Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Sábado, 2 de Fevereiro de 2019
contradições

E no dia que desaparece, 

fico entre paredes,

                       no meio das casas

espreitando, chaminés e mastros

                      como

bandeiras drapejando em castelos

                      como

se a febre da loucura da conquista

                      fosse

                                    coisa antiga

 

encolho os ombros, indiferente.

 

Sei que o não deveria ser, mas...

Não consigo olhar o mundo

                                       de outra maneira

Sou-lhe indiferente, tal como ele, o mundo,

me é indiferente

                                        a mim.

Estas são as flores

Que o inverno destruiu.

Flores que o frio matou.

estas são as flores

Que em contradição

Existem em mim.

 

E nessa indiferença lanço gritos de dor

sacudo a angustia e o pesadelo regressa

(transformo-me em monstro, em mastim)

quero ser parte do universo e da noite

depois do dia, da trovoada, do calor do sol,

da água, da chuva e do vento rajada 

punhado de areia e turbilhão que seja

um novo amanhecer, uma nova idade

(animal, bicho, predador, peixe...

tudo menos homem, que já me esqueci

do que fui e por onde andei ...)

devem ser desgostos da idade, dizes

para me consolar. Eu não sei explicar!

 

Indiferente na raiva, no amor, na saudade.

Indiferente, até que a memória se apague.

Aí, serei igual! Ou talvez outro!

 

Nunca somos o mesmo do que fomos

porque o tempo e o mundo nos mastiga,

consome, transforme e berra renascendo

 

Quero ser pai, quero ser mãe!

 

 



carlos arinto maremoto às 18:47
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019
aguas que descansam e se braviam

Sentimos o mar e o vento alimenta-nos.

 

À vista dos que bailam, nas ondas, nas nuvens, 

E nos cheiros de marés e peixe

As aves e os turistas transformam-se

Em mantas coloridas de iris infinitas.

 

Barcos, casas, ermidas, velas de voar

Areias que fizeram barco estrangeiro naufragar.

 

Onde a água desliza, abrindo poça

A luz crua ou a noite salgada são sonho

E as confrarias se bastam

No engalanar do júbilo de ser unica.

 

Dunas em movimento, perseguindo

Modificando, alterando a paisagem

E o curso do tempo a que resiste

Para se manter inical e pura.

 

Tudo aqui tem mar e oração

Agradecimento, benção, pedido de perdão

Pela lagoa cheia, perfumada,

Povo enxuto, terra abençoada.

 

E se em delirio, extase ou devoção

Quisermos ver o sol, basta estender a mão

Mar, planície, lagoa, serra, povoação

Aqui eu sou criança e criação.

 



carlos arinto maremoto às 18:56
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Domingo, 13 de Janeiro de 2019
os que aqui vivem

O frio alastra

Percorre as ruas, o corpo, a cidade

E as pessoas, nos seus agasalhos

Curvam-se ao frio procurando resguardo.

O frio está firme em todo o céu

Envolvendo toda a foz do rio

A estrada, os dedos de cada mão

E os vidros opacos das janelas.

Nas cidades de prédios murados

E luzes fabricadas, o frio

É o que resta do sol antigo

(vejo paredes vazias e lençois de plastico

musica, futebol, noticias)

Um frio que abraça os telhados

E as profissões de rua

Um frio que gela - como lhe compete

Um frio que mata

                      Como nunca deveria ser

Um frio que arrepia e nos bate na cara

Um frio impiedoso

Aqui faz sempre frio em janeiro.

 



carlos arinto maremoto às 18:16
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Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018
reflexo matinal

A luz chegou

Refletindo-se nas vidraças da tua janela.

 

Ao longe

Avisto a torre da Igreja

O sotão, onde repousam os nossos baús

E a chaminé da antiga fábrica,

Hoje abandonada.

(sento-me num degrau da escada que leva ao céu

Pedra cheia de musgo que ali está a fazer de amparo)

Não sei se é sol, apenas luz

Ou outra coisa qualquer o que vejo, como

Um espelho que devolve alegria, serenidade

Cheiros e recordações.

(um revérboro do passado, um buraco

Na fuga do tempo, um rasgão na saudade

Fissura de gente que se mostra como era)

Lá, tal como aqui, onde o frio e a saudade

se desfazem em névoas, em geada, em lume

Em desejo,                                           ( mas)

A ilusão passa e os planetas voltam a estar

Alinhados

 

Se eu acreditasse

Se eu soubesse rezar

Se eu fosse quem não sou

Se eu quisesse

 

Minto para me sentir luz

E a luz mente para me enganar.



carlos arinto maremoto às 09:36
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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
assombração

Tudo tem tormentos, inquietações

Ou não fossemos soldados, vigilantes

Riscos, relampagos, fissuras

No susto e na diferença, na margem

De uma virgula, em um fugaz repouso...

