Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Domingo, 19 de Novembro de 2017
O Confessor

 

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Nunca me diverti tanto, como daquela vez em que não fui à Disneylandia.

Devia ter doze anos.

Depois os tempos mudaram e comecei a trabalhar. Era o tempo saudável

Da boa formação, da ajuda aos pais e da criação de galinhas para consumo

Da casa. Vivíamos na lapa, vê lá tu! Na Lapa! Onde não havia capoeiras.

Depois fiz os estudos e continuei a pecar. Porque pecar é preciso.

 

Não quis a guerra nem a revolução. Fui ignorante, ladrão e viciado em liberdade

Fiz tudo e em tudo vivi, longe dos ódios, dos amores, paixões, revoltas e arte.

Fui embrulhado nas ondas da aprendizagem até ao infinito de nós e fui feliz!

 

Lavrei terras e li toda a literatura do mundo. Semeei árvores e sóis e fiz filhos

Volto a dizer-te que fui feliz.

Depois o tempo tudo levou, até a coragem em acreditar nas ilusões do ser

Mas mantive a ousadia de pecar trazendo vida, abrindo universos, criando flores

Foi tudo tão rápido que ousei pensar em morrer, por isso vivi e resisti.

 

Por ti, por nós, pela verdade, foi tudo saudade.

Choro pedras de amargura, mas sei que continuo a gostar de ti

Em todos os sonhos, em todos os dias, volto a nascer

Tu és todos, somos nós!

 

Sou o infinito e não me conformo com o céu ou o inferno, nem com a demência

Do confessor. Sou o aroma que polvilha o segredo e a fragância da natureza.

O rasto do cometa, a nuvem que não existe. O tiro certeiro na madrugada.

 

 



carlos arinto maremoto às 12:28
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Terça-feira, 14 de Novembro de 2017
O pé calçado

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Estando o tempo fresco e agradável, para passear, após um dia de sol, com algum calor, achei-me junto ás muralhas do castelo, em Guimarães, onde vivo, sem dar por isso.

Estar ali, ou noutro sitio qualquer, era-me indiferente, pois caminhava sem destino, quase ignorando as casas e as pessoas que me rodeavam, ou comigo se cruzavam.

Saltei um murete, e enveredei por um carreiro, com vegetação espontânea, indo dar um uma clareira cercada por arbustos altos.

Como o sol já se tinha posto à muito e estava uma noite de lua cheia magnifica, escolhi uma rocha, que me pareceu adequada, para me sentar um pouco.

Olhando á volta, havia vários pedregulhos, com as vestes do tempo, limbos, líquen azulados e flores amarelas pequeníssimas, que apenas se distinguiam, por entre os tufos agarrados à rocha, com uma fixação prolongada do olhar.

Nem barulho, nem sinal de bichos, aves ou repteis que sempre vagueiam pelos terrenos.

Olhei para cima e o céu apresentava-se como sempre se apresenta nesta época do ano: estrelado. Nada a estranhar ou a declarar.

Porém, quando voltei a olhar em frente – primeiro distraidamente, depois apurando a visão e  os sentidos, comecei a distinguir algo absurdo e estranho que me parecia real.

Um pé, dentro de uma bota, com uma sola com sulcos, por onde saía uma perna, tornozelo e canela que acabava logo acima, nada mais havendo a mostrar.

Sola com sulcos, porque a bota se encontrava levantada do chão, aí a metro e meio de altura, ligeiramente inclinada para trás, com a biqueira apontando para o lado em que me encontrava.

Para conseguir descrever a posição exacta do engenho, direi que era como se o dono do pé e da bota (logo também da perna que emergia para o corpo, que não existia) estivesse a subir uma escada, vindo de lá para cá, em direcção a mim. 

Eu ia ficando por baixo, dois ou três degrau, se a subida continuasse.

Da sola da bota escorria um fio de água, sinal de que anteriormente pisara um regato e a água que se juntara nas pregas do fundo do calçado, para uma melhor aderência, deixassem agora escorrer o liquido que fruía para o chão.

Trata-se de uma escultura, pensei de imediato, embora julgasse estranho o local para semelhante exposição de arte.

De que material era feito é que parecia absurdo, não era pedra, nem madeira, ou cimento, talvez de silicone – pensei.

A água que escorria não parava, e ao fim de algum tempo a observar esta anormalidade, conclui que deveria ser uma daquelas fontes sem fim, em que a água que cai, volta a subir, para cair de novo, por um processo oculto, que engana o observador.

Também não se viam fios, ou arames a segurar a “escultura”.

Passei a mão por cima e por baixo, bem como de lado e nada impedia a minha mão de andar com liberdade ao redor do objecto.

Era uma “coisa” suspensa, escorrendo água e sem finalidade á vista, oculta de todos os olhares e que me parecia constituir alucinação, pois não lhe encontrava finalidade ou interesse maior para além de me intrigar.

Passei-lhe a mão pela textura do perímetro e pareceu-me sintético no calçado, mas de carne e osso na parte da perna que saia da mesma. Seria feita em cera?

A bota era todo-o-terreno, diria, mas parecia antiga e com uso. Estava desapertada, com cordões estragados e alguns golpes no pretenso cabedal, que se abria em ferida.

Virei-lhe costas, disposto a esquecer a sua existência.

Seria uma coisa para contar aos amigos, em noites de cavaqueira, quem sabe, regressar lá para confirmar a sua existência, amanhã, dia seguinte, com a luz do sol.

Lembrei-me que tinha a camara de fotografar comigo, fazendo parte do aparelho multiusos que agora ninguém dispensa, e que era – até à bem pouco tempo, conhecido como telefone – novíssimo canivete suíço da nossa juventude.

Disparei flashada, uma duas vezes e guardei o aparelho para ver mais tarde o que acabava de fotografar, não fosse alguém duvidar do meu encontro com o diabo.

Perdão, a bota, com pé, mas sem corpo, presa por nadas, flutuando e escorrendo água, a despropósito e num local sem significado, antes perdido, oculto e escondido dos olhares de todos.

Naquela noite não pensei mais nisso e acabei o meu passeio, no outro lado das ameias do castelo, ali, onde começou a nacionalidade e o verde das relvas bem cuidadas e das flores fazem ninho junto a estátuas e á recordação de uma senhora de seu nome Munna Dias, que não tinha ideia de ser dali, mas se apresentava como abadessa.

Soube depois que fora ela que mandara construir o castelo e o mosteiro de s. Mamede, antes de haver rei.

(continua)

 

 

 



carlos arinto maremoto às 19:09
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Sábado, 11 de Novembro de 2017
O tempo

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Aqui o tempo é sempre igual.

Não que o tempo não corra e não nos torne velhos e malditos

Desistimos foi de o medir.

Cada coisa tem o seu tempo, menos na minha aldeia

Em que o tempo é igual para todos.

E é sempre bom o tempo, que nos viu crescer e agora recusa morrer.

 

(Torre da Igreja, da minha aldeia, onde o relógio parou ás 15;57 minutos e ás 03;57 minutos, talvez há mais de 10 anos. Nunca houve dinheiro para o mandar arranjar. Também não faz mal: não vive lá ninguém!)



carlos arinto maremoto às 09:59
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Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017
Sophia, a parturiente

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SOPHIA A PARTURIENTE

 

O segurança estranhou que aquela porta estivesse encostada, mas ficou na dúvida se o trinco eletrónico havia sido acionado ou não.

Fizera o gesto automático e nem se apercebera que a porta se abrira.

Aliás, a abertura da porta não era antecedida por nenhum sinal sonoro, por isso era difícil perceber se se mantinha aberta ou fechada, a não ser, pela pressão exercida na sua superfície, no gesto habitual de abrir uma porta.

Havia um puxador e era aí que se empurrava.

Um puxador tanto serve para puxar como para empurrar, deixemo-nos de preciosismos linguísticos. Push: empurre!

