Mulher que respira sumo
Que é fumo e vento
De faces maduras
Mãos com dedos finos
Olhar acutilante, cabelos revoltos
E boca que em uva,
Todo o corpo em cacho,
num pescoço de pêssego
Com penugem de marmelo
E uma forma de esplendor
Que apenas posso dizer que é solar.
Mulher que encontro na esplanada da vida
Ns maternidade da criação,
Rumo à arteo e ao belo,
à perfeição
ao traço do criador. Escrita, tela, desenho
Ou aguarela
Que se compõe em reflexos de água
Para descobrir a capacidade do êxtase
Numa nuvem nua de orvalho.
Essência da beleza na silhueta da sombra
Que é esteiro, hino e serena confiança.
De mulher. Intuitiva. Natural. Sagrada.
Definitiva.
O motorista esqueceu-se de tirar a mangueira
Do ânus traseiro do carro
(desconheço se também possuem ânus na frente)
Quando na bomba fez o reabastecimento da viatura.
Saiu arrancando a bicha, a mangueira e o que mais
Seguiu atrás: vísceras, gazolina, borracha queimada,
Um estampido, uma puchada e salto em esticão.
Distração... Disseste.
Onde estavas com a cabeça?
Porque é que aquilo tudo não explodiu mandando
Para o caralho a tua distração?
És muito distraída, muita dada a confusões.
Santa Barbara de Nexe nos valha
E vê se te mexes
Que te afogues e te incendeies e desapareças.
Gente assim, não faz cá falta.
Incinera-se e pronto. Por cima coloca-se um creme
De cremação
Tipo bolo de arroz. Cereja, ginga ou cigarro aceso no cu
Que absurdo!
Tantos anos de evolução e depois dá nisto
Bêbada a andar de gatas no chão.
O motorista é que tinha razão. Deixa que eu conduzo!
Termino a leitura de um livro
Já morreram todos, já todos foram à enterrar
Triste desfecho, tantas páginas e aflições
Para acabar tudo morto.
O autor escreve bem.
É claro, sucinto, usa as palavras para mexer
Connosco, com os personagens, com a vida,
Mas exagera estraçalhando tudo e todos
Deixando-me arrepiado triste e desconsolado
Gostava mais de um fio de azeite a crepitar
Lambendo as páginas, sem fazer mal, porém...
Tudo ali é mecha, explosivo, tubarão no mar
O autor não deixa ninguém escapar
É torcidário, filho da violência e matador compulsivo
De chacina em chacina vai somando fuzilamentos,
Suicídios, sovas, porrada e com água ou veneno
Todos morrem por um acaso, uma desatenção
Em percalços e bulhas de famílias às avessas.
Vou deixar que o retrato se apague da memoria
E que o escuro da ficção seja um mau momento da criação
E alguém sobreviva para contar :
Sim o mundo por vezes é assim!
Depois da missa,
O som, sempre igual, monótono e constante
Arranca devagar... Pára, continua, acelera, volta a parar
Arranca em soluços, suspira, tem intermitências,
Salta em decibéis iguais, uiva aflito,
Continua em esticão e vai-se prolongando pela manhã
Como uma lâmina que separa as horas e limpa as terras
Hortas, canteiros com flores, árvores de fruto,
Matos selvagens, ervas eriçadas, urze, rosmaninho
Todo um novelo de fios que se entrelaçam no verde
Salpicado por azuis, amarelo, roxos, brancos e violetas.
Ramos, pernadas soltas, ervas e arbustos decepados
ficam em monte misturador com molhos de caruma.
Algumas pedras saltam e rolam escarpa abaixo
Em cardume, em bando em manada todos se espantam dali.
Restam verduras a secarem ao sol, paus, galhos,
Logo mais, estrume e vegetais em decomposição
Fica o chão seco, raso e o som dos ofícios extingue-se.
É hora do almoço. A pique, o sol encanta, e as gargantas
Deliciam-se, finalmente, com o vinho maduro e a água fresca.
É assim, a vida no campo. Domingo, sem descanso.
Um qualquer barulho de motor trespassa a serra,
O arvoredo, as galinhas, a passarada e as ovelhas
Como se de trator, se tratasse, ou moto, ou serra de corte
Bomba de recolher água em poço profundo,
Talvez roçadoura de lâminas afiadas,
Um roncar insistente, uma troada
Que mancha o silêncio e a quietude do apaziguamento
Confinado nestes vales onde até o ladrar de um cão
Nos sobressaltada.
Depressa nos habituamos.
