores ao meu redor escondem a descoberta.

Naquele baixio, que o fogo não consumiu, nenhum ramo foi tocado pela queda do misterioso asteroide, o que estranho. Tal volume teria de ter feito mossa maior do que fez, em tudo em que, obrigatoriamente, embateu, mas não há galhos partidos, nem rastos de destruição em redor.

Aliás, todo o “redor” onde escorre água por um regato que serpenteia vindo do cabeço, apresenta-se florido e com fetos verdes em rebentação.

Será que flutuou? Será que aterrou de nariz para o chão deixando-se escorregar por entre as árvores até se enfiar no solo, tombando na terra até se imobilizar junto á água.

Procuraria água? Estaria a beber?

Deixo-me escorregar até á ponta dourada procurando ver melhor o que se passa ali, caso algo seja diferente do que já observei, mas, rigorosamente, nada vejo além do reflexo que a luz projecta no dourado de textura rugosa.

Experimento com o canivete a superfície do tálamo e esta não se deixa riscar nem laminar.

O meu telemóvel começa a emitir um som de chamada.

Que diabo, que hora e momento para tocar.

Instintivamente abro o ecran e verifico que não é uma chamada de voz mas uma mensagem.

“Por favor afaste-se”

Afasto-me de onde? Quem diz isso?

Com espanto concluo que é o “charuto” que fala comigo.

Os chapéus dos cogumelos agitam-se para cima e para baixo mudando de cores.

Tudo aquilo me faz pensar num trombone ou num trompete a que caíram as patilhas e as tampas, numa varinha mágica da cozinha sem as laminas que arrancam e desfazem pedaços de leguminosas quando giram.

Dou um passo na retaguarda e sinto um impulso, quase empurrão na direcção do cimo do monte. Começo a ficar com o coração em sobressalto, a suar e com medo.

Tento controlar o pânico.

No ecrã do telefone aparece a palavra: “obrigado”.

O “charuto” gira sobre si e em movimentos graciosos emite um zumbido, não mais do que isso, quando se eleva acima do chão.

Primeiro a cabeça amarela, depois o resto do corpo escuro.

Num ápice já não está ali.

Sinto-me infinitamente pequeno e impotente.

Também já não existem cogumelos no chão. Não..espera, vejo um pequeno míscaro luminoso escondido debaixo de uma folha.

Ele também me vê, sinto-o, como se estivéssemos a olharmo-nos “olhos nos olhos”, então, esconde-se num buraco de bichos que existe por ali desaparecendo.

Nada a afazer.

Venho-me embora. Não tenho nada a fazer ali. Foi uma miragem, uma alucinação, devo ter escorregado e batido com a cabeça. Talvez! Talvez!

Ao chegar ao carro, descubro que deixei as chaves na ignição.

Podiam ter-me roubado o carro. Que parvoíce!

Podiam se por ali andasse alguém. Parvoíce é pensar que num sitio deserto como aquele alguém andaria.

Mas, aquelas chaves não são minhas, reparo com estupefação, pois as minhas e do carro encontro no bolso das calças, onde instintivamente as havia guardado.

As “chaves” que estão no carro são uma bitcoin.

Aperto-a com os dedos…

…e depois não me lembro de mais nada.

 

 



carlos arinto maremoto às 13:35
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ÔNFALO

janela.jpg

Carta de Ônfalo á sua amada princesa, num tempo em que já não existem anjos, querubins, morcegos ou raposas nem lugar onde os Homens pousem para “beber” e  saciarem a ambição de serem divinos: A cidade tem mil buracos e outros tantos alçapões.

 

Meu amor,

Durante anos, sem interrupção, escrevi-te…” cartas de amor”.

Eram cartas simples, sem muitas palavras, apenas cartas que numa frase, num suspiro, numa lembrança, faziam o necessário – o possível e a desarrumação - para te dar a conhecer que o amor não tinha morrido. (como dizem os poetas e os apaixonados que não sabem viver no mundo real dos ódios..o amor resiste)

Foram anos de lembranças em que o amanhã era igual ao hoje, mas o ontem iluminava a minha vida.

Escrever, tendo deixado de ser moda, foi persistência e retorno ao mais querido e sagrado das nossas lembranças comuns, e com essas lembranças em turbilhão, me renascia – todos os dias, todos os anos - para te confessar o amor: “O meu amor”!

