Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 31 de Outubro de 2017
Pau de canela

terminal.jpg

 

A ideia tornara-se “espontânea” quando – já lá vão alguns anos – visitou o museu Picasso em Barcelona.

Encontrou o mesmo quadro repetido vezes sem conta, em tons de luz e cor diferentes.

Salas e salas.

Espaços quadrados, paredes altas, espaços em rectangulo, paredes baixas, janelas, luzes e tetos sem cor, chão branco.

Telas enormes, algumas em losango do chão ao alto com a ponta dobrada.

Quadrados pequenos, sem moldura, um, dois, muitos…Rectangulos de cima abaixo.

Telas, de uma mesma época, outros de épocas diferentes que repetiam o original, repetindo a cópia, multiplicando a soma multiplicada e tornada igual ou diferente, parecida ou semelhante. Diferente!

Mas o desenho de fundo, a intenção e a impressão que criavam sendo sempre o mesmo eram diferentes e assustadoras ou belas, não paravam de maravilhar o visitante.

Uma mesma criação, aperfeiçoada, aperfeiçoada, aperfeiçoada.

Ou simplesmente repetida.

Deveria ter vinte anos e nunca mais de esqueceu dos tons ocres, amarelos, roxos, vermelhos e azuis que viu.

Até ao infinito encontrou baços, brilhantes, lisos, empastelados, grumosos, transparentes, e todas as texturas brancas e negras, sarapintadas como lagartos ou flores á chuva.

Por isso,  a ideia de apenas escrever um livro, ficou!

Faria um original e depois actualizações: cópias com palavras diferentes, palavras iguais para dizer outra coisa, as mesmas para dizer coisa diferente.

Um livro seria suficiente. Não havia muito mais a dizer.

Não ganharia qualquer prémio, mas isso não importava.

E foi assim que começou a saga de Américo de Deus Barroso, funcionário do Estado, escritor nas horas vagas e consumidor de literatura.

Lera os clássicos,  por obrigação. Lera os modernos e os “grandes”, mas…não desistira da ideia, que os amigos consideravam de pouco nexo.

Por isso passou a vida a escrever.

Ou a rescrever, a inventar a escrita, a simular uma forma de comunicação que ficasse registada em símbolos, alfabetos, emaranhados de planton, desenhos em arabescos ou rabiscos.

Em riscos.

Os primeiros vinte anos, foram passados á procura da ideia original e ampla, que lhe permitisse poder depois esfrangalhar os horizontes e rasgar as minudências de uma imprecisão.

A imperceptivel presença de uma pulga a estragar o percurso das águas da escrita, que devem escorrer sem obstáculos ou uma manada de elefantes em furia, na floresta tropical, tudo era possivel emendar, riscar e melhorar para que não houvesse duvidas sobre o dito e pretendido dizer.

Fez arquivo e foi inventando tudo o que havia para inventar utilizando todos os truques que possam ser permitidos com ousadia de manter uma coerência.

Ao encontrar o “estado perfeito” da límpida nudez do primeiro e inicial escrito Américo Barroso começou a torturar as palavras, os textos, as imagens e os mapas gráficos onde inseria o documento universal de pegada que haveria de deixar para os vindouros.

Se vindouros houvessem.

Pela ordem “das coisas” haveria, mas isso não era preocupação sua. Se os vindouros não chegassem a existir a sua escrita manter-se-ia com a função do nada, como agora acontecia, já que ninguém lera os textos e as histórias que escrevia.

Fazer o mesmo, sempre, em escalas desiguais, acrescentando ou diminuindo o pormenor, trocando tabuinhas por plásticos, celofane por papel pardo e misturando as ementas para gostos diferentes ou possíveis.

Sempre criativo. Pode-se dizer que foi sempre criativo.

E um sucesso. A palavra sucesso dizia respeito apenas a si, mas que lhe importava.

Os leitores andavam entretidos, distraidos, ausentes, manjando o que as conveniencias ou as modas fazem valer.

