Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 11 de Julho de 2017
Projecto

teia.jpg

O homem acercou-se do balcão do hotel, e perguntou se podia alugar um quarto com a planta que transportava.

De facto, o recepcionista confirmou, o homem trazia na mão esquerda um vaso com uma planta.

Era uma planta bonita, não saberia o recepcionista classifica-la, como fazem os botânicos, apenas dizer que era verde, sem flores e saudável, ao que tudo indica pelo aspecto e viciosidade das folhas.

Estava colocada num vaso, que um papel de seda colorido envolvia. Nem grande, nem pequena, uma planta que se transporta com facilidade. O papel tinha duas asas, por onde o homem segurava a planta e o vaso onde esta estaria assente, já se vê, que as plantas não andam sozinhas sem estarem agarradas a nada.

- Com certeza, respondeu. Agradeço a identificação para preenchermos a fichazinha.

O homem engolio em seco. Identificação?

Parecia nervoso.

- A planta não possui identificação.

- Não! Não! Claro – disse o homem da recepção sorrindo. A do senhor, de vossa excelência, quero dizer, por favor.

- Ah! Claro, desculpe. Que disparate!

Colocou o vaso com a planta em cima do balcão e puxando da carteira ofereceu ao empregado o seu cartão com os dados pessoais que este transcreveu para uma folha de papel, pedindo no final o favor de uma assinatura.

- Aqui o cartãozinho do crédito, por favor…visa, multibanco, american express?

- Então não há nenhum problema com a plantazinha? Inquiriu ainda a medo.

- Não nenhum! Obrigado. Tenha uma boa estadia.

- Quer que pague antecipadamente o serviço?

- Não há necessidade, quando sair logo trataremos desse assunto.

- É que sabe a plantazinha….

Não acabou a frase e pareceu ter-se arrependido do que ia dizer, fechando a boca e olhando em volta para constatar que estava sozinho sem ouvidos estranhos a delatarem o sucedido, sabe-se lá onde e para quem.

O homem com a planta não possuía nenhuma mala. Pelo menos que se visse. Podia tê-la deixado no carro e ir busca-la mais tarde.

Bem, não era da sua conta, pensou o funcionário por de trás do balcão, nas suas funções oficiais de assegurar o trato administrativo do hotel.

O homem, agora cliente, pegou na planta e seguiu em direcção aos elevadores, que eram dois.

Deu primazia ao da esquerda e á sua planta, na passagem da porta e, com cuidado, assegurou-se de que esta estava confortável no vaso que a sustentava, antes de carregar no botão que indicava o andar do quarto.

Depois carregou no fechar das portas, não porque fosse necessário, mas porque era assim que via fazer, mas…

Num ápice, qual repente, segurou a porta e regressou á recepção. A planta baloiçou, mas não caiu e sem mais explicações recolheu a chave que havia esquecido em cima do balcão e que o funcionário que o atendera já trazia na mão, a meio caminho

As chaves dos hotéis são um mero cartão magnético. Perdem-se com facilidade. Esquecem-se com ligueireza.

Ambos sorriram, embaraçados.

- Obrigado!

O recepcionista por não ter notado que o cliente se havia esquecido da chave no balcão, o cliente pelo descuido sem nexo. Sem chave não poderia entrar no quarto, era elementar!

A planta tirava-o do sério. Distraia-o.

Era a sua planta de companhia.

Tinha apanhado um resfriado, na semana antecedente, por causa da janela aberta para que o ar sacudisse as folhas da planta, como a natureza manda,  mas agora estava bom e tinha sido por isso que resolvera aproveitar para tirar uns dias de férias e de descanso.

Nem todos os hotéis aceitam plantas de companhia, por isso fizera questão em esclarecer a situação antes de tudo o mais, não fosse o recepcionista pensar que se tratava de uma prostituta ou de uma qualquer encontrada na rua e levada para o quarto sem mais aquelas.