O ronco pára tal como começou
Subitamente.
Já nem nos lembramos que existiu e que nos assustou
Desapareceu, tal como chegou, com a urgência da serra
Antigo serrote movido a combustão de ruidoso propulsor
Que corta a madeira e terminada a função se cala.
A lenha será fogueira e lume
E o barulho crepitar.
A tarde adormece com zumbidos de abelhas
E chocalhos de badalos do gado a recolher aos currais.
Tudo volta ao normal. Há um fumo no palheiro
Tudo o resto é silêncio.
Passa uma vizinha que me saúda, magra como agulha
E fica a noite companheira deste abandono
Debaixo de uma luz mortica, de candeeiro rodeado de asas
De insectos que se aproximam circulando em volta.
O barulho da serra é agora um murmúrio
Alguns pios de pássaros e as copas das árvores em abano
Nada resta do tronitroar.
O ruído precepita-se em cachoeira
Sobre a minha cabeça.
Risos, gritos, sons de televisão,
Escapes de carros, conversas em gestos
E pregões de quem comunica à distância,
Ar soprado artificialmente, vento das eólicas
Chocalhar de copos, garrafas, mais gargalhadas
E bater com os pés no chão, vozes zangadas.
O barulho cresce em arraial
Batem palmas, castanholas, incentivos,
Uma música irrompe como lança
Um jogador conduz ao delírio os epectadores,
Público extasiado, adeptos e claques
Todos os que não resistem em abrir a boca
E, gritar! Gritar! Gritar!
O barulho é um remoinho de insultos
De argumentos, de medicamento
Anestésico, alucinogenico,
Receita para triturar ideias e pensamentos
É no ruído que se avança para a guerra
Para a insurreição e para a morte
É no barulho da batalha que se decide
Os que sobrevivem e os que rebentam
E se estilhaçam.
É no ruído e no truculento badalar da insistencia
Que nos ameaçam e corrompem.
Um matraquear. Um perfurar que penetra
Um demolir.
O barulho é praga, martelo.
E se o questionarmos, se ingenuamente o inquirirmos
Dirão : barulho? Qual barulho? Não tinha reparado.
(estou tão habituado)
Sílabas estridentes saem por entre os dentes
Um tambor rufa, o coração dispara
Há tiros e fogo de artifício no ar.
O barulho só não é insurdecedor, porque já ninguém ouve
O som mistura-se com o ruído o arranhar de unhas
E o batuque pulveriza quem passa, os que se aproximam.
É telúrico e desaba em pandemia colapsando.
Não existem sobreviventes!
É sempre assim,
Aos feriados amanhece como nos outros dias
Não se nota diferença, a luz corre devagar,
As persianas da vida levantam-se ensonadas
Pequenos sons, quase nadas, escutam-se ao longe
Folhas secas batem na vidraça empurradas por um vento
Que faz levantar poeira e convida a ficar na cama
Na perguiça de saber que hoje é feriado
Tudo está fechado, não vou trabalhar e posso descansar.
Comemora-se, sei lá o quê. Algo importante..
Um santo, uma ocasião que todos já esqueceram
Uma batalha, uma revolução...
Hoje é feriado e mesmo com o tempo do avesso
Muitos irão à praia, visitar amigos, correr nos jardins
Alguns, farão a vida normal, sempre igual, outros...
(trocam o dia por outro dia, o natal pelo carnaval,
Os Santos populares pela peregrinação na festa da aldeia)
O feriado é um dia igual e neste contentamento
Fecho os olhos e festejo.
Escolho retratos
Para um álbum que hei-de construir do nada
Um dia, quando o tempo sobrar
E não souber o que hei-de fazer.
(com as mãos, com o corpo e com a cabeça)
Escolho fotografias
Poses antigas, avôs, avós, sobrinhos
Gente que nem sei identificar
E voltando as costas à moldura
Procuro escritos que digam o que foram
Alguma data, uma dedicatória, uma assinatura
Uma pista que me leve até aos meus antepassados.
Sem querer, num acaso, encontro uma fotografia de nós,
Esquecida no meio da papelada.
(como estamos bem, jovens, bonitos, contentes)
Procuro momentos, aconchegos, olhares
Coisas simples, grandes nadas
Fotografias antigas em papel, em negativo
Embalsamadas, escondidas... muitas perdidas
Fotografias que esperam para serem lembrança
Mesmo que já não tenhamos memória
Mas sobreviva uma esperança de ser comparação,
De uma semelhança que nos desperte e revele
Uma ligação.