Então, após o seu falecimento prematuro – morreu com quarenta anos, por tumor vesicular, a acreditar na certidão de óbito – os seus “papeis” foram entregues aos herdeiros.

Estes, que não esperavam nada de bom da fortuna do pai, que sabiam inexistente, fizeram vista grossa e ignoraram o testemunho.

Nunca a escrita, os livros ou a arte dera comer a ninguém, diziam.

Outros eram de opinião de que se deveria dar a ler os “escritos” a quem soubesse avaliar a possibilidade de ali estar tesouro que valesse ser preservado e que o nome do progenitor pudesse ter simpatia nalgumas ramagens do grupo de cidadãos da aldeia, que eram o mundo dos sábios.

Mas os sábios da aldeia eram muitos. Sábios, feiticeiros, curandeiros, prognosticadores, analistas e comentadores em cultura de aquário viveirista, colhendo óbulos. 

Américo Barrosos fora cauteloso e guardava o seu génio criativo como se preciosidade fosse. Dissimulado. Não haveria de ser, qualquer um que tropecasse na sua escrita, que decifrasse o enigma e o mistério da leitura. 

O tempo faria a sua espera, a aprendizagem e a iniciação.

Por isso, encadernou cada escrito em embalagem diferente e espalhou as mesmas por diversos cofres de armazenamento.

Em envelopes, em pastas de cartolina, em “canetas” informáticas, em sobrados de prateleiras de cozinha, nas estantes – evidentemente – em cartolinas coloridas e peles de borrego tratadas, á maneira antiga, como embrulho.

Mas nas arrumações e nas mudanças que sempre acontecem quando o dono da casa desaparece, muito se perde.

E neste caso, que não é único, perdeu-se tudo.

Quando procuraram encontrar que mostrar, para uma leitura apressada, apenas encontraram invólucros vazios, sem conteúdos. Letras no fundo de latas de legumes secos, assim como massinhas para a canja de galinha – que a mulher fazia pelo Natal – qual sopa de alfabetos, de letras e de improváveis histórias.

Onde estava a originalidade de um conto que não pode ser lido?

Começava em África e depois falava-se do oriente. Dizia-se dos além oceanos e descrevia povos europeus e tribos que viviam na era do gelo.

Outros medievos, eram costumes e ceifas antigas.

Filósofos, dramaturgos, poetas, aventureiros e mitos compilados por um concilio de que só Américo Barradas conhecia a data da celebração.

Guerras e emoções, desastres, descobertas, provas cientificas e tudo o que a humanidade tinha vivido eram poeira, nas histórias de Barroso. O leitor "atento" tardava em chegar, só ele descobriria a magia de transformar o encantamento em literatura.

Sobrou um "pau de canela" enrolado, como a Tora, que está exposto no frontespicio do chafariz, onde se ler a  legenda: oferta de beberagem: todo o conhecimento faz sede.

- Parce-me mais um torniquete de um saca-rolhas antigo. Diz alguém.

Talvez!

Tudo em literatura é possivel.



carlos arinto maremoto às 19:04
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Domingo, 29 de Outubro de 2017
a casa

casa.1.JPG

 

É quando a casa fica para mim                               A casa resiste e persiste

Que eu gosto mais de estar nela                             É rocha é tábua é pedra

Sentir-lhe os pulsos e os tornozelos                        Muro, parede, portada

Saborear-lhe o cheiro                                              A casa é minha morada

Passar-lhe a mão pela construção

E respirar os silêncios e os sentidos                       Foi ninho, colmeia, tempo

A casa existe á minha espera                                  É passado e lembrança

Como um ovo ou uma jangada                                 Mas continua a ser

Nela me respiro ou me sepulto                                 Memória que abriga 

Por quase tudo, ás vezes por nada                          Os sons de cheiros passados

Desamparada, resistente, vigilante                          Os sorrisos, os namorados

Existe apenas consoante                                       Os filhos, aqui, gerados.

E em ocasiões divinas em que permanece

Sem mutação ou traição.                                           Casas que desabam e morrem

                                                                                 Casas que finguem sentimentos

A casa não deve, não teme                                          Casas que são monumentos

Não se agiganta

É apenas um quadrado                                             As casas desobedecem!    