Cada uma destas lojas – e eram várias, na cave do Pavilhão - guardavam um produto tecnológico de grande valor para apresentação na WebSumit que decorria em Lisboa.

Eram peças únicas, transportadas de avião, com todos os cuidados, para se exibirem numa apresentação que podia valer milhões, se os investidores acreditassem que valeriam muito mais, no futuro.

Um palco todo decorado com cubos de plástico, cercados com armaduras em cruzeta, que servem para guardar água, mas aqui são iluminados com cores, para engalanar o recinto onde os oradores vêm perorar.

Cada apresentador tem dez minutos para mostrar e elogiar o seu produto.

Por debaixo deste palco existe todo um mundo de bastidores. Escadas, quartos, lojas, espaços de lazer, serviços de montagem de equipamentos, várias cafetarias, até alguns sofás onde se pode simplesmente parar um pouco e refletir.

Um segurança, transportando um aparelho de comunicações, seguido por dois outros homens, aproximou-se do corredor lateral e, descendo por um elevador, cruzou dois outros espaços em longitudinal na cave, ficando frente a um conjunto de portas que ostentavam um pequeno numero á altura dos olhos.

As luzes piscaram, primeiro no corredor de paredes betonadas,  em tons alaranjados e azuis, e, sem hesitação,  passaram a umbreira da entrada, que também ela se iluminou, de um branco intenso.

Dentro das quatro paredes, três por três, não havia nada.

O segurança verificou a ordem: levantar o robot, trazendo-o para o Hotel, serviço a cargo da transportadora Oney, gabinete 35. Urgente! Hora da chegada da ordem: 18:33 eram agora 18: 50

O cumprimento da ordem estava correcto. Alguém já se devia ter antecipado.

A porta ostentava o número 35.

Ás vezes existem estas duplicações.

Fechou a porta e mandou de volta os carregadores teclando: gabinete 35 vazio, movimentação já efectuada. Hora local: 18: 55

 

(Enxerto inicial de um conto com oito páginas)



carlos arinto maremoto às 14:30
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Terça-feira, 7 de Novembro de 2017
sete novembro

Não podemos esquecer que a vida é uma doença.

 

Andamos embrulhados em trapos                      por causa do frio

A comemorar Outubro

Os mortos que de guerra em guerra

Nunca são os mesmos                                        nunca são os mesmos

 

Todos os terrores são afrodisíacos

E a violência justificada pela crueza da força

(ausência de razão, apenas imposição)

A amputação tornada revolução

Todas as ideologias se maravilham no holocausto

E se admiram na ignominiosa ordem

A que querem obrigar.                                                        as não ideologias

                                                                                               são matreiras

O amor é a armadilha perfeita

Para numa bandeira de promessas

Dizimar! Dizimar, sempre!                                                 A foice, a catana, a pedra

(Ideias, pessoas, tribos, raças, pobres

 E coitados que é tudo de maldade)

Sangue, vicio, sempre mais é o Poder!                           O Poder de ordenar a morte!

 

Todos os seres que se reclamam da humanidade

São pérfidos e algozes. Carrascos e predadores.

 

Sinto que a tristeza não é um bem comum

Antes infecção, tumor, relógio avariado

Os assassinos rejubilam e atacam em bando

                                                                                                 As alfaias do Poder são

Se os padres e sacerdotes da inquisição                          Destruição

Foram para o céu?

Sou eu que estou errado!

Se Estaline ou Mao estão felizes

Sou eu que não percebi nada

                                                                                                  A morte desocupa.

Africa ou o continente do absoluto desprezo

Pala vida: morte executada! Funeral!

                                                                                                  Todas as missas

E na enfermidade da vida resgatada á fome                      São um fim.

Existe a solidão dos que sentem e – por sofrer –

Não conseguem ser felizes.

 

A vida é uma doença que precisa de ser curada.



carlos arinto maremoto às 15:03
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Segunda-feira, 6 de Novembro de 2017
Gado Transmontano

 

flores.jpg

 

Pedem-me que aqui narre a história do homem que tinha um cão.

Recuso, pela vulgaridade.

Não encontro motivo para acreditar que o assunto possa interessar a qualquer possível leitor que um dia se depare com esta história.

Quem me ler, abandonará o livro em menos de um segundo, logo após escutar as frases iniciais.

Um homem tinha um cão. Então e depois?

O que é que o leitor tem a ver com isso, ou eu, o narrador?

Mesmo os que ao ler um livro possuem um cão aos pés, pensarão: deixa ver se o conto é longo e comprido, tenho mais coisas para fazer hoje, e – especialmente hoje – não me apetece ler histórias de cães, que sempre conviveram e seduziram os humanos como companheiros de raça.

De raça, de caça, de guarda e de companhia.

E de colaboração no trabalho, como hoje chamam aos empregados as companhias modernas.

Já se disséssemos que um cão tinha um homem, poderia causar um sorriso e alguma curiosidade, mas – estou em crer – não iria além desse sorriso o esforço para seguir adiante.

Há coisas bem mais interessantes com que nos preocuparmos.

Uma matilha! Por exemplo! Uma matilha cria-nos a necessidade de fugir, especialmente se esta arreganhar os dentes na nossa direcção.

Se não, podemos sempre enrolarmo-nos com ela (a matilha) em brincadeiras de adolescente, recordando que também já fomos pequenos e todos os bichos, animais e companheiros domésticos fazem parte do reino em que vivemos e até podem ter sido geradas pelo mesmo criador.

Um cão tem um homem ou uma mulher por adopção.

Sim, acontece, sabe-se que os cães são seres vadios que se apaixonam.

A paixão resulta sempre de uma necessidade. De afecto, de comida, de protecção, de saúde…

E talvez por essa relação, pedem-me que a descreva para que possa ser lida e não esquecida, quando houver interesse em lembrar.

Quem pede?

Ora, aqui está a pergunta que pode ter como resposta: o dono do cão.

O dono do cão é homem de muitos anos, alto, espigado, de carnes magras, com uma barba por fazer. Foi engenheiro, sendo o título académico uma marca que determina a sua estatura física, intelectual e até doméstica.

Percebe de construções, de artimanhas de factos, de emaranhados protões em complicados cálculos matemáticos, logísticos e financeiros.

Vive com a família e tem uma vida normal.

Não se inventa uma história que não existe só para encher papel.

E tem um cão.

Mas o cão morreu, como morrem todos os seres vivos, pela idade avançada. Não por doença ou acidente. Morreu porque era velho.

Feitas as exéquias o nosso engenheiro passou a andar sozinho. Nem melhor nem pior. Mas sem o cão. É natural. Um amigo não se substitui.

Sente a falta do seu companheiro de caminhada, mas que pode fazer? Sente a falta de um olhar e de uma troca de carinhos, mas que pode fazer?

Acontece que (está a ver caro leitor) aqui começa o enredo.

Antes que estranhe, dir-lhe-ei que família e cão são coisas diferentes. Por vezes os humanos confundem uma coisa com a outra, mas não é patologia que não se trate com um bom clinico da especialidade.

O engenheiro Aboim é conhecido por gostar de ir passar o verão a uma Lagoa junto á costa alentejana, que se situa junto a um parque dunar de caravanas e aconchegos de praia.

Rulotes de caravanismo, abrigos em madeira, tendas de lonas esticadas por cordame náutico.

Foi como é costume, com a família – não seja impaciente leitor, já lhe digo de quantos pessoas é constituída a família.

A família do engenheiro Aboim é constituída pelos filhos, um rapaz e uma rapariga, e a esposa.

Os filhos são menores e o carro é um suv que agora é moda e o engenheiro e a esposa têm posses e capacidades para pagar carro, impostos, combustível e oficina. Sim, eu sei que não se deve falar em dinheiro.