Antes de nós, outros existiram
(e foram jovens, bonitos, contentes)
Que fizeram, por algum sentido desconhecido,
Ou força que a natureza esconde
Com que, agora, estejamos aqui, a folhear retratos
A juntar pedaços, a admirar rostos, poses, brincadeiras
Olhares, maroteiras, caras sérias, carrancudas
Rostos mudos na sépia do papel,
Aqui! onde tudo ficou e continua a estar.
A minha sombra anda a rir-se de mim.
Se dou dois passos ela dá quatro,
Vai sempre lá à frente
Se dou cinco passos, ela encolhe-se
E com apenas dois fica para, trás.
Também anda ao meu lado,
Por vezes baixinha, outras esticada
E uma sombra arrepiada
Não lhe ligo nenhuma.
Ri-se de mim, faz negaças, simula monstros
E fantasmas nas paredes, bonecos, robertos
E se lhe pergunto para onde vai... Esconde-se
Desaparece!
Fica oculta debaixo dos meus pés.
E se a noite me surpreende no passeio da caminhada
Não a encontro em lado nenhum...
Deve ter corrido a esconder-se
A apressada.
Um joelho no chão.
Outro fletido.
Ou ambos de rojo
Respeito o sinal
A genuflexão
O corpo vergado
A saudação
De joelhos ajoelhado.
É respeito,
Não submissão,
É homenagem
Não vassalagem.
Ajoelho para dignificar
Não glorifico
Não acredito
Ajoelho para unir e respeitar
De joelhos para erguer
Os que de joelhos
Não podem ficar.
A gota ficou parada no final da caleira
Pendurada.
Agarrou-se com todas as forças ao redondo pvc
Tentou não cair e até soerguer-se, mas foi em vão
O pvc fez-se limbo escorregadio e a gota desabou
Com o seu corpo de água no canteiro em baixo
Ao fundo, à beira da estrada, lá onde uma rosa nascia
E assim a terra ficou molhada.
Há três meses que não chovia!
Como surgiu esta gota na caleira da alçada
Qual o milagre que a fez ali plantada
Bamboleando-se até cair?
A noite, a madrugada, a lua, a orvalhada?
E a rosa se abriu e sorriu no canteiro
Abrigado debaixo de uma goteira.
Basta uma pequena gota de água, uma minúcia
Uma alasticidade que nos deixa baloiçar e cair
Sempre que nos empurram, para de novo comecar
Basta um pequeno movimento, um roçar
Para que sejamos úteis e felizes.
Cheira a bolos acabados de fazer
É fim de tarde e todos estão no terraço.
Há um sol amarelado e do outro lado
A sombra preparar-se para saltar
Vestindo-nos como se vestem as luvas.
Um gato esperguiça-se,
Estica a cauda e as patas e boceja.
O cheiro a bolos - acabados de fazer-
Abraça-nos e desperta-nos desejos
Prazeres de manducar.
Uma garrafa de vinho, fresco, roda
Vertendo-se para os copos de mão em mão
E uma dormência suave fala de todas as coisas
Que os convivas, de pé, sentados e por ali,
No terraço daquela casa isolada,
Sabem apreciar, erguendo as narinas
Aspirando um perfume de bolos no ar
Ninguém se mexe ou fala,
Seria tudo estragar.
Bebamos à saúde, à paz, ao amor,
A certeza - quem pode ter certezas? -
De que o amanhã chega
E o bolo, acabado de fazer, provo.
Mastigo a óstia, o pão e a razão
De ser o vale e a planície que me rodeia
A força e a coragem que incendeia
Tudo em redor, tudo cá dentro.
Ficamos erguidos, estátuas ao vento
E todas as estrelas, lá no firmamento.
Que povo é este que anda de chinelos
Com cartazes na mão à procura de ser visto
Na rua, na manifestação?
Em rebanhos, em viagens de manada
Em gritos de claques em vómitos
em desperdício e lixo bolsado no chão.
Que povo é este, que não identifico?
O que os torna estranhos, étnicos, religiosos?
assustados? Acossados?
O comportamento é de peixe fora do aquário
Desorientados são a violência e a negação
O escremento e a poluição.
Quem inverteu a metáfora de Kafka.
Escrevo a importância do hoje
Amanhã, já nada tem significado.
Escrevo que a eternidade é um embuste
E o ontem um segredo
Nada foi, como nos contaram.
As palavras crescem como figos
E em cada ciclo se repetem,
diferentes ou iguais, como mel.