(Nada diferente do que os amantes costumam fazer* vulgar, primário e instintivo* – tudo isso que possas imaginar num homem comum e insuspeito de actos criminosos ou aventureiros – que apenas sente a ternura e o desejo, titubeio de geodésico marco em dia de tempestade)

Numa palavra, num gesto, numa memória sonhava ter-te.

Dar-me, oferecer-me, possuir-te!

Queria respirar-te. Iludir-me. Ser o cheiro e a alegria dos dias felizes.

Amar-te! No amor episcopisa da insanidade mais louca.

Todos os anos, em dia certo do ano, enviava-te uma mensagem, a que respondias sem vacilar na volta do carteiro: obrigado!

Sabia, pelo menos que existias, que estavas viva e que tinhas noticias minhas, onde quer que te encontrasses e com quem vivesses. Como fosses e existisses, como és.

E assim fui construindo o meu geóglifo de sedução e de pensamento, esperando que esse mapa fosse eco e chamamento de retorno e de caricia.

(não para repetir o passado, mas para viver o presente, que o ontem nunca curou ninguém, nem ressuscitou os que se afogam na vida)

E os anos foram passando, sem outra modificação que essas palavras: amo-te! Obrigado!

Hoje, ao repetir o gesto e a ousadia, fui apanhado na cilada.

- Quem és? Perguntaste.

 Anos, séculos, inumeráveis dias e noites, por um nome, por um nada!

Deixo-me arder na paixão e morro sem pronunciar o teu nome que faz a minha desgraça de inconsolável amante desprezado. Que vulgaridade! Que barbárie! Que exclusa!

Não respondo.

Não sinto nada. Esqueci-me do que queria dizer. Não me lembro de nada!

Para o próximo ano, vou repetir “amo-te!” como se o mundo se rejuvenescesse e tudo fosse a primeira vez. Sempre o reacendimento sem explicação, como num fogo e numa vida.

Tudo e nada sou: o caminho, sempre o caminho, num rasgo de claridade e de solidão.

(Não se pode explicar as intermitências do amor nem viver na contraluz)

 



carlos arinto maremoto às 16:43
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
as especiarias

rua nova dos mercadores.jpg

 

Os primeiros vinte anos, foram passados á procura da ideia original e ampla, que lhe permitisse poder depois esfrangalhar os horizontes e rasgar as minudências de uma imprecisão. A imperceptivel presença de uma pulga a estragar o percurso das águas da escrita, que devem escorrer sem obstáculos ou a tomada de posse, numa zona da floresta, por uma manada de elefantes em fúria, tudo era possível emendar, riscar e melhorar para que não houvesse duvidas sobre o dito e pretendido dizer.

Fez arquivo e foi inventando tudo o que havia para inventar utilizando todos os truques que possam ser permitidos com ousadia de manter uma coerência.

Ao encontrar o “estado perfeito” da límpida nudez do primeiro e inicial escrito Américo Barroso começou a torturar as palavras, os textos, as imagens e os mapas gráficos onde inseria o documento universal de pegada que haveria de deixar para os vindouros.

Se vindouros houvessem.

Pela ordem “das coisas” haveria, mas isso não era preocupação sua. Se os vindouros não chegassem a existir a sua escrita manter-se-ia com a função do nada, como agora acontecia, já que ninguém lera os textos e as histórias que escrevia.

Fazer o mesmo, sempre, em escalas desiguais, acrescentando ou diminuindo o pormenor, trocando tabuinhas por plásticos, celofane por papel pardo e misturando as ementas para gostos diferentes ou possíveis.

Sempre criativo. Pode-se dizer que foi sempre criativo.

E um sucesso. A palavra sucesso dizia respeito apenas a si, mas que lhe importava.

Então, após o seu falecimento prematuro – morreu com quarenta nos, por um tumor vesicular, a acreditar na certidão de óbito – os seus “papeis” foram entregues aos herdeiros.

Estes, que não esperavam nada de bom da fortuna do pai, que sabiam inexistente, fizeram vista grossa e ignoraram o testemunho.

Nunca a escrita, os livros ou a arte dera comer a ninguém, diziam.

Outros eram de opinião de que se deveria dar a ler os “escritos” a quem soubesse avaliar a possibilidade de ali estar tesouro que valesse ser preservado e que o nome do progenitor pudesse ter simpatia nalgumas ramagens do grupo de cidadãos da aldeia, que eram o mundo dos sábios.

Américo Barrosos fora cauteloso e guardava o seu génio criativo como se preciosidade fosse.

Por isso, encadernou cada escrito em embalagem diferente e espalhou as mesmas por diversos cofres de armazenamento.