Isso são tiques de gente pobre. Eu sei.

Mas sai-me a escrita para o borralho, especialmente agora que escrevo, enquanto espero que umas castanhas fiquem cozidas, pois estamos no S. Martinho e tenho de colorir esta história com alguma vibração e acrescentos de pigmentação.

Sim, continuo a achar que a história de um homem e de um cão, não é história.

Não faço ideia se os filhos do senhor engenheiro gostam de cães, mas todos os miúdos gostam, portanto, tome nota, temos uma família feliz (não confundir com um prato gastronómico dos restaurantes chineses) que ficou recentemente sem o seu animal de estimação.

E já cometi um erro de que gostaria de pedir absolvição: disse que o cão tinha um dono.

Um dono?

Procuro um termo mais adequado, mas não encontro.

Os donos dos cães têm dono? Então porque é que os cães hão-de ter dono? Acasalam, juntam-se e obedecem se forem ensinados a obedecer. Convivem e relacionam-se como sempre fizeram com reis ou imperadores.

O dono de todos os cães é uma esfinge que existe no Egipto, como todos os deuses sabem.

(Pssiut…a esfinge é um leão, não um cão! Ignoro esta chamada de atenção da minha consciência)

Pois estava o nosso homem estendido ao sol, quando um cão se aproxima.

Ronda por ali. Afasta-se, volta a aproximar-se. Senta-se junto. Deixa-se ficar um tempo. Olha o engenheiro Aboim – sem saber que ele é engenheiro - os cães não sabem essas coisas – lambe-lhe a mão.

Num gesto reflexivo o engenheiro Amboim faz-lhe um afago.

Aquilo que qualquer um faria.

O cão adormece junto ao seu novo dono.

O nosso engenheiro em férias vai á procura do provável dono do cão. Um cão daqueles não anda por ali, sem dono.

Nota-se que está bem tratado. Não carece de alimento. Não está sujo.

O que fazer?

Não existe rasto do possível dono do cão. Ninguém sabe quem possa ser a pessoa – homem ou mulher – que criou este animal.

O cão já é adulto, se bem que jovem, e nas voltas que o engenheiro Aboim dá pelo parque, pelo areal, pelas caravanas e na recepção do alojamento coletivo, o cão segue-o para todo o lado.

Curioso, muito curioso, pensa.

Aboim estranha uma coisa. A raça do cão.

Cão de Gado Transmontano.

Não é uma raça comum no sul do País. É um animal grande, corpulento. Um animal de trabalho e de guarda.

Aboim conhece muito bem esta raça, pois é a mesma do seu anterior cão. Uma coincidência. Sabe que são persistentes, lutadores, resistentes, aguerridos e meigos. Meigos e cheios de doçura, como oitenta quilos de peso – na idade adulta – podem ser.

Seria possível que este cão quisesse adoptar o engenheiro Aboim, talvez pelo cheiro que as suas roupas tinham?

É possível. Tudo é possível. O estranho é não existir dono para este cão. Donde terá surgido?

Aboim informa as autoridades de que vai ficar com o cão. Não faria sentido deixar o cão ao abandono.

Se o dono aparecer será devolvido.

Um cão deste porte não se perde, não se abandona, não se desliga de um tutor.

Impossível estabelecer um rasto.

Misterioso, este cão reage com a docilidade que a raça possui. Balança a cauda, dança na rua a caminho de futura casa, enrosca-se em buracos e no chão – sempre que descobre terra ou relva - para mostrar que está contente e confortável.

Amboim sente-se repousado e tranquilo.

Perdeu um cão ganhou um cão.

A vida agora é a mesma.

Quinze dias foi o tempo que o seu cão foi e voltou ao reino mágico dos cães, não aguentando a saudade.

Também tive uma gata que….

Chega. Não conto mais!

 



carlos arinto maremoto às 09:42
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Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017
Demanda

Bernardien Sternheim-2001.jpg

Procuro poetas na frutaria do meu bairro.

Sim, porque os poetas devem ter o sabor da fruta

E o cheiro das coisas naturais, belas e perenes.

 

Procuro poetas na florista do meu bairro.

Pensando que os poetas devem ter as cores de todas as flores

O perfume de todas as pétalas e a liberdade fresca e delicada

De todas os matizes que a natureza oferece com espontaneidade.

 

Procuro poetas por entre os operários que saem da construção

Ou da fábrica de montagens ou da oficina do artesão

Porque os poetas podem estar em todo o lado e são gente

E são anónimos disfarçados de profissão emprestada.

 

Procuro poetas nas livrarias, onde me dizem que estão

Mas não encontro poetas por entre as páginas de livros arrumados

Nem ao balcão ou nas estantes despenteadas por visitantes cansados

Não! Não os encontro lá. Nem os vejo na rua que cruzo e descruzo

Passando, andando, perdendo-me por lá.

 

Procuro poetas à beira do rio, entre as searas, por detrás dos crucifixos

Em monumentos, em museus, em cidades asfaltadas ou vilas e aldeias

Apenas com uma taberna, por entre serras e planuras,

Em grutas, em copas de árvores, em mistérios e ministérios 

Mas em todos os lugares que procurei, não os encontrei.

 

Resta-me procurar entre os poetas mortos e percorrendo jazigos

Encontro aquilo que persigo, poetas consistentes, poetas sorridentes

Poetas urgentes. Foi o tempo que os tornou poeta? Foi a morte?

Foi a saudade? Foi a poesia que os remendou? Não!

 

Foram apenas lágrimas, sensibilidade, olhares e rumores de causas

Que em cristal se sedimentaram e em luz se converteram. Uma faísca

Um vislumbre. Todo o resto é ciúme. E sento-me a pensar…

 

Ser poeta é cavalgar? É ver o Mundo com olhos diferentes?

É gostar de ser gente, mas também espaço, liberdade e essência?

Pode-se ser poeta, não gostando de poesia? Que é isso de ser poeta

E escrever…  frases, palavras, fragmentos de uma elipse do olhar?

 

Ser poeta é epitáfio, espuma, nevoeiro, maré, alvorada

Ou noite cerrada. Poeta vivo é estilhaço. Morto é granada.

Poeta não é profissão. São os outros, que o reconhecem, eu…

Não!

 

 



carlos arinto maremoto às 15:31
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Quinta-feira, 2 de Novembro de 2017
PEGADA ONCOLÓGICA

451 fahrenheit.jpg

 

Veio a mosca

E pôs o pé.

Veio o pássaro

E pôs a pata.

Depois o cão

O seu dente

O urso

A garra

O dinossauro

A perna de traz

 

Veio o homem

E construiu

Por cima

Um centro comercial.

 

 



carlos arinto maremoto às 11:57
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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2017
necrófago

tiro.jpeg

Rio, que vem do sul, correndo para norte

Mar subterrâneo em direcção oposta.

Vento, rajada, geada, nortada.

Pássaro do deserto, beduíno com fome.

Coruja, canibal, acidente. Carnaval.

 

Toda a guerra se alimenta de mortos

Toda a paz se constrói sobre os cadáveres



carlos arinto maremoto às 19:52
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Terça-feira, 31 de Outubro de 2017
Pau de canela

terminal.jpg

 

A ideia tornara-se “espontânea” quando – já lá vão alguns anos – visitou o museu Picasso em Barcelona.

Encontrou o mesmo quadro repetido vezes sem conta, em tons de luz e cor diferentes.

Salas e salas.

Espaços quadrados, paredes altas, espaços em rectangulo, paredes baixas, janelas, luzes e tetos sem cor, chão branco.

Telas enormes, algumas em losango do chão ao alto com a ponta dobrada.

Quadrados pequenos, sem moldura, um, dois, muitos…Rectangulos de cima abaixo.

Telas, de uma mesma época, outros de épocas diferentes que repetiam o original, repetindo a cópia, multiplicando a soma multiplicada e tornada igual ou diferente, parecida ou semelhante. Diferente!