Era uma planta sossegada, que não saltava do vaso para ir cuscar aqui ou ali, nem enrodilhar-se nos tapetes, junto á cama.

Conversava com serenidade, crescia com confiança e alimentava-se com água, adubo e minerais a horas certas, pelas suas raízes e folhas, sem precisar de ajuda. Bastava que o seu dono não se esquece-se de lhe renovar a dispensa, que o mesmo é dizer regar a terra, borrifar as folhas e juntar um bocadinho – só um bocadinho – de estrume bem curtido ou de suplemento de supermercado.

Precisava de luz e de sombra, como todos os seres vivos. Nem muita nem pouca, a equilibrada, que as plantas não são de saírem por aí em busca de praia ou de montanha, como qualquer turista.

Tinha a vantagem de se poder deslocar, no vaso, sem estar agarrada ao chão, e portanto imóvel, o que lhe conferia uma característica de turista e de viajante.

Sim, a planta gostava de apreciar tudo á sua volta, mudando de interior para exterior, de quente para frio, de inverno para verão, sem estar sujeita ao ciclo das estações.

Detestava que a acordassem a meio da noite, quando vegetava na ansia de captar algum orvalho fresco, logo que a madrugada aparecia. Quando isso acontecia, entortava as folhas e fazia-se de caduca, chagava mesmo a transpirar um doce veneno que fazia alergia a quem ousasse tocar-lhe.

Era uma planta de companhia que ouvia, sem se pronunciar, os desabafos do seu guardião. Este, era, pessoa erudita e educada, nunca reivindicara ser o dono da plantinha, quase arbusto, trepadeira, folhosa, árvore se a deixassem crescer e a oportunidade surgisse.

- Espera aqui, vou tomar um banho, disse para a planta com afeto.

Não porque pensasse que a planta o seguisse até aos lavabos, mas por uso e costume com os outros seres vivos. E para estabelecer conversa.

Ouvir a água a correr soube bem á plantinha.

Desde que não fosse enxurrada, a água era uma bênção. Já o fogo era praga e causava males que demoravam anos a reparar. Por vezes forçando a evolução, pois cada planta renascia modificada e alterada, mais adaptada, resistente, mas também diferente.

O ciclo da vida das plantas é universal e eterno.

Talvez dos outros seres também o fosse, a planta não sabia e não tinha como perguntar.

Havia quem jurasse que as plantas possuem alma, e conseguiam falar e dialogar entre elas. Havia plantas que conheciam todas as espécies e as formas existentes, da sua espécie, desde sempre e em muitas formas de comunicação.

Agora e nas outras vidas que tiveram antes desta, quando a Terra era muito diferente e os seres que a habitavam possuíam formas de que não temos conhecimento, as plantas – pela esperança de vida mais curta, nalguns casos, imensamente longa e duradoira, doutros -  poderiam  escrever uma “história” do mundo vegetal tão interessante como as cruzadas ou os descobrimentos.

O homem sentou-se em frente ao televisor com um livro na mão.

Era agradável estar ali sozinho com a sua planta de companhia.

O vaso com a planta havia ficado em cima de uma esteira, a meio metro do chão, junto á janela, por onde se espraiava um pouco de luz. O dia ia chegando ao fim.

- Amanhã, iremos passear pela costa, junto ás arribas. Disse o homem, falando para a planta. - - Ou preferes ficar aqui no quarto? questionou ao fim de algum tempo.

A planta não respondeu, claro! Mas era agradável ter um parceiro de conversa, mesmo que essa conversa fosse monologada.

- Vou dormir, estou com sono…disse de si para si, ou de si para a planta. Nunca saberemos.

Abriu uma fisga da janela para que o ar entrasse durante a noite e a planta abanou as suas asas, quer dizer as folhas, manifestando contentamento.

O homem adormeceu nos lençóis a cheirarem a lavandaria e a plantinha, aproveitando uma distração saiu para a noite e foi procurar outras plantas que dançavam numa trepidação frenética, ali próximo.