Em envelopes, em pastas de cartolina, em “canetas” informáticas, em sobrados de prateleiras de cozinha, nas estantes – evidentemente – em cartolinas coloridas e peles de borrego tratadas, á maneira antiga, como embrulho.

Mas nas arrumações e nas mudanças que sempre acontecem quando o dono da casa desaparece, muito se perde.

E neste caso, que não é único, perdeu-se tudo.

Quando procuraram encontrar que mostrar, para uma leitura apressada, apenas encontraram invólucros vazios, sem conteúdos. Letras no fundo de latas de legumes secos, assim como massinhas para a canja de galinha – que a mulher fazia pelo Natal – qual sopa de alfabetos.

Onde estava a originalidade de um conto que não pode ser lido?

Começava em África e depois falava-se do oriente. Dizia-se dos além oceanos e descrevia povos europeus e tribos que viviam na era do gelo.

Filósofos, dramaturgos, poetas, aventureiros e mitos, compilados por um concilio de que só Américo Barradas conhecia a data da celebração.

Guerras e emoções, desastres, descobertas, provas cientificas e tudo o que a humanidade tinha vivido eram poeira, nas histórias de Barroso. O leitor "atento" tardava em chegar, só ele descobriria a magia de transformar o encantamento em literatura.

Sobrou um "pau de canela" enrolado como a Tora que está exposto no frontespicio do chafariz, com a legenda: oferta de beberagem: todo o conhecimento faz sede.

-Parece-me mais o torniquete de um saca-rolhas antigo. Diz alguém.

- Talvez!

Tudo em literatura é possível.

 

 



carlos arinto maremoto às 19:46
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
Cadernos de poesia IV Circulo Artístico e Cultural Artur Bual

capa.1.JPG

 

Ficha Técnica
A Matéria da Poesia
Apresentação
José Manuel Ramos
Edgardo Xavier
Orlando Boqueirão Rolo
Carlos Arinto
Jorge Chora
Eduardo Nascimento
Maria José Figueiredo
Ana Paula Barbosa
Helena Durães
Luís Isidro Guarita
José Fernando Delgado Mendonça
Ricardo Vaz
Paulo Figueiredo
Paula Homem
Luís Teixeira Alves
Rodrigo Dias
Luís Filipe Maçarico
José Alexandre São Marcos
Posfácio
Índice
Notas

 

convite.1.png

 



carlos arinto maremoto às 10:58
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
Fernando Relvas

relvas.jpg

 

Eramos apenas jovens à procura do sonho

Fazíamos o mundo parecer pequeno face à nossa ambição

Crescemos com a ilusão da eternidade e de que eramos

Pobres, incapazes, únicos e peregrinos da ilusão

 

Fomos andando e fazendo, escrita, desenhos, histórias

Rodopios. Nunca mais nos encontramos.

 

Foste traçando heróis, bandidos, miúdas, paisagens

Sombras, luzes, arrepios, fatalismos, risos e sarcasmos

 

Soube que desapareceste num dia de sol. Um dia frio

Um dia como outro qualquer em que ficamos sem ti.

 

Amanhã, vai chover, dizem. Gostarias que sorríssemos

E nos abraçássemos no meio dos teus heróis de desenhos

E das tuas loucuras de folhas transformadas em almanaques

De bichos, de feras, de seres perfeitos e muito futuro

(alguns despedaçados pela tua vontade e raiva

Feios, maus, selvagens, cáusticos, dormentes, zeladores)

Laudas que iremos revisitar num tempo sem fim

Sempre que a água seja menina nos olhos de rapariga solteira

 

Cá ficamos a despedirmo-nos desejando-te saudades

Eu, o Eduardo, a Xana, o Vasco, a Rita, o Pedro….o Herminio

(lembras-te do Herminio? O Viriato…)

- Um comboio passa e tudo se encobre num apito, num rugido

 Não voltaremos a viajar. Olho para as caras dos circundantes

 

Somos todos destino.

 



carlos arinto maremoto às 08:35
link do post | comentar | favorito

Domingo, 19 de Novembro de 2017
O Confessor

 

amadora.jpg

 

Nunca me diverti tanto, como daquela vez em que não fui à Disneylandia.

Devia ter doze anos.

Depois os tempos mudaram e comecei a trabalhar. Era o tempo saudável

Da boa formação, da ajuda aos pais e da criação de galinhas para consumo

Da casa. Vivíamos na lapa, vê lá tu! Na Lapa! Onde não havia capoeiras.