Mas o desenho de fundo, a intenção e a impressão que criavam sendo sempre o mesmo eram diferentes e assustadoras ou belas, não paravam de maravilhar o visitante.

Uma mesma criação, aperfeiçoada, aperfeiçoada, aperfeiçoada.

Ou simplesmente repetida.

Deveria ter vinte anos e nunca mais de esqueceu dos tons ocres, amarelos, roxos, vermelhos e azuis que viu.

Até ao infinito encontrou baços, brilhantes, lisos, empastelados, grumosos, transparentes, e todas as texturas brancas e negras, sarapintadas como lagartos ou flores á chuva.

Por isso,  a ideia de apenas escrever um livro, ficou!

Faria um original e depois actualizações: cópias com palavras diferentes, palavras iguais para dizer outra coisa, as mesmas para dizer coisa diferente.

Um livro seria suficiente. Não havia muito mais a dizer.

Não ganharia qualquer prémio, mas isso não importava.

E foi assim que começou a saga de Américo de Deus Barroso, funcionário do Estado, escritor nas horas vagas e consumidor de literatura.

Lera os clássicos,  por obrigação. Lera os modernos e os “grandes”, mas…não desistira da ideia, que os amigos consideravam de pouco nexo.

Por isso passou a vida a escrever.

Ou a rescrever, a inventar a escrita, a simular uma forma de comunicação que ficasse registada em símbolos, alfabetos, emaranhados de planton, desenhos em arabescos ou rabiscos.

Em riscos.

Os primeiros vinte anos, foram passados á procura da ideia original e ampla, que lhe permitisse poder depois esfrangalhar os horizontes e rasgar as minudências de uma imprecisão.

A imperceptivel presença de uma pulga a estragar o percurso das águas da escrita, que devem escorrer sem obstáculos ou uma manada de elefantes em furia, na floresta tropical, tudo era possivel emendar, riscar e melhorar para que não houvesse duvidas sobre o dito e pretendido dizer.

Fez arquivo e foi inventando tudo o que havia para inventar utilizando todos os truques que possam ser permitidos com ousadia de manter uma coerência.

Ao encontrar o “estado perfeito” da límpida nudez do primeiro e inicial escrito Américo Barroso começou a torturar as palavras, os textos, as imagens e os mapas gráficos onde inseria o documento universal de pegada que haveria de deixar para os vindouros.

Se vindouros houvessem.

Pela ordem “das coisas” haveria, mas isso não era preocupação sua. Se os vindouros não chegassem a existir a sua escrita manter-se-ia com a função do nada, como agora acontecia, já que ninguém lera os textos e as histórias que escrevia.

Fazer o mesmo, sempre, em escalas desiguais, acrescentando ou diminuindo o pormenor, trocando tabuinhas por plásticos, celofane por papel pardo e misturando as ementas para gostos diferentes ou possíveis.

Sempre criativo. Pode-se dizer que foi sempre criativo.

E um sucesso. A palavra sucesso dizia respeito apenas a si, mas que lhe importava.

Os leitores andavam entretidos, distraidos, ausentes, manjando o que as conveniencias ou as modas fazem valer.

Então, após o seu falecimento prematuro – morreu com quarenta anos, por tumor vesicular, a acreditar na certidão de óbito – os seus “papeis” foram entregues aos herdeiros.

Estes, que não esperavam nada de bom da fortuna do pai, que sabiam inexistente, fizeram vista grossa e ignoraram o testemunho.

Nunca a escrita, os livros ou a arte dera comer a ninguém, diziam.

Outros eram de opinião de que se deveria dar a ler os “escritos” a quem soubesse avaliar a possibilidade de ali estar tesouro que valesse ser preservado e que o nome do progenitor pudesse ter simpatia nalgumas ramagens do grupo de cidadãos da aldeia, que eram o mundo dos sábios.

Mas os sábios da aldeia eram muitos. Sábios, feiticeiros, curandeiros, prognosticadores, analistas e comentadores em cultura de aquário viveirista, colhendo óbulos. 

Américo Barrosos fora cauteloso e guardava o seu génio criativo como se preciosidade fosse. Dissimulado. Não haveria de ser, qualquer um que tropecasse na sua escrita, que decifrasse o enigma e o mistério da leitura. 

O tempo faria a sua espera, a aprendizagem e a iniciação.

Por isso, encadernou cada escrito em embalagem diferente e espalhou as mesmas por diversos cofres de armazenamento.

Em envelopes, em pastas de cartolina, em “canetas” informáticas, em sobrados de prateleiras de cozinha, nas estantes – evidentemente – em cartolinas coloridas e peles de borrego tratadas, á maneira antiga, como embrulho.

Mas nas arrumações e nas mudanças que sempre acontecem quando o dono da casa desaparece, muito se perde.

E neste caso, que não é único, perdeu-se tudo.

Quando procuraram encontrar que mostrar, para uma leitura apressada, apenas encontraram invólucros vazios, sem conteúdos. Letras no fundo de latas de legumes secos, assim como massinhas para a canja de galinha – que a mulher fazia pelo Natal – qual sopa de alfabetos, de letras e de improváveis histórias.

Onde estava a originalidade de um conto que não pode ser lido?

Começava em África e depois falava-se do oriente. Dizia-se dos além oceanos e descrevia povos europeus e tribos que viviam na era do gelo.

Outros medievos, eram costumes e ceifas antigas.

Filósofos, dramaturgos, poetas, aventureiros e mitos compilados por um concilio de que só Américo Barradas conhecia a data da celebração.

Guerras e emoções, desastres, descobertas, provas cientificas e tudo o que a humanidade tinha vivido eram poeira, nas histórias de Barroso. O leitor "atento" tardava em chegar, só ele descobriria a magia de transformar o encantamento em literatura.

Sobrou um "pau de canela" enrolado, como a Tora, que está exposto no frontespicio do chafariz, onde se ler a  legenda: oferta de beberagem: todo o conhecimento faz sede.

- Parce-me mais um torniquete de um saca-rolhas antigo. Diz alguém.

Talvez!

Tudo em literatura é possivel.



carlos arinto maremoto às 19:04
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Domingo, 29 de Outubro de 2017
a casa

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É quando a casa fica para mim                               A casa resiste e persiste

Que eu gosto mais de estar nela                             É rocha é tábua é pedra

Sentir-lhe os pulsos e os tornozelos                        Muro, parede, portada

Saborear-lhe o cheiro                                              A casa é minha morada

Passar-lhe a mão pela construção

E respirar os silêncios e os sentidos                       Foi ninho, colmeia, tempo

A casa existe á minha espera                                  É passado e lembrança

Como um ovo ou uma jangada                                 Mas continua a ser

Nela me respiro ou me sepulto                                 Memória que abriga 

Por quase tudo, ás vezes por nada                          Os sons de cheiros passados

Desamparada, resistente, vigilante                          Os sorrisos, os namorados

Existe apenas consoante                                       Os filhos, aqui, gerados.

E em ocasiões divinas em que permanece

Sem mutação ou traição.                                           Casas que desabam e morrem

                                                                                 Casas que finguem sentimentos

A casa não deve, não teme                                          Casas que são monumentos

Não se agiganta

É apenas um quadrado                                             As casas desobedecem!    

Que canta.



carlos arinto maremoto às 17:55
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
Fylella Fastidiosa

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O comboio para Bragança estava atrasado. Não faz mal, eu não vou para Bragança.

O tempo só é importante quando vamos para Bragança.

Começa-se um bocadinho depois, e vamos atrasando pelo caminho, acabando por chegar tarde ao nosso próprio funeral.

O que é uma maldade fazer os voluntários e profissionais da saudade, esperar!

Em Bragança, será a cerimónia religiosa.