Escrevo o que passa e na crónica
No relato e na balbúrdia do que assisto
Retenho fragmentos do possivel
Talvez nadas.
Todo o passado é uma data.
O presente uma festa
Por vezes, adiada,
Uma efeméride que não houve
Uma paz feita de guerras.
Descansa que o amanhã,
Que sempre acaba por chegar
Terá data emprestada e romãs para colher.
(mesmo que estiques o braço,
Entre o ontem e o amanhã
Ninguém chegará lá primeiro)
Deixa a vida ser. Devagar.
Faça favor de preencher
Está tudo aí anotado
O obrigatorio e o facultado.
O formulário é de prescrição
Simples.
Sem cópias.
É receituário para ser aviado
Candidatura
A ser considerada sem omissões
Tudo será verificado
Anotado e constará
do relatório final.
Basta carregar na tecla enviar
E será recepcionado.
Da decisão do juri
Não haverá apelação.
O formulário é uma simples instrução
Um mapa orientador do tesouro
(pelo mistério que encerra)
E da inquisição (pelas consequências
que origina) Um jogo, um destino
Uma cartografia de desejos
(os técnicos psicólogos vêm tudo
mesmo no escuro) ninguém se engana.
juntar um código QR e uma foto actual
O seu digital interessa.
Queremos-te!
E de repente...
Todos quiseram vir reivindicar o seu bocado de carne
De sangue, de vísceras e de glória.
Foi um dia triste.
Há dias assim. Nem todos os dias
são de galhofa e de riso
Só os tolinhos vivem no embalo das sereias
Com que adormecem a sonhar.
E de repente....
Os abutres, as hienas, todos os necrófitos
Se entusiasmaram. Era chegada a sua vez.
Nada a opôr.
Temos de ser uns para os outros.
Tirei o veneno do saco e da mochila
E deixei que comessem à vontade.
Quem era eu para lhes interromper o mastiganço?
E bem manducavam... sôfregos, azedos, aflitos
Foi um prazer ter-vos conhecido!
Era já verão e os campos estavam mais limpos
Até as varejeiras se afastavam da peçonha
-vamos para eleições! Disseste.
Vai tu, respondi!
Oferecendo a cara e o outro lado da moeda.
E foi assim, quando tudo corria tão bem
Quando estávamos prestes a chegar
Ao outro lado do mundo ao outro lado do mar
Que tudo acabou. Ficamos assim:conclui!
E nunca mais ouvi falar de ti.
Amarrado com cordas
Despenteado
Caindo em qualquer lado
Peregrino alucinado
Procurando a noite
De todos os sossegos.
A febre não me deixa respirar
Tenho a garganta,
Os pulmões e os ouvidos
Esmagados.
Os olhos desapareceram
O nariz é puro sangue
E a boca assemelha-se
A um intestino.
Estou derrotado.
Neste barro amassado
Onde já nada se destingue
Vejo as mãos como fios,
Cordames de aranhas em teia
E nos pés uma raiz que se afunda.
Já não sou o que era
Desfaço-me em cada bofetada
Do mar,
no chicotada que o vento trás
E o sol abre em ferida que crosta.
Já não sou.
A tortura é minha.
Consigo escapar das cordas
fugo derretendo-me
E no rasto das feridas
Escrevo "piedade"...
Ninguém me ouve, nem quer saber.
Então, caído, em lágrimas
Subo às nuvens e desabo em tempestade.
Estou vingado.
O jardim está um matagal.
Porque não foi cuidado
Secou. Ficou sem flores,
Sem relva, sem beleza
Porque tudo cresceu disforme
Em erupção, selvagem
Como uma explosao de cores
Que morrem no esforço
De se erguerem.
Os ramos, as hastes, os rebentos
Cruzam-se e amaranham-se
Sobem apressadas
Magras, raquiticas, desengonçadas.
O jardim até podia estar bonito,
Mas não está: sujo, porco de lixo
Urbano.... atulhado.
Sim, o jardim está fechado.
O éden, acabou!
Sou vicário de mim.
Sou alcateia
E jardim.
E no tempo que lá vem
Serei o céu estrelado
O luar engomado
E a terra sem fim.
Mar de fantasia
Estrumado, adubado,
Pronto a deixar-se semear
Colher, pescar,
E no início, como sempre,
Regressar, continuar.
Aqui começa o vento
Sou vicário de mim.
Eu tenho uma galinha
Uma galinha eu tenho
Não há galinha como a minha
Nem canja mais saborosa.
Eu tenho uma galinha.
Os meus links