Depois fiz os estudos e continuei a pecar. Porque pecar é preciso.

 

Não quis a guerra nem a revolução. Fui ignorante, ladrão e viciado em liberdade

Fiz tudo e em tudo vivi, longe dos ódios, dos amores, paixões, revoltas e arte.

Fui embrulhado nas ondas da aprendizagem até ao infinito de nós e fui feliz!

 

Lavrei terras e li toda a literatura do mundo. Semeei árvores e sóis e fiz filhos

Volto a dizer-te que fui feliz.

Depois o tempo tudo levou, até a coragem em acreditar nas ilusões do ser

Mas mantive a ousadia de pecar trazendo vida, abrindo universos, criando flores

Foi tudo tão rápido que ousei pensar em morrer, por isso vivi e resisti.

 

Por ti, por nós, pela verdade, foi tudo saudade.

Choro pedras de amargura, mas sei que continuo a gostar de ti

Em todos os sonhos, em todos os dias, volto a nascer

Tu és todos, somos nós!

 

Sou o infinito e não me conformo com o céu ou o inferno, nem com a demência

Do confessor. Sou o aroma que polvilha o segredo e a fragância da natureza.

O rasto do cometa, a nuvem que não existe. O tiro certeiro na madrugada.

 

 



carlos arinto maremoto às 12:28
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 14 de Novembro de 2017
O pé calçado

marte.jpeg

 

 

Estando o tempo fresco e agradável, para passear, após um dia de sol, com algum calor, achei-me junto ás muralhas do castelo, em Guimarães, onde vivo, sem dar por isso.

Estar ali, ou noutro sitio qualquer, era-me indiferente, pois caminhava sem destino, quase ignorando as casas e as pessoas que me rodeavam, ou comigo se cruzavam.

Saltei um murete, e enveredei por um carreiro, com vegetação espontânea, indo dar um uma clareira cercada por arbustos altos.

Como o sol já se tinha posto à muito e estava uma noite de lua cheia magnifica, escolhi uma rocha, que me pareceu adequada, para me sentar um pouco.

Olhando á volta, havia vários pedregulhos, com as vestes do tempo, limbos, líquen azulados e flores amarelas pequeníssimas, que apenas se distinguiam, por entre os tufos agarrados à rocha, com uma fixação prolongada do olhar.

Nem barulho, nem sinal de bichos, aves ou repteis que sempre vagueiam pelos terrenos.

Olhei para cima e o céu apresentava-se como sempre se apresenta nesta época do ano: estrelado. Nada a estranhar ou a declarar.

Porém, quando voltei a olhar em frente – primeiro distraidamente, depois apurando a visão e  os sentidos, comecei a distinguir algo absurdo e estranho que me parecia real.

Um pé, dentro de uma bota, com uma sola com sulcos, por onde saía uma perna, tornozelo e canela que acabava logo acima, nada mais havendo a mostrar.

Sola com sulcos, porque a bota se encontrava levantada do chão, aí a metro e meio de altura, ligeiramente inclinada para trás, com a biqueira apontando para o lado em que me encontrava.

Para conseguir descrever a posição exacta do engenho, direi que era como se o dono do pé e da bota (logo também da perna que emergia para o corpo, que não existia) estivesse a subir uma escada, vindo de lá para cá, em direcção a mim. 

Eu ia ficando por baixo, dois ou três degrau, se a subida continuasse.

Da sola da bota escorria um fio de água, sinal de que anteriormente pisara um regato e a água que se juntara nas pregas do fundo do calçado, para uma melhor aderência, deixassem agora escorrer o liquido que fruía para o chão.

Trata-se de uma escultura, pensei de imediato, embora julgasse estranho o local para semelhante exposição de arte.

De que material era feito é que parecia absurdo, não era pedra, nem madeira, ou cimento, talvez de silicone – pensei.

A água que escorria não parava, e ao fim de algum tempo a observar esta anormalidade, conclui que deveria ser uma daquelas fontes sem fim, em que a água que cai, volta a subir, para cair de novo, por um processo oculto, que engana o observador.

Também não se viam fios, ou arames a segurar a “escultura”.

Passei a mão por cima e por baixo, bem como de lado e nada impedia a minha mão de andar com liberdade ao redor do objecto.

Era uma “coisa” suspensa, escorrendo água e sem finalidade á vista, oculta de todos os olhares e que me parecia constituir alucinação, pois não lhe encontrava finalidade ou interesse maior para além de me intrigar.