Um padre que amaldiçoará o defunto dizendo-lhe que ele foi um pecador. Mas que como está arrependido, Deus compreende e perdoa.

E se não está arrependido, agora é tarde: vai mesmo assim para o céu, com as imperfeições.

Um padre insultará toda a congregação revelando que o finado não foi um bom cristão e que terá que pagar pelos seus pecados.

Sim, a cerimónia tem um custo, se bem que em euros.

E o viajante ali, sem se poder defender, nem ninguém que lhe tome a justiça de uma acareação de um contraditório.

Pela boca do sacerdote saem as palavras de Deus.

Ainda bem que vou na direcção contrária, para sul, onde os comboios não se atrasam e cumprem horários.

Pode ser que seja porque é a descer, afinal o sul fica lá em baixo.

Fujo das oliveiras, mas esbarro com as amendoeiras. Videiras há por todo o lado e vinho bem bom.

É preciso tomar decisões e ter atitude.

A philaenus spumarius deixou a sua terra natal, no mediterrâneo e ameaça a costa. Trata-se de uma praga. De uma infestação para a qual não se conhece cura, remédio ou combate.

Se fosse tão fácil como construir um muro, de pedra, de arame, de betão, fá-lo-íamos, mas a philaenus spumarius voa. Portanto não resulta!

Também anda, se desloca e migra.

A estrada nacional dois – que liga faro a Vila Real e á fronteira – encontra-se assim em alerta máximo. Quase encerrada.

Depois do Tejo, desfilam as horas pela paisagem das janelas fechadas.

Conheci Margarida, rapariga simpática, enquanto adormeço ao atravessar o Alentejo.

São verdes a perder de vista. Pequenos montes, searas, azuis e amarelos nos salpicos dos inclinados arrozais ou nos caneiros que embalam a água que há-de ser tudo o que Deus quiser.

Azuis e amarelos que se enxameiam com pássaros, borboletas e toda a espécie de insectos dos mais pequenos aos maiores. Abelhas, zangões, carochas, moscas e o sempiterno mosquito.

Há aquela luz e aquele sol que se conhece e ama.

Vinhedos, plantações de pasto. Gado e mais gado.

Este comboio não apita. Escorrega de mansinho, não perturbando a estiada, nem as nuvens de vapor que se levantam do chão, em direcção ao sempre, como ondas de miragem.

Era bom que chovesse, mas também é bom que não chova.

Margarida tem os olhos azuis como as pequenas flores que se avistam ao longe.

Que belos os sobreiros, na sua imobilidade de tela em “umbrela”. Não conheço palavra melhor que defina o chapéu de um sobreiro.

Que esquadria e mapa fazem os olivais. Que conforto oferecem as azinheiras para quem olha sem clemencia para o arrasador sol que é luz, cabaça e refresco hortelão.

Os melões estão maduros. A azinhaga dorme a sexta da tarde, com alguns patos no colo..um ou outro pescador aventureiro segura uma linha que se estica entre a cana de titânio  e a superfície da água, que os melhores preferem a madrugada.

Ainda falta muito para chegarmos á terra das figueiras? Pergunto ao revisor.

Estamos no horário. Duas horas.

Duas horas? O tempo de viajar de Lisboa a Paris, em avião.

Aqui o tempo possui outra dimensão, outra textura, outros afazeres.

Aqui o tempo não voa, saboreia-se, faz-nos apreciar a delícia da maturidade das coisas boas, como o pastoreio.

O tempo não para e traz-nos a felicidade.

Margarida, meu amor. Ainda nem trocámos uma palavra, mas sei que este é o amor da minha vida.

Há paixões assim!

E, por instinto, sei, também, que ela me ama. Há sua maneira, com o seu feitio, com os seus caprichos, mas sem hesitações. Como quem se dá e oferece tudo!

Cambaleio com o embalar do comboio.

Já não a dormir, mas ébrio.

Apetece-me o cação ou a moreia frita para um branco orgulhoso, cheio, incorpado.

Do bater do mar nas escarpadas falésias, onde praias e portos se cruzam, até à fronteira árida pejada de animais em vara, soltos, livres e em solar crescimento alimentados, tudo existe: o espelho da água, a secura dos campos, os cavalos de raça o queijo, o mel e a cortiça.

Sinto o cheiro do pão acabado de fazer.

Todo o Alentejo tem padarias com fornos a lenha. Lenha que é aproveitada da limpeza dos pinheiros e das árvores que se desbastam. O pão é a base de uma alimentação que persiste. como sempre foi, a moçarábica linguagem.

Sinto que o meu destino é este!

Margarida vem comigo! Chegámos!



carlos arinto maremoto às 10:46
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o encontro

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A noite estava seca. Já não era verão, mas o calor continuava a fazer-se sentir. Os entendidos diziam que eram consequências das “alterações climáticas”.

José, procurou uma cadeira, para continuar a ler o romance que comprara na última ida a Coimbra. Sabia-lhe bem, estar ali, no silêncio dos matos e na ausência de tempo.

Ali, onde os sinais de comunicação não chegavam.

Houvera cabos para telefones, ao longo das serras, estendidos em postes de madeira, como estendais de roupa, mas haviam ardido nos incêndios e ainda não tinham sido repostos. Se calhar nunca seriam.

Tudo estava ao abandono: os muros, as pedras, as ribeiras, os matos queimados que agora eram apenas cinzas, os caminhos e as casas.

As casas iam ficando destelhadas como bocas de peixe sem ar, onde silvas e animais se enrolavam, por entre cacos de louças, alumínios e restos de mobiliário.

As pessoas demandavam Lisboa ou o Porto á procura de emoções e melhor vida.

Ali o mato crescia em cada sulco das dobras da terra. Os telhados, que não tinham vergado, enferrujavam com o gelo e até as raposas vagueavam pelo casario em completa liberdade e despreocupação.

Continuava a haver eletricidade e água, embora esta última escorresse com pouca vontade das torneiras antigas, com punhos em cruzeta. As borrachas, as juntas, as paredes e os aramados, todos sem exceção, se iam deteriorando, estragando, ganhando vicio. Até os pinheiros e os carvalhos iam tombando do alto da sua copa para o chão, vencidos pelas térmitas, pelo caruncho, o gorgulho e pelos roedores da floresta que cada vez eram mais.

José gostava deste ambiente: cerrado, denso, emaranhado, quase tétrico.

Gostava dos animais selvagens, dos javalis, dos coelhos, das aranhas…

José gostava deste fim do mundo. Um mundo de sobrevivência depois do grande colapso, da ruina, do apocalipse anunciado e esperado, que finalmente chegara num dia de sol e calor, como se fosse novidade e natural.

Lia livros, ouvia música, escrevia poemas de amor ou devaneios próprios da solidão.

Preferia a solidão dos montes á solidão da cidade.

De há muito que José optara por estar só.

Hoje seria um dia muito especial.

Bem, hoje não, que o dia estava a chegar ao fim, mas amanhã. Teria companhia.

Em Coimbra contactara um serviço de acompanhantes: escorts como se diz ou se gosta de  chamar, adocicando a imagem.

Não! Nada disso, nada de putedo.

Este serviço era prestigiado e tem por finalidade fazer companhia, sem sexo.

Pode-se requisitar uma acompanhante feminina, ou acompanhante masculino para conversar, comer num restaurante, ou passear.

Os campos de cruzamento estão bem delimitados. Não pode existir contacto físico e a pessoa contratada tem de ter formação nos assuntos que se queiram discutir.

O convidado, chamemos-lhe assim, pode servir para ser exibido num qualquer evento social, numa apresentação ou jantar de grupo de uma qualquer fraternidade, havendo a combinar a titularidade do mesmo: namorada, mãe, amigo, parceiro, advogado ou madrasta….eram hipóteses plausíveis.