Que canta.



carlos arinto maremoto às 17:55
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
Fylella Fastidiosa

P6150195.JPG

 

O comboio para Bragança estava atrasado. Não faz mal, eu não vou para Bragança.

O tempo só é importante quando vamos para Bragança.

Começa-se um bocadinho depois, e vamos atrasando pelo caminho, acabando por chegar tarde ao nosso próprio funeral.

O que é uma maldade fazer os voluntários e profissionais da saudade, esperar!

Em Bragança, será a cerimónia religiosa.

Um padre que amaldiçoará o defunto dizendo-lhe que ele foi um pecador. Mas que como está arrependido, Deus compreende e perdoa.

E se não está arrependido, agora é tarde: vai mesmo assim para o céu, com as imperfeições.

Um padre insultará toda a congregação revelando que o finado não foi um bom cristão e que terá que pagar pelos seus pecados.

Sim, a cerimónia tem um custo, se bem que em euros.

E o viajante ali, sem se poder defender, nem ninguém que lhe tome a justiça de uma acareação de um contraditório.

Pela boca do sacerdote saem as palavras de Deus.

Ainda bem que vou na direcção contrária, para sul, onde os comboios não se atrasam e cumprem horários.

Pode ser que seja porque é a descer, afinal o sul fica lá em baixo.

Fujo das oliveiras, mas esbarro com as amendoeiras. Videiras há por todo o lado e vinho bem bom.

É preciso tomar decisões e ter atitude.

A philaenus spumarius deixou a sua terra natal, no mediterrâneo e ameaça a costa. Trata-se de uma praga. De uma infestação para a qual não se conhece cura, remédio ou combate.

Se fosse tão fácil como construir um muro, de pedra, de arame, de betão, fá-lo-íamos, mas a philaenus spumarius voa. Portanto não resulta!

Também anda, se desloca e migra.

A estrada nacional dois – que liga faro a Vila Real e á fronteira – encontra-se assim em alerta máximo. Quase encerrada.

Depois do Tejo, desfilam as horas pela paisagem das janelas fechadas.

Conheci Margarida, rapariga simpática, enquanto adormeço ao atravessar o Alentejo.

São verdes a perder de vista. Pequenos montes, searas, azuis e amarelos nos salpicos dos inclinados arrozais ou nos caneiros que embalam a água que há-de ser tudo o que Deus quiser.

Azuis e amarelos que se enxameiam com pássaros, borboletas e toda a espécie de insectos dos mais pequenos aos maiores. Abelhas, zangões, carochas, moscas e o sempiterno mosquito.

Há aquela luz e aquele sol que se conhece e ama.

Vinhedos, plantações de pasto. Gado e mais gado.

Este comboio não apita. Escorrega de mansinho, não perturbando a estiada, nem as nuvens de vapor que se levantam do chão, em direcção ao sempre, como ondas de miragem.

Era bom que chovesse, mas também é bom que não chova.

Margarida tem os olhos azuis como as pequenas flores que se avistam ao longe.

Que belos os sobreiros, na sua imobilidade de tela em “umbrela”. Não conheço palavra melhor que defina o chapéu de um sobreiro.

Que esquadria e mapa fazem os olivais. Que conforto oferecem as azinheiras para quem olha sem clemencia para o arrasador sol que é luz, cabaça e refresco hortelão.

Os melões estão maduros. A azinhaga dorme a sexta da tarde, com alguns patos no colo..um ou outro pescador aventureiro segura uma linha que se estica entre a cana de titânio  e a superfície da água, que os melhores preferem a madrugada.

Ainda falta muito para chegarmos á terra das figueiras? Pergunto ao revisor.

Estamos no horário. Duas horas.

Duas horas? O tempo de viajar de Lisboa a Paris, em avião.

Aqui o tempo possui outra dimensão, outra textura, outros afazeres.

Aqui o tempo não voa, saboreia-se, faz-nos apreciar a delícia da maturidade das coisas boas, como o pastoreio.