Que pena não haver abelhas á noite, pensou, só o sol as faz sair da colmeia.

Depois, já madrugada regressou ao vaso e adormeceu também.

- Tenho de tomar conta do homem, sem mim ele morrerá em breve. Pensou, mais do que disse, pois as plantas não falam, como já se sabe e não se vai agora querer inventar o que não tem invenção.

Sem plantas, sem verdes, sem flores de todas as cores, tamanhos e feitios o homem, seja ele este que aqui dorme ao lado da sua planta ou outro, está condenado a desaparecer. Por isso as plantas criaram uma rede de reprodução e preservação muito superior ao dos outros seres.

No espaço do vaso, na areia de terra que cobre o húmus, despontam novos rebentos.

Um espigão começa a elevar-se, onde há-de aparecer vagem e esporos. Na efervescência da vida contida num vaso, ouve-se uma sinfonia de múltiplos instrumentos, se tivéssemos ouvidos que pudessem ouvir estes sons invisíveis e não percetíveis ao comum dos humanos.

- Bom dia, bom dia! O homem acorda. Está bem disposto, pronto a iniciar o dia.

A planta agasalha-se aos pés da cama, entre as mantas, com  cuidado para não sujar com terra ou folhas mortas a cama.

O homem nem repara. Para ele é natural que a planta se mexa durante a noite.

Tudo acontece devagar e com naturalidade. O mundo está firme. A lua desapareceu e o sol começa a querer interessar-se pelo formigueiro do planeta.

Um aguaceiro fustiga os vidros, mas logo cessa.

O céu rasga-se em flor.

Nas poças que se formam, lá fora, junto ao areal e ás rochas, carreiros de formigas – pequenas, minúsculas, outras grandes com asa - mexem-se como sempre fizeram, há milhões de anos, recolhendo alimentos.

Todo o passaredo está agitado.

Desde que tem a planta de companhia o homem deixou de tomar os comprimidos. Agora é outro. Um guardião! Um soldado!

Não se poderá dizer se é o homem que guarda a planta, se a planta que guarda o homem, nem isso pode ser importante.

O fim não tem fim. Isso foi antes. Porque antes do agora foi o antes que por ser “antes” acabou.

A planta olha o homem a vestir-se e a abrir a porta do quarto para sair.

- Vamos? Diz para a planta

Esta sorri e caminha á frente do homem, impetuosa, querendo descobrir o mundo.

No hotel ninguém repara em nada, em qualquer coisa que possa ser estranho, ou inusitado. Para ver é preciso aprender, saber e estar preparado.

Tudo o que os outros hóspedes observam é um homem, baixo, atarracado, com barriga a segurar uma planta que se dirige para a porta da saída.

Se perguntássemos ás testemunhas: levava a planta na mão esquerda ou na direita? Tem a certeza de que era uma planta? De que cor era a planta? Não saberiam responder, respondendo com a delirante imaginação, cada um a seu modo e todos de maneira diferente, como sabemos que acontece.

Vemos o que imaginamos, ou o que queremos, muitas vezes não vemos a realidade.

Homem e planta vão lá ao fundo, já quase não se vislumbram daqui, que ficamos parados á porta do hotel absortos nas reflexões que acabamos de escrever

Diríamos que os perdemos de vista.

Por isso, para não cansar o leitor com coisa nenhuma, dizemos que o conto acabou.

 



carlos arinto maremoto às 11:41
link do post | comentar | favorito

contador
MAREMOTO
pesquisar
 
Novembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

12
13
15
16
17
18

20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


textos recentes

O Confessor

O pé calçado

O tempo

Sophia, a parturiente

sete novembro

Gado Transmontano

Demanda

PEGADA ONCOLÓGICA

necrófago

Pau de canela

arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Junho 2016

Janeiro 2014

Março 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

tags

todas as tags

links
alô planeta terra

localizador ip
hora de inverno
hora de verão
contador
a partir de:
28.03.2010