Ou então deixar a conclusão para a imaginação de cada um, consoante a tendência para a maldade ou a coscuvilhice.

Mas um homem não pode ser um solitário. Um homem sozinho não serve nem para comer, dizia o povo destas serras.

O encontro não poderia ser ali. Claro!

Aquilo era uma toca, uma caverna, um tugúrio distante.

Por isso, José levantar-se-ia cedo para ir até uma aldeia próxima, onde apanharia transporte para sul, onde, depois, se encontraria com a pessoa que viria ao seu encontro, para em conjunto almoçarem no restaurante da vila, famoso pelas iguarias e confeção dos seus petiscos.

Estes encontros teriam de ser sempre em locais públicos, pois havia os aspetos da segurança a ter em conta. José compreendia a cautela.

Numa outra fase da relação – se relação se pode chamar a este tipo de convívio, que agora os média chamavam de socialização – poderia evoluir-se para formas de presença distintas, mas impensável num primeiro encontro.

José não era tímido, mas tinha dificuldade em relacionar-se.

As mulheres pareciam-lhe perigosas, cheias de caprichos e demasiado absorventes.

Ele gostava da sua solidão. Sempre foi assim. Mas, claro, precisava também do convívio e da relação social para se equilibrar.

Os amigos? Ah! Os amigos…outro conceito estranho, perigoso e destituído de significado.

Cada perna com seu passo, ambas movendo-se para fazer a caminhada: mulheres e amigos.

José tinha consciência de que deveria ter nascido com algum defeito genético ou então foi a sua evolução darwiniana que merdara em sentido contrário á espécie e ao espectável.

O mesmo se estava a passar com o clima.

José tinha pena de não ser crente numa qualquer forma de fé.

O clima já não era o que fora. “Está sol e a chover” estão as bruxas a nascer.

Que saudades! Meu Deus. Que saudades!

As procissões, os sacrifícios, as oferendas, as rezas, a devoção…

Se, se socorrera do serviço de acompanhantes era para impressionar os vizinhos (tinha de dizê-lo, era verdade, sempre habituados a vê-lo sozinho) e para poder desentorpecer a língua, conversando.

Mas se o local é isolado, inóspito e escondido, existem vizinhos?

Sim, vizinhos virtuais nas redes sociais, vizinhos do instagram, vizinhos no twiter, vizinhos de uma realidade que nos acompanha mesmo quando não existimos nessa realidade

Estamos rodeados de vizinhos. Os vizinhos são a nossa paz social, os vizinhos são esteiros, mesmo quando somos maus vizinhos. Vizinhos e gadgets, o mundo avança para abstrações tecnológicas. 

Exercitar a mente, também, pois a acompanhante que lhe havia sido sugerida era licenciada em ciências da natureza.

Fora o tema proposto e escolhido.

Se era bonita? José nem tinha pensado nisso.

O dia chegou rapidamente.

Então o que é que me contas?

- Madalena, muito prazer.

- O prazer é todo meu, Chamo-me José.

Da estação dos autocarros foram em passeio até ao largo frondoso onde um repuxo aspergia água em redor devido ao vento, salpicando os transeuntes. Que não eram muitos diga-se, mas alguns idosos e um ou outro bombeiro.

Havia duas lojas de venda de bens de primeira necessidade. Um restaurante, mais casa de pasto, como ainda não se disse e uma venda de produtos variados que tanto são desinfetantes para a agricultura, como ventoinhas para o teto.

- O que faz aqui, José? Pergunta Madalena, admirada por descobrir um jovem apresentável, com aspeto citadino e não deformado pela vida do campo, num lugar distante e obscuro que havia tido dificuldade em localizar no Google.

José, sorri. Faço nada! Estou simplesmente aqui. Satisfaço o meu desejo de solidão e de conhecimento.

- De conhecimento?

- Sim observo a natureza. Vejo a natureza nascer, crescer e morrer, modificar-se. O que me pode dizer acerca disso, é um assunto que lhe interessa?

José pede autorização para tirar fotos com a sua acompanhante. Faz parte do contrato, não é preciso recordar. Faz igualmente algumas selfies, em que Madalena aparece por detrás ou ao lado. (“ciências da natureza”, lembram-se)

No sitio que habita não há espaço para as redes sociais, mas é bom estar em consonância com o  mundo. As redes sociais pairam numa nuvem acima da cabeça das pessoas, talvez aquela que vai ali…diz apontando uma feia e escura mancha no céu.

Madalena olha para José com incredulidade. É ingénuo ou está a fazer de mim parva?

José ri-se. Não temos muito por onde escolher, existe apenas uma nuvem, o dia está claro e limpo.

- Vamos comer, estou cheia de fome.

O espaço está quase vazio, porque ainda é cedo, mas mesmo assim existem turistas numa mesa junto á janela.

Os turistas são a nova praga. A infestante natural que tudo domina.

Línguas eslavas, formas esquisitas de vestir, próprias de outras culturas, longitudes e tradições. Peles brancas, cabelos apanhados em carrapito ou rabo-de-cavalo. Corpos esguios, sedentos e enxutos de líquidos (estes turistas não são bebedores de cerveja, nem de vinho ou outras bebidas alcoólicas) que se alimentam com frugalidade.

Discretamente José vai tirando fotos.

- Conte-me o que faz?

Madalena, sabe que este “trabalho” é confessional. Por isso tem uma história preparada. É uma boa profissional.

Sou auxiliar de enfermagem. Não acabei o curso, embora pretendo conclui-lo, no próximo ano. Vivo em Condeixa e trabalho num hospital de Coimbra. Tenho namorado e vivo com os meus pais. Que mais quer saber?

- E gosta do que faz?

- Sim, gosto! E o José porque está aqui?

A prática clinica de enfermagem possui algumas características terapêuticas, como levar o paciente a falar sobre si, a tomar consciência de si, a introspecionar-se. 

- Sou um guardião do tempo, diz meio a brincar, estou aqui a admirar a beleza da criação.

- Um discípulo, portanto? É crente?

- Se quiser.

Começam a chegar pessoas. Trabalhadores que vêm almoçar, pessoal das redondezas, gente que mora longe e está deslocada das suas casas.

O espaço é pequeno e com os turistas, e agora José e Madalena, faltam mesas para os habituais.

Ouve-se o arrastar de mesas para o exterior, faz-se uma algazarra no transporte das toalhas em papel, nos pratos e talheres, no jarro de vinho e no cesto do pão.

- Deixe estar dona Isabel, nós ajudamos. Trate lá da comidinha… são frases que se ouvem.

Madalena olha para José que parece estar a apreciar a sua companhia. Ainda não começaram a comer, mas não têm pressa.

- Vive aqui todo o ano?

- Sim e Não! Como consigo estar em dois lados ao mesmo tempo, estou aqui e não estou. Uma parte de mim vive aqui, a outra não!

Erro de perceção, sim, tem aparecido muito nos jornais – vai pensando Madalena, quase técnica diplomada nas ciências do foro psíquico, sem ter frequentado a universidade, mas na universidade da vida -  mas o melhor é deixá-lo dizer o que quiser, afinal estou a ser paga para ser ouvinte.

- Como assim?

- Não lhe posso explicar. É assim.

Ah! Bom. OK. Os perturbados não devem ser contrariados.

Este tipo de “encontros” tem os seus riscos e ousadias. Esta pode ser uma delas.

- Como é que uma futura enfermeira tem uma especialização em “ciências da natureza”?

- Por mero acaso. Tal como o José diz que vive em dois lados ao mesmo tempo e é um guardião do tempo, eu sou um rio que tem braços e vida nas memórias que passam. Fui duende e bicho da floresta, em outra vida. Fiz bio paisagismo em Coimbra.

“Não sei se acertei, mas parece-me que este tipo de conversa é adequado” pensa.

- Eu sou a mátria, conclui, aquela que tem o condão de povoar.