O tempo não para e traz-nos a felicidade.

Margarida, meu amor. Ainda nem trocámos uma palavra, mas sei que este é o amor da minha vida.

Há paixões assim!

E, por instinto, sei, também, que ela me ama. Há sua maneira, com o seu feitio, com os seus caprichos, mas sem hesitações. Como quem se dá e oferece tudo!

Cambaleio com o embalar do comboio.

Já não a dormir, mas ébrio.

Apetece-me o cação ou a moreia frita para um branco orgulhoso, cheio, incorpado.

Do bater do mar nas escarpadas falésias, onde praias e portos se cruzam, até à fronteira árida pejada de animais em vara, soltos, livres e em solar crescimento alimentados, tudo existe: o espelho da água, a secura dos campos, os cavalos de raça o queijo, o mel e a cortiça.

Sinto o cheiro do pão acabado de fazer.

Todo o Alentejo tem padarias com fornos a lenha. Lenha que é aproveitada da limpeza dos pinheiros e das árvores que se desbastam. O pão é a base de uma alimentação que persiste. como sempre foi, a moçarábica linguagem.

Sinto que o meu destino é este!

Margarida vem comigo! Chegámos!



carlos arinto maremoto às 10:46
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o encontro

passeio.jpg

A noite estava seca. Já não era verão, mas o calor continuava a fazer-se sentir. Os entendidos diziam que eram consequências das “alterações climáticas”.

José, procurou uma cadeira, para continuar a ler o romance que comprara na última ida a Coimbra. Sabia-lhe bem, estar ali, no silêncio dos matos e na ausência de tempo.

Ali, onde os sinais de comunicação não chegavam.

Houvera cabos para telefones, ao longo das serras, estendidos em postes de madeira, como estendais de roupa, mas haviam ardido nos incêndios e ainda não tinham sido repostos. Se calhar nunca seriam.

Tudo estava ao abandono: os muros, as pedras, as ribeiras, os matos queimados que agora eram apenas cinzas, os caminhos e as casas.

As casas iam ficando destelhadas como bocas de peixe sem ar, onde silvas e animais se enrolavam, por entre cacos de louças, alumínios e restos de mobiliário.

As pessoas demandavam Lisboa ou o Porto á procura de emoções e melhor vida.

Ali o mato crescia em cada sulco das dobras da terra. Os telhados, que não tinham vergado, enferrujavam com o gelo e até as raposas vagueavam pelo casario em completa liberdade e despreocupação.

Continuava a haver eletricidade e água, embora esta última escorresse com pouca vontade das torneiras antigas, com punhos em cruzeta. As borrachas, as juntas, as paredes e os aramados, todos sem exceção, se iam deteriorando, estragando, ganhando vicio. Até os pinheiros e os carvalhos iam tombando do alto da sua copa para o chão, vencidos pelas térmitas, pelo caruncho, o gorgulho e pelos roedores da floresta que cada vez eram mais.

José gostava deste ambiente: cerrado, denso, emaranhado, quase tétrico.

Gostava dos animais selvagens, dos javalis, dos coelhos, das aranhas…

José gostava deste fim do mundo. Um mundo de sobrevivência depois do grande colapso, da ruina, do apocalipse anunciado e esperado, que finalmente chegara num dia de sol e calor, como se fosse novidade e natural.

Lia livros, ouvia música, escrevia poemas de amor ou devaneios próprios da solidão.

Preferia a solidão dos montes á solidão da cidade.

De há muito que José optara por estar só.

Hoje seria um dia muito especial.

Bem, hoje não, que o dia estava a chegar ao fim, mas amanhã. Teria companhia.

Em Coimbra contactara um serviço de acompanhantes: escorts como se diz ou se gosta de  chamar, adocicando a imagem.

Não! Nada disso, nada de putedo.

Este serviço era prestigiado e tem por finalidade fazer companhia, sem sexo.

Pode-se requisitar uma acompanhante feminina, ou acompanhante masculino para conversar, comer num restaurante, ou passear.