Passei-lhe a mão pela textura do perímetro e pareceu-me sintético no calçado, mas de carne e osso na parte da perna que saia da mesma. Seria feita em cera?

A bota era todo-o-terreno, diria, mas parecia antiga e com uso. Estava desapertada, com cordões estragados e alguns golpes no pretenso cabedal, que se abria em ferida.

Virei-lhe costas, disposto a esquecer a sua existência.

Seria uma coisa para contar aos amigos, em noites de cavaqueira, quem sabe, regressar lá para confirmar a sua existência, amanhã, dia seguinte, com a luz do sol.

Lembrei-me que tinha a camara de fotografar comigo, fazendo parte do aparelho multiusos que agora ninguém dispensa, e que era – até à bem pouco tempo, conhecido como telefone – novíssimo canivete suíço da nossa juventude.

Disparei flashada, uma duas vezes e guardei o aparelho para ver mais tarde o que acabava de fotografar, não fosse alguém duvidar do meu encontro com o diabo.

Perdão, a bota, com pé, mas sem corpo, presa por nadas, flutuando e escorrendo água, a despropósito e num local sem significado, antes perdido, oculto e escondido dos olhares de todos.

Naquela noite não pensei mais nisso e acabei o meu passeio, no outro lado das ameias do castelo, ali, onde começou a nacionalidade e o verde das relvas bem cuidadas e das flores fazem ninho junto a estátuas e á recordação de uma senhora de seu nome Munna Dias, que não tinha ideia de ser dali, mas se apresentava como abadessa.

Soube depois que fora ela que mandara construir o castelo e o mosteiro de s. Mamede, antes de haver rei.

(continua)

 

 

 



carlos arinto maremoto às 19:09
link do post | comentar | favorito

Sábado, 11 de Novembro de 2017
O tempo

s.catarina.JPG

 

Aqui o tempo é sempre igual.

Não que o tempo não corra e não nos torne velhos e malditos

Desistimos foi de o medir.

Cada coisa tem o seu tempo, menos na minha aldeia

Em que o tempo é igual para todos.

E é sempre bom o tempo, que nos viu crescer e agora recusa morrer.

 

(Torre da Igreja, da minha aldeia, onde o relógio parou ás 15;57 minutos e ás 03;57 minutos, talvez há mais de 10 anos. Nunca houve dinheiro para o mandar arranjar. Também não faz mal: não vive lá ninguém!)



carlos arinto maremoto às 09:59
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017
Sophia, a parturiente

livros.JPG

SOPHIA A PARTURIENTE

 

O segurança estranhou que aquela porta estivesse encostada, mas ficou na dúvida se o trinco eletrónico havia sido acionado ou não.

Fizera o gesto automático e nem se apercebera que a porta se abrira.

Aliás, a abertura da porta não era antecedida por nenhum sinal sonoro, por isso era difícil perceber se se mantinha aberta ou fechada, a não ser, pela pressão exercida na sua superfície, no gesto habitual de abrir uma porta.

Havia um puxador e era aí que se empurrava.

Um puxador tanto serve para puxar como para empurrar, deixemo-nos de preciosismos linguísticos. Push: empurre!

Cada uma destas lojas – e eram várias, na cave do Pavilhão - guardavam um produto tecnológico de grande valor para apresentação na WebSumit que decorria em Lisboa.

Eram peças únicas, transportadas de avião, com todos os cuidados, para se exibirem numa apresentação que podia valer milhões, se os investidores acreditassem que valeriam muito mais, no futuro.

Um palco todo decorado com cubos de plástico, cercados com armaduras em cruzeta, que servem para guardar água, mas aqui são iluminados com cores, para engalanar o recinto onde os oradores vêm perorar.

Cada apresentador tem dez minutos para mostrar e elogiar o seu produto.

Por debaixo deste palco existe todo um mundo de bastidores. Escadas, quartos, lojas, espaços de lazer, serviços de montagem de equipamentos, várias cafetarias, até alguns sofás onde se pode simplesmente parar um pouco e refletir.

Um segurança, transportando um aparelho de comunicações, seguido por dois outros homens, aproximou-se do corredor lateral e, descendo por um elevador, cruzou dois outros espaços em longitudinal na cave, ficando frente a um conjunto de portas que ostentavam um pequeno numero á altura dos olhos.

As luzes piscaram, primeiro no corredor de paredes betonadas,  em tons alaranjados e azuis, e, sem hesitação,  passaram a umbreira da entrada, que também ela se iluminou, de um branco intenso.