- Tem razão, diz, desculpe, devia ter percebido. A Madalena é a chuva e o milagre.

- Claro! E bebem um copo de vinho. Fazem um brinde. Então, “ao nosso encontro. Que seja sempre feliz.”

Como toda a eternidade, dura enquanto durar.

Comem com gosto, apetite e vontade. Vão falando sobre trivialidades.

Depois, José paga a conta, e saem para a praça, agora com a luz forte da tarde a tornar as pedras do chão espelhos.

Vão até um lugarejo, onde um homem solitário toca concertina.

José e Madalena ensaiam uns passos de dança.

- Foi muito bom conhecê-la. Diz, pois aproxima-se a hora da camioneta de regresso.

- Também gostei de o conhecer.

José acena um adeus, porque Madalena já não está ali.

Quando Madalena deixou de estar ali, sentiu a solidão, mas reteve o calor da sua conversada numa espécie de vibração, junto a si.

 Foi agradável. A solidão faz mal, mas a solidão purifica. E José não é de se “meter nos copos” ou em “drogas” para combater o medo e enfrentar a realidade.

Foi uma coisa que aprendeu cedo com os pais.

Ser valente!

Não ter medo, saber combater o medo.

 

 



carlos arinto maremoto às 10:28
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
27

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O dia é sempre o mesmo

O que varia é o sitio em que se coloca a semana

O mês também não se transmuta

O ano acrescenta-se, sempre.

 

                                                             Fazes anos

                                                             Que coisa maravilhosa

                                                             Que alegria!

 

Que pena não poder ver-te

Tocar-te! Sentir-te!

 

Enfim, banalidades.

Fazes recordação e sombra aos meus dias

Apagas o sorriso, acendes a memória

Afagas-me o pensamento gelado pela saudade

E não sentes que te agradeço.         

                                                                Agradeço sorrindo!

Não! Não sentes que te quero, e querendo-te

Sinto-me viver e renascer e mudar…

 

Mas amanhã, já tudo passa. É outro dia.

                                                                 Outra realidade.

Tem graça esta ausência de tudo,

Este tudo e nada, esta lembrança que sendo boa

Começa a ser desgraça,

                                                              mas depois passa.

 

                                                               Tem graça! Ainda ontem era…

 

Faço os votos do costume, lavo a cara,

Enxugo os olhos

 

                                                               Desejo-te felicidades.

                                                               Também eu te quero bem.



carlos arinto maremoto às 18:49
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Sexta-feira, 13 de Outubro de 2017
Ida ao supermercado

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(guerras do dia-a-dia)

 

Somo as parcelas,

Confiro os descontos

Verifico

Que me esqueci de comprar

Queijo.

Também a água está cara

E não chove

Uso os garrafões para vasos

Dos gargalos faço funis.

Pago na caixa

A máquina robótica

Deseja-me boa viagem

E brinda-me com papeis

Onde posso escrever poemas,

Ou  (outras) parvoíces.

O tablet fica com inveja

Curioso por o lápis

Ser do IKA.

Compro um saco

Biológico – correcto.

O segurança olha-me

Desconfiado.

O vinho está em promoção

Cuidado para não cair

No chão. Escorrego no sabão

(rima, rima, rimou)

Triangulo amarelo – perigo!

Está tudo certo.

Coloco a bitcoin no parquímetro

Posso ir embora.

Acelero o gps –programado

Para o caminho.

Uma explosão ouve-se ao longe

A Coreia do Norte

Deixou de existir!

 



carlos arinto maremoto às 16:02
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Sexta-feira, 29 de Setembro de 2017
as arvores

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AS ARVORES

Habituado aos sons da cidade, não me apercebi dos pássaros.

Quando estes voaram, como fisgas, á minha volta, descobri a serra

E fiquei admirado por estar ali!

(Não me lembrava de nada que antes tivesse acontecido porque

Me encontrasse ali – onde prédios, carros e pessoas não existem)

 

Troncos enormes e raízes como jacarés faziam uma cortina em biombo

Entre o que via e o que me era escondido. Uma neblina tapava tudo.

 

Escutei, ao longe, um cantar de águas em pedra nua. Não era a azáfama

Da manhã, na gare dos comboios suburbanos nem os apitos dos barcos

Que atravessam o rio. Era a terra e o sol a conversarem.

 

A noite já acontecera, faz tempo, e o murmúrio das folhagens segue

Sussurros que a intuição não anota. Não lembro dos rangido dos “elétricos”

A caminho da colina da Estrela, nas fotografias da minha infância.  

 

Por onde andarão os esquilos, as raposas, as andorinhas?

Tudo tem o seu tempo, dirás. Chove e vai fazer frio, agora é tempo das fogueiras

E dos almoços em família. A colheita está feita, não só os animais hibernam.

Sinto o gosto dos regatos a afundarem-se no turbilhão das nascentes.

Espreito pela nesga da janela: eles lá estão! Um leve crepitar faz-me voltar:

 

São as arvores a cair! É a serra a tombar e as árvores com ela!

 

Agitadas as folhas, abanadas as ramagens, apodrecidos os troncos

O vento, a chuva e o medo devoram as floresta que se pulveriza no chão.

Fica o húmus, a serpente, as formigas o musgo das festas natalícias

A germinarem fetos e cogumelos, como de muito, não havia.

 

Indiferente, lá longe, a cidade continua no frenesim do seu sentido ignoto

Há greve, eleições, crimes, doenças, aviões que chegam e partem…

 

Foi apenas um barulho, mas a torreira do verão derrubou as arvores

Que o tempo carcomeu. E nós sepultados com elas.

Na primavera, apenas elas voltarão a nascer. O resto será a cidade como

Um lupanar sem sentido.  

 

Mas, aqui, também nada faz sentido, porque sentido é dor que se tem.



carlos arinto maremoto às 09:01
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017
Champagne

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A cidade borbulhava, ali, em baixo.

Um formigueiro, uma leve bola de ar e aroma que sobe no ar e se desfaz em mil cores. Quase bola de sabão soprada por miúdos numa festa., num jardim ao ar livre.

A agitação do vai e do vem, era um mantra, uma oração de peregrinos sem destino.

A cidade refulgia de revérberos e tinha a serenidade de uma paz impossível, pois movia-se sem cessar. Ou melhor, parecia mover-se, pois sabe-se que as cidades não se movem.

Os edifícios estão lá, bem afundados no solo, procurando resistir a ventos, tempestades e até tremores de terra ou sismos, se os houver.

Casas, carros, pessoas, tudo tinha um ciclo de vida em sintonia.

Estes sim, agitavam-se como as folhas das árvores ou a cinzas de uma fogueira.

Abriam os restaurantes para limpar mesas e esplanadas, antes de servir a comida, depois as lojas de artesanato, depois as lembranças que cabiam numa bolsa de guardar objectos pessoais, depois ainda as discotecas e os bailes em recintos ao luar e ás luzes empolgantes. 

Passeios cheios de casais, grupos de adolescentes, idosos vestidos como os nativos, estes escondidos em janelas com grades e cortinas de plástico sujo quase não podendo sair á rua sob ameaça de serem atropelados, pulverizados feios em cacos ou personagens decorativas.

De ficarem esmagados em fotografias de recordação.

Efervescência do chão, se o pudéssemos ver de longe, de cima. Aqui ao pé é só movimento e falta de local para estacionar. Não há espaço para andar pelas pedras dos passeios – opta-se pela rua, fazendo buzinar os carros – e atira-se com o lixo para o chão.

Embora a limpeza seja constante, os espaços públicos estão sujos. O trânsito é muito e até as pedras que alinhadas em socalcos fazem degraus se desgastam ganhando uma cova no exacto sitio onde os pés dos passantes raspam fincando-se para subir, cravando-se em escorrega antiderrapante, de solas de plástico ou borracha, para descer

Barulho, máquinas fotográficas, linguajares e revoadas de cantigas algarviadas pela bebedeira da cerveja ou do vinho, em cada esquina uma entorse do tempo a lembrar que tudo aquilo já foi um local pacifico e abandonado antes de estar na moda da transmutação.