Os campos de cruzamento estão bem delimitados. Não pode existir contacto físico e a pessoa contratada tem de ter formação nos assuntos que se queiram discutir.

O convidado, chamemos-lhe assim, pode servir para ser exibido num qualquer evento social, numa apresentação ou jantar de grupo de uma qualquer fraternidade, havendo a combinar a titularidade do mesmo: namorada, mãe, amigo, parceiro, advogado ou madrasta….eram hipóteses plausíveis.

Ou então deixar a conclusão para a imaginação de cada um, consoante a tendência para a maldade ou a coscuvilhice.

Mas um homem não pode ser um solitário. Um homem sozinho não serve nem para comer, dizia o povo destas serras.

O encontro não poderia ser ali. Claro!

Aquilo era uma toca, uma caverna, um tugúrio distante.

Por isso, José levantar-se-ia cedo para ir até uma aldeia próxima, onde apanharia transporte para sul, onde, depois, se encontraria com a pessoa que viria ao seu encontro, para em conjunto almoçarem no restaurante da vila, famoso pelas iguarias e confeção dos seus petiscos.

Estes encontros teriam de ser sempre em locais públicos, pois havia os aspetos da segurança a ter em conta. José compreendia a cautela.

Numa outra fase da relação – se relação se pode chamar a este tipo de convívio, que agora os média chamavam de socialização – poderia evoluir-se para formas de presença distintas, mas impensável num primeiro encontro.

José não era tímido, mas tinha dificuldade em relacionar-se.

As mulheres pareciam-lhe perigosas, cheias de caprichos e demasiado absorventes.

Ele gostava da sua solidão. Sempre foi assim. Mas, claro, precisava também do convívio e da relação social para se equilibrar.

Os amigos? Ah! Os amigos…outro conceito estranho, perigoso e destituído de significado.

Cada perna com seu passo, ambas movendo-se para fazer a caminhada: mulheres e amigos.

José tinha consciência de que deveria ter nascido com algum defeito genético ou então foi a sua evolução darwiniana que merdara em sentido contrário á espécie e ao espectável.

O mesmo se estava a passar com o clima.

José tinha pena de não ser crente numa qualquer forma de fé.

O clima já não era o que fora. “Está sol e a chover” estão as bruxas a nascer.

Que saudades! Meu Deus. Que saudades!

As procissões, os sacrifícios, as oferendas, as rezas, a devoção…

Se, se socorrera do serviço de acompanhantes era para impressionar os vizinhos (tinha de dizê-lo, era verdade, sempre habituados a vê-lo sozinho) e para poder desentorpecer a língua, conversando.

Mas se o local é isolado, inóspito e escondido, existem vizinhos?

Sim, vizinhos virtuais nas redes sociais, vizinhos do instagram, vizinhos no twiter, vizinhos de uma realidade que nos acompanha mesmo quando não existimos nessa realidade

Estamos rodeados de vizinhos. Os vizinhos são a nossa paz social, os vizinhos são esteiros, mesmo quando somos maus vizinhos. Vizinhos e gadgets, o mundo avança para abstrações tecnológicas. 

Exercitar a mente, também, pois a acompanhante que lhe havia sido sugerida era licenciada em ciências da natureza.

Fora o tema proposto e escolhido.

Se era bonita? José nem tinha pensado nisso.

O dia chegou rapidamente.

Então o que é que me contas?

- Madalena, muito prazer.

- O prazer é todo meu, Chamo-me José.

Da estação dos autocarros foram em passeio até ao largo frondoso onde um repuxo aspergia água em redor devido ao vento, salpicando os transeuntes. Que não eram muitos diga-se, mas alguns idosos e um ou outro bombeiro.

Havia duas lojas de venda de bens de primeira necessidade. Um restaurante, mais casa de pasto, como ainda não se disse e uma venda de produtos variados que tanto são desinfetantes para a agricultura, como ventoinhas para o teto.