Dentro das quatro paredes, três por três, não havia nada.

O segurança verificou a ordem: levantar o robot, trazendo-o para o Hotel, serviço a cargo da transportadora Oney, gabinete 35. Urgente! Hora da chegada da ordem: 18:33 eram agora 18: 50

O cumprimento da ordem estava correcto. Alguém já se devia ter antecipado.

A porta ostentava o número 35.

Ás vezes existem estas duplicações.

Fechou a porta e mandou de volta os carregadores teclando: gabinete 35 vazio, movimentação já efectuada. Hora local: 18: 55

 

(Enxerto inicial de um conto com oito páginas)



carlos arinto maremoto às 14:30
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 7 de Novembro de 2017
sete novembro

Não podemos esquecer que a vida é uma doença.

 

Andamos embrulhados em trapos                      por causa do frio

A comemorar Outubro

Os mortos que de guerra em guerra

Nunca são os mesmos                                        nunca são os mesmos

 

Todos os terrores são afrodisíacos

E a violência justificada pela crueza da força

(ausência de razão, apenas imposição)

A amputação tornada revolução

Todas as ideologias se maravilham no holocausto

E se admiram na ignominiosa ordem

A que querem obrigar.                                                        as não ideologias

                                                                                               são matreiras

O amor é a armadilha perfeita

Para numa bandeira de promessas

Dizimar! Dizimar, sempre!                                                 A foice, a catana, a pedra

(Ideias, pessoas, tribos, raças, pobres

 E coitados que é tudo de maldade)

Sangue, vicio, sempre mais é o Poder!                           O Poder de ordenar a morte!

 

Todos os seres que se reclamam da humanidade

São pérfidos e algozes. Carrascos e predadores.

 

Sinto que a tristeza não é um bem comum

Antes infecção, tumor, relógio avariado

Os assassinos rejubilam e atacam em bando

                                                                                                 As alfaias do Poder são

Se os padres e sacerdotes da inquisição                          Destruição

Foram para o céu?

Sou eu que estou errado!

Se Estaline ou Mao estão felizes

Sou eu que não percebi nada

                                                                                                  A morte desocupa.

Africa ou o continente do absoluto desprezo

Pala vida: morte executada! Funeral!

                                                                                                  Todas as missas

E na enfermidade da vida resgatada á fome                      São um fim.

Existe a solidão dos que sentem e – por sofrer –

Não conseguem ser felizes.

 

A vida é uma doença que precisa de ser curada.



carlos arinto maremoto às 15:03
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 6 de Novembro de 2017
Gado Transmontano

 

flores.jpg

 

Pedem-me que aqui narre a história do homem que tinha um cão.

Recuso, pela vulgaridade.

Não encontro motivo para acreditar que o assunto possa interessar a qualquer possível leitor que um dia se depare com esta história.

Quem me ler, abandonará o livro em menos de um segundo, logo após escutar as frases iniciais.

Um homem tinha um cão. Então e depois?

O que é que o leitor tem a ver com isso, ou eu, o narrador?

Mesmo os que ao ler um livro possuem um cão aos pés, pensarão: deixa ver se o conto é longo e comprido, tenho mais coisas para fazer hoje, e – especialmente hoje – não me apetece ler histórias de cães, que sempre conviveram e seduziram os humanos como companheiros de raça.

De raça, de caça, de guarda e de companhia.

E de colaboração no trabalho, como hoje chamam aos empregados as companhias modernas.

Já se disséssemos que um cão tinha um homem, poderia causar um sorriso e alguma curiosidade, mas – estou em crer – não iria além desse sorriso o esforço para seguir adiante.

Há coisas bem mais interessantes com que nos preocuparmos.

Uma matilha! Por exemplo! Uma matilha cria-nos a necessidade de fugir, especialmente se esta arreganhar os dentes na nossa direcção.

Se não, podemos sempre enrolarmo-nos com ela (a matilha) em brincadeiras de adolescente, recordando que também já fomos pequenos e todos os bichos, animais e companheiros domésticos fazem parte do reino em que vivemos e até podem ter sido geradas pelo mesmo criador.

Um cão tem um homem ou uma mulher por adopção.

Sim, acontece, sabe-se que os cães são seres vadios que se apaixonam.

A paixão resulta sempre de uma necessidade. De afecto, de comida, de protecção, de saúde…

E talvez por essa relação, pedem-me que a descreva para que possa ser lida e não esquecida, quando houver interesse em lembrar.