Toda a balburdia faz mossa.

Em muitos locais encontram-se pessoas a correr, vestidas com roupa colorida que realça a forma do corpo, em pistas de manutenção física, azuis ou laranja, onde o pé assenta sem o perigo de magoar os ossos do aparelho locomotor, por desnível do chão.

Os espíritos ficam alegres e existe uma noção de prazer que só os clínicos poderão explicar com imagem digna de aceitação e acordo generalizado.

Os espíritos e os corpos bem como o comércio e os serviços, em azáfama de abelha a produzir mel.

Toda esta panóplia de ebulição tem um inconveniente, que não é defeito, antes se auto-alimenta e reproduz: tem de ser renovada rapidamente, sob pena de assentar no fundo e perder as características.

Por isso os barcos entram no porto, largam a sua carga por algumas horas, após as quais recolhem apressados os seus clientes (fazendo a contagem para que nenhum se perca)  e voltam a partir para dar lugar a novos barcos, se possivel maiores e mais bonitos, com mais piscinas e jogos e salões de festas luxuosos em maior numero e ornamentações.

O rio parece cheio de prédios.

Os aviões fazem outro tanto.

Trazem e levam. Aterram e descolam.

As estradas ficam adornadas com autocaravanas em parqueamentos simétricos em cima de tudo que é monumento ou dunas do areal.

Os que estão sempre na cidade embebedam-se com o contentamento dos afogados. Sabem que já não contam, são meros figurantes decorativos. Atores desempregados.

Sabem que não vão sobreviver, mas resignam-se. Persignam-se.

E afastam-se para as periferias deixando a cidade aos turistas.

Lisboa é uma cidade maravilhosa.

 

As bolhas de gás carbónico desfilavam aos olhos dos apreciadores.

Mas o copo, que alguns chama de flauta, fecha o bouquet quando os novelos de lágrima sobem.

Ou melhor, uns subiam e outros desciam, cruzando-se em toda a extensão e, sem esbarrar uns com os outros, criando um circo de artifício sem fogo, sempre na vertical.

A temperatura é fresca.

A pressão no ponto exacto.

Os que sobem vão para santa catarina, para os aliados, para a batalha. Alguns derramam-se pela Boavista.

Os que descem procuram a ribeira, o cais, os barcos que saboreiam o rio.

Miragens de pontes e mosteiros assolam os apreciadores em tonturas de satisfação peregrina.

As cidades já não dormem como dormiam antigamente, ou como dormem as pessoas que se cuidam e conseguiram empregos que lhes permite usufruir da noite para o descanso.

Coitado do varredor de serviço que tem que recolher os dejectos dos outros. Do homem do café, que tem que preparar as sandes para os almoços madrugadores. Das mulheres que fazem turnos e conduzem os transportes na cidade.

As máquinas ligam a rega automática dos jardins e controlam a intensidade electrica da iluminação, as lâmpadas em funcionamento, as luzes fundidas e a precisarem de imediata substituição, bem como a vigilância dos espaços públicos.

Camaras de filmar e gravar criam imagens virtuais de alerta para ocorrências que possam vir a ser pedidas às forças de socorro e segurança, também elas sem horário ou interrupção.

Os hotéis estão fechados, ao mesmo tempo que estão abertos: há sempre alguém a sair para chegar ao aeroporto cedo, ou a chegar, procurando o descanso de uma viagem longa e atribulada.

O fresco mantem a pressão da pressa em circular, em remoer, em revirar e em sorver a espuma da azáfama.

Uma neblina assombra as imaginações. Para os viajantes as histórias são reais e, com a fantasia do delírio, quanto mais grandiosas e obscuras, melhor em degustação.

 A torre sineira, o empedrado, as árvores e o esplendor das casas baixas onde fermentam vinhos e se guardam segredos flutuam no rodopio da borbulhagem.

São histórias antigas. Velhas. Penedos de ilustração.

Ruas, quelhas, becos, escadarias que se tornam leitos de turistas em enxurrada.

Estações de comboios, torres, Igrejas…

O Porto é uma cidade maravilhosa.



carlos arinto maremoto às 09:09
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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017
Gafanhoto

escultura.jpg 

Terrível. Onde andam os gafanhotos, que não os vejo saltar?

De repente, o céu fez-se escuro e cai água em turbilhão

Talvez isso explique o desaparecimento dos gafanhotos. Talvez!

 

A policia está a “investigar”…pois é bom que investiguem,

Os gafanhotos fazem-me falta, não podem desaparecer assim

Sem um rasto, numa indiferença sem memória e em extinção.

 

Penso nas rãs. Deve ser da humidade. Da lua e da saudade

Dos tempos em que os campos ainda não eram cidade.

 

Já que tanto brinquei, fica o juízo mal comigo se não faço brincadeira

Por ter feito anos no dia em o sol se entornou e a vida seguiu

Não sei porque vielas, parafusos, guarda-chuvas ou trovoadas

 

Que são sempre o mundo, em cada pedaço,

Depois do incêndio, da voragem, das luzes do lume: a chuva!

 

A vida renasce sempre, em casulo, em fome, em lembrança

Com a água. Fico feliz por haver de novo gafanhotos a saltar.

 



carlos arinto maremoto às 11:03
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Sexta-feira, 1 de Setembro de 2017
concertinas

concertina.1.jpg

Tudo preto, carbonizado. Tudo queimado. E nem os pássaros e os bichos da floresta escapam.

Tudo a rebate e de pedra e socalco, com tocas e farrapos se semeiam as terras em folhas secas, num tapete branco, amarelo, dourado, em urtigas em fetos, em formigas, em dor.

 

Tudo, porque é mesmo tudo. Nem o verde bordeja antes que a chuva troveje, nem os telhados resistiram ao lume, ao medo e ao previsível desabar.

É a natureza em grito, um sentimento aflito, uma desgraça que se desgraçou. Um pecado que nenhuma reza absolve. Penitência? Crueldade! O mundo em revolta, furacão e fogo num só.

 

Eu quero dizer que aqui também ardeu a poesia.

 

Casas, animais, floresta, pessoas tudo o que existe na redondeza de um vale e de uma colina. Na volta de uma rocha. Um chafariz sem água, uma poça sem lama, réstia de sol a escurecer por entre canaviais. Onde está a bondade disto tudo?

 

Eu sei, meu amor, que o tempo renasce e que a vida se refaz com rapidez. Eu sei!

Mas os mortos não voltarão a andar e os feridos sofrerão toda a vida. Eu sei!

 

Tudo preto, carbonizado, queimado… que é preciso não esquecer. As águas lavarão tudo, menos o coração e os olhos de quem sofre e de desgosto morre. São pias de pedra as manjedouras onde em cardume tu dirás: “não sei”! Porque é da natureza dos homens, esquecer! Os que persistem tornam-se incendiários, bandidos, estupradores, lobisomens. 

Os que persistem, insistem! O resto foi voragem. A vida segue adiante…

 

Não, o fogo não purifica. Apenas arrasa e destrói. Depois arrependido – enfurecido – faz de novo tudo vibrar e o planeta gira erguendo novos arvoredos.

 

Aqui e em todo o lado a poesia se incendiou. Morreu. Ressuscitou.

 

O horror não é bonito. A poesia não pode ser uma coisa bonita quando tudo arde e se destrói.

 

 

concertina.2.jpg

 



carlos arinto maremoto às 15:53
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Quinta-feira, 3 de Agosto de 2017
Memória

Cópia de participação.jpg

 



carlos arinto maremoto às 09:02
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