- O que faz aqui, José? Pergunta Madalena, admirada por descobrir um jovem apresentável, com aspeto citadino e não deformado pela vida do campo, num lugar distante e obscuro que havia tido dificuldade em localizar no Google.

José, sorri. Faço nada! Estou simplesmente aqui. Satisfaço o meu desejo de solidão e de conhecimento.

- De conhecimento?

- Sim observo a natureza. Vejo a natureza nascer, crescer e morrer, modificar-se. O que me pode dizer acerca disso, é um assunto que lhe interessa?

José pede autorização para tirar fotos com a sua acompanhante. Faz parte do contrato, não é preciso recordar. Faz igualmente algumas selfies, em que Madalena aparece por detrás ou ao lado. (“ciências da natureza”, lembram-se)

No sitio que habita não há espaço para as redes sociais, mas é bom estar em consonância com o  mundo. As redes sociais pairam numa nuvem acima da cabeça das pessoas, talvez aquela que vai ali…diz apontando uma feia e escura mancha no céu.

Madalena olha para José com incredulidade. É ingénuo ou está a fazer de mim parva?

José ri-se. Não temos muito por onde escolher, existe apenas uma nuvem, o dia está claro e limpo.

- Vamos comer, estou cheia de fome.

O espaço está quase vazio, porque ainda é cedo, mas mesmo assim existem turistas numa mesa junto á janela.

Os turistas são a nova praga. A infestante natural que tudo domina.

Línguas eslavas, formas esquisitas de vestir, próprias de outras culturas, longitudes e tradições. Peles brancas, cabelos apanhados em carrapito ou rabo-de-cavalo. Corpos esguios, sedentos e enxutos de líquidos (estes turistas não são bebedores de cerveja, nem de vinho ou outras bebidas alcoólicas) que se alimentam com frugalidade.

Discretamente José vai tirando fotos.

- Conte-me o que faz?

Madalena, sabe que este “trabalho” é confessional. Por isso tem uma história preparada. É uma boa profissional.

Sou auxiliar de enfermagem. Não acabei o curso, embora pretendo conclui-lo, no próximo ano. Vivo em Condeixa e trabalho num hospital de Coimbra. Tenho namorado e vivo com os meus pais. Que mais quer saber?

- E gosta do que faz?

- Sim, gosto! E o José porque está aqui?

A prática clinica de enfermagem possui algumas características terapêuticas, como levar o paciente a falar sobre si, a tomar consciência de si, a introspecionar-se. 

- Sou um guardião do tempo, diz meio a brincar, estou aqui a admirar a beleza da criação.

- Um discípulo, portanto? É crente?

- Se quiser.

Começam a chegar pessoas. Trabalhadores que vêm almoçar, pessoal das redondezas, gente que mora longe e está deslocada das suas casas.

O espaço é pequeno e com os turistas, e agora José e Madalena, faltam mesas para os habituais.

Ouve-se o arrastar de mesas para o exterior, faz-se uma algazarra no transporte das toalhas em papel, nos pratos e talheres, no jarro de vinho e no cesto do pão.

- Deixe estar dona Isabel, nós ajudamos. Trate lá da comidinha… são frases que se ouvem.

Madalena olha para José que parece estar a apreciar a sua companhia. Ainda não começaram a comer, mas não têm pressa.

- Vive aqui todo o ano?

- Sim e Não! Como consigo estar em dois lados ao mesmo tempo, estou aqui e não estou. Uma parte de mim vive aqui, a outra não!

Erro de perceção, sim, tem aparecido muito nos jornais – vai pensando Madalena, quase técnica diplomada nas ciências do foro psíquico, sem ter frequentado a universidade, mas na universidade da vida -  mas o melhor é deixá-lo dizer o que quiser, afinal estou a ser paga para ser ouvinte.

- Como assim?

- Não lhe posso explicar. É assim.

Ah! Bom. OK. Os perturbados não devem ser contrariados.

Este tipo de “encontros” tem os seus riscos e ousadias. Esta pode ser uma delas.

- Como é que uma futura enfermeira tem uma especialização em “ciências da natureza”?