Quem pede?

Ora, aqui está a pergunta que pode ter como resposta: o dono do cão.

O dono do cão é homem de muitos anos, alto, espigado, de carnes magras, com uma barba por fazer. Foi engenheiro, sendo o título académico uma marca que determina a sua estatura física, intelectual e até doméstica.

Percebe de construções, de artimanhas de factos, de emaranhados protões em complicados cálculos matemáticos, logísticos e financeiros.

Vive com a família e tem uma vida normal.

Não se inventa uma história que não existe só para encher papel.

E tem um cão.

Mas o cão morreu, como morrem todos os seres vivos, pela idade avançada. Não por doença ou acidente. Morreu porque era velho.

Feitas as exéquias o nosso engenheiro passou a andar sozinho. Nem melhor nem pior. Mas sem o cão. É natural. Um amigo não se substitui.

Sente a falta do seu companheiro de caminhada, mas que pode fazer? Sente a falta de um olhar e de uma troca de carinhos, mas que pode fazer?

Acontece que (está a ver caro leitor) aqui começa o enredo.

Antes que estranhe, dir-lhe-ei que família e cão são coisas diferentes. Por vezes os humanos confundem uma coisa com a outra, mas não é patologia que não se trate com um bom clinico da especialidade.

O engenheiro Aboim é conhecido por gostar de ir passar o verão a uma Lagoa junto á costa alentejana, que se situa junto a um parque dunar de caravanas e aconchegos de praia.

Rulotes de caravanismo, abrigos em madeira, tendas de lonas esticadas por cordame náutico.

Foi como é costume, com a família – não seja impaciente leitor, já lhe digo de quantos pessoas é constituída a família.

A família do engenheiro Aboim é constituída pelos filhos, um rapaz e uma rapariga, e a esposa.

Os filhos são menores e o carro é um suv que agora é moda e o engenheiro e a esposa têm posses e capacidades para pagar carro, impostos, combustível e oficina. Sim, eu sei que não se deve falar em dinheiro.

Isso são tiques de gente pobre. Eu sei.

Mas sai-me a escrita para o borralho, especialmente agora que escrevo, enquanto espero que umas castanhas fiquem cozidas, pois estamos no S. Martinho e tenho de colorir esta história com alguma vibração e acrescentos de pigmentação.

Sim, continuo a achar que a história de um homem e de um cão, não é história.

Não faço ideia se os filhos do senhor engenheiro gostam de cães, mas todos os miúdos gostam, portanto, tome nota, temos uma família feliz (não confundir com um prato gastronómico dos restaurantes chineses) que ficou recentemente sem o seu animal de estimação.

E já cometi um erro de que gostaria de pedir absolvição: disse que o cão tinha um dono.

Um dono?

Procuro um termo mais adequado, mas não encontro.

Os donos dos cães têm dono? Então porque é que os cães hão-de ter dono? Acasalam, juntam-se e obedecem se forem ensinados a obedecer. Convivem e relacionam-se como sempre fizeram com reis ou imperadores.

O dono de todos os cães é uma esfinge que existe no Egipto, como todos os deuses sabem.

(Pssiut…a esfinge é um leão, não um cão! Ignoro esta chamada de atenção da minha consciência)

Pois estava o nosso homem estendido ao sol, quando um cão se aproxima.

Ronda por ali. Afasta-se, volta a aproximar-se. Senta-se junto. Deixa-se ficar um tempo. Olha o engenheiro Aboim – sem saber que ele é engenheiro - os cães não sabem essas coisas – lambe-lhe a mão.

Num gesto reflexivo o engenheiro Amboim faz-lhe um afago.

Aquilo que qualquer um faria.

O cão adormece junto ao seu novo dono.

O nosso engenheiro em férias vai á procura do provável dono do cão. Um cão daqueles não anda por ali, sem dono.

Nota-se que está bem tratado. Não carece de alimento. Não está sujo.

O que fazer?

Não existe rasto do possível dono do cão. Ninguém sabe quem possa ser a pessoa – homem ou mulher – que criou este animal.

O cão já é adulto, se bem que jovem, e nas voltas que o engenheiro Aboim dá pelo parque, pelo areal, pelas caravanas e na recepção do alojamento coletivo, o cão segue-o para todo o lado.

Curioso, muito curioso, pensa.

Aboim estranha uma coisa. A raça do cão.

Cão de Gado Transmontano.

Não é uma raça comum no sul do País. É um animal grande, corpulento. Um animal de trabalho e de guarda.

