Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Segunda-feira, 10 de Julho de 2017
A flor do cacto

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Sesinando, que era nome de outras épocas, levou as mãos ao peito ao consultar o saldo da conta bancária, num dos muitos postos de atendimento informático espalhados pela cidade.

O dinheiro tinha desaparecido.

O saldo era zero.

Com a cabeça á roda, não soube o que fazer. Engano! Tinha de haver um engano!

Ele que era tão cuidadoso com tudo, era enganado como o mais ingénuo dos mortais.

Sesinando – para que se perceba a sua pessoa – não tinha “conta” no facebook. Não pagava nada com cartão de crédito para não ser controlado pelas finanças, pedia factura sempre com o número de contribuinte para ser ressarcido do que houvesse a maximizar e a colectar.

Quando usava o telemóvel (sempre com o localizador desligado) dizia estar onde não estava.

Detestava a vigilância nos “centro comerciais” e se ouvia barulho ou pressentia risquinhos no ecrã, em qualquer comunicação de voz ou dados, desligava, pois estava a ser escutado.

- Eles andam aí! Era o seu lema!

Outros achavam que tinha a mania da perseguição.

Mas Sesinando estava certo.

Desde que recusara um pequeno empréstimo a um amigo, este jurara vingança.

Claro que a dimensão dessa vingança não era a que Sesinando supunha, não havia serviços secretos israelitas envolvidos, nem os russos estavam interessados na sua pessoa. Não era político, nem empresário, embora possuísse bens em desafogo pela estrada das heranças que lhe haviam chegado pelo acaso familiar, primeiro dos pais, depois de uma tia.

Não precisava de dinheiro, mas sentia uma satisfação erótica em possuir a carteira recheada de notas.

Acariciava as notas como dedilhava as moedas, das mais valiosas ás mais pequenas, em tamanho e em valor.

Depositava tudo e levantava, dez minutos depois, num balcão a quinhentos metros de distância.

O dinheiro era a sua profissão.

Se pudesse não gastar um centavo ficava contente. Se pudesse poupar dez euros exultava.

Tinha capitais para comprar e vender, sempre em nome de outros.

Não ligava ao dinheiro, mas o dinheiro e o tempo era a sua perdição.

Não “ia para fora”, não fazia férias, não ia comer a restaurantes caros. Sesinando amealhava.

Mas quando o amigo lhe pediu um empréstimo, de valor diminuto para as suas capacidades, e explicando que estava “com a corda na garganta” recusou.

Se tinha a corda na garganta, o nó podia apertar-se e ir para a terra dos sonhos e lá ficava a divida por pagar. Não há “pão para malucos”… se as lágrimas lhe vinham aos olhos porque descobrira que comprara um produto por mais dois euros do que via agora á venda, na loja do vizinho, não arriscava um empréstimo com fracas garantias.

Fracas? Nenhumas!

O amigo insistira, sim, mas amigos, amigos, negócios á parte. Sempre foi o seu lema.

Nem nas ocasiões.

Prejuízo ele nunca tinha, nem podia ter.

Só a ideia de ficar a perder o aterrorizava.

Chagava sempre depois a qualquer encontro. Ficar á espera não era consigo. Um psicólogo “amigo” (podem-se ir somando os amigos) disse-lhe que era uma forma de humilhar os outros. Nada disso, o que é que um psicólogo percebe de psicologia?

Tinha ainda a faceta de ser benemérito. Oferecia meio frasco de água de colónia, um guarda chuva, uma pintura que estava num caixote do lixo que ele resgatara porque lhe fazia pena a moldura em tão bom estado.

Sesinando não tinha mulher, pois todas as mulheres são gastadoras, como se sabe! Ele sabia.

O fato era coçado e com nódoas, os sapatos sempre iguais comprados em feira, o carro velho e sujo, com o porta bagagens repleto de inutilidades.

Mas a conta bancária desmentia  necessidades.

Um prazer que ele saboreava a sós, como a sua vida só a ele dizia respeito.

Ia a um sitio, vinha de um sitio. Ao ir e ao vir, que fazia? Uma coisa!

A sua vida era um mistério, uma disciplina uma organização um somatório de pequenos e grandes lucros. Planeava até à exaustão. Não se desviava um milímetro da sua obcessão de recoletor.

Sesinando era feliz.

Mas, não agora. As mãos começaram a transpirar, um suor escorria pela face, os sapatos apertavam-lhe o calcanhar, a circulação e as unhas…começava a sentir uma tontura.

Ah! Enganara-se no cartão.

Sim foi isso, aquela conta já não existia. Pois claro! Havia transferido tudo, na semana passada com medo do pishing. Um amigo – outro, havia muitos amigos, como um vespeiro -  havia olhado de soslaio, de forma perigosa e insinuante para o código de acesso que deixara junto a uma agenda, oferecida pelo fornecedor de medicamentos, na farmácia.

Diuréticos, apenas diuréticos e pomadas para os sinais na pele. Nada mais!

Procurou o outro cartão. Sim, ali estava.

Que susto!

O estomago ardia-lhe com a azia

Idiota, tinha de se desfazer daquele cartão sem préstimo, mas até isso lhe custava…um cartão novo, com um desenho e umas cores tão bonitas…

O dinheiro eram as suas flores, o seu namoro.

Tinha tido um jardineiro, lá no seu quintal a quem pagava principescamente, no seu dizer, o salário de um bombeiro voluntário.

Comia pão de cinco dias, porque detestava sobras mas oferecia vinho aos colaboradores aproveitando as promoções e os favores baratos. Mas o que era barato? Os seus préstimos valiam muito, os que procedessem de outra origem, quase nada.

Ele já sabia, mesmo antes de abrir a boca, tinha adivinhado, chegara lá por intuição.

Exactamente!

Sesinando era feliz, já se disse.

Não devia nada a ninguém. Todos lhe deviam a si.

Uma barrita em ouro, uns certificados do aforro estatal, umas libras inglesas. Duas casas para arrendar.

A  casa onde vivia era á prova de curiosos. Sim, podia ser roubado por um qualquer invejoso. Não que possuísse obras de arte ou cofres com fechaduras codificadas, mas porque até nos “cromos da bola” havia competição e o mundo não estava de se confiar.

E ele gostava pouco que lhe dissessem que tinha que dar, “abrir mão”, ser altruísta. Ele dava, mas se a recompensa fosse vantajosa. Ou o lucro exorbitante.

Tudo em nome da cobertura do risco.

De finanças e banca, percebia ele.

Colocou o cartão na ranhura. A máquina engoliu.

Dirija-se ao seu banco, dizia a mensagem no visor.

Sesinando caiu fulminado. O mundo enterrava-lhe a faca até ao coração sem piedade.

Quando a emergência chegou ainda respirava, mas um soluço provocou-lhe vómitos. Foi enterrado como indigente, que os filhos não quiseram saber.

Uma campa, só para si era luxo a que não se podia dar, muito menos oferecer. Flores, que é lá isso, nem uma, que não servem para comer.

Vamos “enterrar” aqui o assunto, dissera há uns dias para o amigo (outro, que amigos são todos os conhecidos e mesmo aqueles que nem se conhecem) sem saber como estava certo.

Aliás, Sesinando, nunca errara.

Se queria dizer “encerrar” e dissera “enterrar” era problema de somenos.

Fui! Escreveram na placa toponímica que no cemitério oferece as coordenadas aos turistas.

E realmente, olhando bem, não está lá nada.

 

 



carlos arinto maremoto às 11:57
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