- Por mero acaso. Tal como o José diz que vive em dois lados ao mesmo tempo e é um guardião do tempo, eu sou um rio que tem braços e vida nas memórias que passam. Fui duende e bicho da floresta, em outra vida. Fiz bio paisagismo em Coimbra.

“Não sei se acertei, mas parece-me que este tipo de conversa é adequado” pensa.

- Eu sou a mátria, conclui, aquela que tem o condão de povoar.

- Tem razão, diz, desculpe, devia ter percebido. A Madalena é a chuva e o milagre.

- Claro! E bebem um copo de vinho. Fazem um brinde. Então, “ao nosso encontro. Que seja sempre feliz.”

Como toda a eternidade, dura enquanto durar.

Comem com gosto, apetite e vontade. Vão falando sobre trivialidades.

Depois, José paga a conta, e saem para a praça, agora com a luz forte da tarde a tornar as pedras do chão espelhos.

Vão até um lugarejo, onde um homem solitário toca concertina.

José e Madalena ensaiam uns passos de dança.

- Foi muito bom conhecê-la. Diz, pois aproxima-se a hora da camioneta de regresso.

- Também gostei de o conhecer.

José acena um adeus, porque Madalena já não está ali.

Quando Madalena deixou de estar ali, sentiu a solidão, mas reteve o calor da sua conversada numa espécie de vibração, junto a si.

 Foi agradável. A solidão faz mal, mas a solidão purifica. E José não é de se “meter nos copos” ou em “drogas” para combater o medo e enfrentar a realidade.

Foi uma coisa que aprendeu cedo com os pais.

Ser valente!

Não ter medo, saber combater o medo.

 

 



carlos arinto maremoto às 10:28
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
27

vela dágua.jpg

 

 

 

 

O dia é sempre o mesmo

O que varia é o sitio em que se coloca a semana

O mês também não se transmuta

O ano acrescenta-se, sempre.

 

                                                             Fazes anos

                                                             Que coisa maravilhosa

                                                             Que alegria!

 

Que pena não poder ver-te

Tocar-te! Sentir-te!

 

Enfim, banalidades.

Fazes recordação e sombra aos meus dias

Apagas o sorriso, acendes a memória

Afagas-me o pensamento gelado pela saudade

E não sentes que te agradeço.         

                                                                Agradeço sorrindo!

Não! Não sentes que te quero, e querendo-te

Sinto-me viver e renascer e mudar…

 

Mas amanhã, já tudo passa. É outro dia.

                                                                 Outra realidade.

Tem graça esta ausência de tudo,

Este tudo e nada, esta lembrança que sendo boa

Começa a ser desgraça,

                                                              mas depois passa.

 

                                                               Tem graça! Ainda ontem era…

 

Faço os votos do costume, lavo a cara,

Enxugo os olhos

 

                                                               Desejo-te felicidades.

                                                               Também eu te quero bem.



carlos arinto maremoto às 18:49
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Sexta-feira, 13 de Outubro de 2017
Ida ao supermercado

jaquinzinhos.jpg

 

 

(guerras do dia-a-dia)

 

Somo as parcelas,

Confiro os descontos

Verifico

Que me esqueci de comprar

Queijo.

Também a água está cara

E não chove

Uso os garrafões para vasos

Dos gargalos faço funis.

Pago na caixa

A máquina robótica

Deseja-me boa viagem

E brinda-me com papeis

Onde posso escrever poemas,

Ou  (outras) parvoíces.

O tablet fica com inveja

Curioso por o lápis

Ser do IKA.

Compro um saco

Biológico – correcto.

O segurança olha-me

Desconfiado.

O vinho está em promoção

Cuidado para não cair

No chão. Escorrego no sabão

(rima, rima, rimou)

Triangulo amarelo – perigo!

Está tudo certo.

Coloco a bitcoin no parquímetro

Posso ir embora.

Acelero o gps –programado

Para o caminho.

Uma explosão ouve-se ao longe

A Coreia do Norte

Deixou de existir!

 



carlos arinto maremoto às 16:02
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