Aboim conhece muito bem esta raça, pois é a mesma do seu anterior cão. Uma coincidência. Sabe que são persistentes, lutadores, resistentes, aguerridos e meigos. Meigos e cheios de doçura, como oitenta quilos de peso – na idade adulta – podem ser.

Seria possível que este cão quisesse adoptar o engenheiro Aboim, talvez pelo cheiro que as suas roupas tinham?

É possível. Tudo é possível. O estranho é não existir dono para este cão. Donde terá surgido?

Aboim informa as autoridades de que vai ficar com o cão. Não faria sentido deixar o cão ao abandono.

Se o dono aparecer será devolvido.

Um cão deste porte não se perde, não se abandona, não se desliga de um tutor.

Impossível estabelecer um rasto.

Misterioso, este cão reage com a docilidade que a raça possui. Balança a cauda, dança na rua a caminho de futura casa, enrosca-se em buracos e no chão – sempre que descobre terra ou relva - para mostrar que está contente e confortável.

Amboim sente-se repousado e tranquilo.

Perdeu um cão ganhou um cão.

A vida agora é a mesma.

Quinze dias foi o tempo que o seu cão foi e voltou ao reino mágico dos cães, não aguentando a saudade.

Também tive uma gata que….

Chega. Não conto mais!

 



carlos arinto maremoto às 09:42
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017
Demanda

Bernardien Sternheim-2001.jpg

Procuro poetas na frutaria do meu bairro.

Sim, porque os poetas devem ter o sabor da fruta

E o cheiro das coisas naturais, belas e perenes.

 

Procuro poetas na florista do meu bairro.

Pensando que os poetas devem ter as cores de todas as flores

O perfume de todas as pétalas e a liberdade fresca e delicada

De todas os matizes que a natureza oferece com espontaneidade.

 

Procuro poetas por entre os operários que saem da construção

Ou da fábrica de montagens ou da oficina do artesão

Porque os poetas podem estar em todo o lado e são gente

E são anónimos disfarçados de profissão emprestada.

 

Procuro poetas nas livrarias, onde me dizem que estão

Mas não encontro poetas por entre as páginas de livros arrumados

Nem ao balcão ou nas estantes despenteadas por visitantes cansados

Não! Não os encontro lá. Nem os vejo na rua que cruzo e descruzo

Passando, andando, perdendo-me por lá.

 

Procuro poetas à beira do rio, entre as searas, por detrás dos crucifixos

Em monumentos, em museus, em cidades asfaltadas ou vilas e aldeias

Apenas com uma taberna, por entre serras e planuras,

Em grutas, em copas de árvores, em mistérios e ministérios 

Mas em todos os lugares que procurei, não os encontrei.

 

Resta-me procurar entre os poetas mortos e percorrendo jazigos

Encontro aquilo que persigo, poetas consistentes, poetas sorridentes

Poetas urgentes. Foi o tempo que os tornou poeta? Foi a morte?

Foi a saudade? Foi a poesia que os remendou? Não!

 

Foram apenas lágrimas, sensibilidade, olhares e rumores de causas

Que em cristal se sedimentaram e em luz se converteram. Uma faísca

Um vislumbre. Todo o resto é ciúme. E sento-me a pensar…

 

Ser poeta é cavalgar? É ver o Mundo com olhos diferentes?

É gostar de ser gente, mas também espaço, liberdade e essência?

Pode-se ser poeta, não gostando de poesia? Que é isso de ser poeta

E escrever…  frases, palavras, fragmentos de uma elipse do olhar?

 

Ser poeta é epitáfio, espuma, nevoeiro, maré, alvorada

Ou noite cerrada. Poeta vivo é estilhaço. Morto é granada.

Poeta não é profissão. São os outros, que o reconhecem, eu…

Não!

 

 



carlos arinto maremoto às 15:31
link do post | comentar | favorito

contador
MAREMOTO
pesquisar
 
Janeiro 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12

14
15
16
17
18
20

21
22
24
25
26
27

28
29
30
31


textos recentes

...

luzidio obscuro e sagaz

Peregrinação

Novo ano, ano novo

O adeus

O tempo adormece

apelo à contenção - natal...

as dolinas (do meu parafu...

Oumuamua

ÔNFALO

arquivos

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Junho 2016

Janeiro 2014

Março 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

tags

todas as tags

links
alô planeta terra

localizador ip
hora de inverno
hora de verão
contador
a partir de:
28.03.2010