 

Tudo tem de ser coragem e vontade

Num repente tudo muda e se transforma

O que era, foi.

O amanhã não tem solução

Porque ainda não existe.

 

A Terra, planeta assim chamado pelos usuários

Modifica-se e percebemos que nos modificamos

Quando somos pedra, planta, flor ou pássaro

Ribeira, enxurrada e faisca. Quando somos verde-escuro

Incendio e nuvem na madrugada.  O tempo aí vem!

 

E tudo fica diferente, outro ou igual. Não sabemos!



carlos arinto maremoto às 17:11
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Domingo, 11 de Novembro de 2018
Ladrão de mim

Transferi meus sonhos

Matei a beleza de ser jovem

Sou ladrão de mim.

E agora?

Onde me sento para receber a tua benção?

Minha mãe!

 

Os salteadores andam nas serras

Contavas-me quando eu era criança

E roubam os viajantes. Matam e fogem!

Querem comida, sangue e justiça

Dizias...desculpando-os da sua culpa.

Que outros culpa tinham.

 

O meu avô foi á guerra e lá morreu.

A guerra tudo roubou ao mundo

E a saudade ficou.

 

Eu também guerreiro fui

Numa outra guerra - é verdade!

Numa terra que desconhecia

E, talvez por sorte,

                                  não morri.

 

Somando todos os crimes

Fica o  mundo vazio

Que o dinheiro

É coisa antiga,

                              da Biblia

                              E das traições,

                              dos que roubam

E se matam, matando.

 

Os ladrões e os sentimentos

São os mesmos.

Comida, sangue e justiça!

 

Casei. Contigo vivi.

E agora que morro

Sou feliz.

 



carlos arinto maremoto às 11:09
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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2018
motivos

Há sempre um motivo.

 

Não é que eu tenha razão,

Mas há sempre um motivo.

 

Por isso 

Declarou que

 

Foram diversas as razões

E os motivos

 

Foi tudo por motivos!



carlos arinto maremoto às 16:45
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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018
O tempo no presente

Tudo me parece obsoleto

estranho

Cansado de tantas palavras

E bravatas

E também dos jogos

E de todos os desfiles 

Procissões militares

Paradas religiosas

E elogios, preces e maravilhas

Contos, luzes e sismos

Sem sono e sem fim

Na pele, no corpo, na alma

Na geografia de mim

Tudo me faz indiferença

E me nega vontade.

 

No sorteio da vida

Espero a loucura do desejo

Tudo o que volte a ser

Beijo, riso e consequência

 

Porque a diferença é estranha

Por ser nova diferente.

 

 

 

 



carlos arinto maremoto às 14:03
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Domingo, 28 de Outubro de 2018
vento que flui

E o vento vem em rajadas

Desfazendo tudo.

 

Todos os dias o vento

Estilhaça  as ilusões da noite

Espalha desordem

Que temos que voltar a ordenar

E neste fazer e desfazer

Já antigo

Ficam as nossas vontades 

Desmembradas e possiveis.

 

O vento vem em rajadas

Triturando en lençois

De distancia o seu murro

Que nos empurra

desbarata e estilhaça

Sem pena ou pavor

 

Porque o vento é apenas a vida

Que recomeça

Depois da agitação do nada.



carlos arinto maremoto às 10:06
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Domingo, 21 de Outubro de 2018
escrito

Escrito na água

em pingos de chuva

Vejo

O teu rosto

Sinto

A tua voz

E vivo

Toda a lembrança.

 

São os dias

Assim

Que escarpam

Silencios

Esculpem medos

E fazem do fogo

serenas labaredas

De saudade

 

(existe um fogo 

Que a chuva molha

existe um fogo

Que a chuva

Não apaga)

 

Escrevo

Em frio molhado

Em orvalhos

De luz

 

Porque o tempo

O tempo

O tempo

O tempo

Não regressa

O tempo

Não é.

 



carlos arinto maremoto às 16:20
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Sábado, 20 de Outubro de 2018
amanhã

Onde anda o amanhã, que ainda não chegou?

Que venha sem pressa, devagar

                                                   quero estar aqui

Neste mesmo lugar, hoje, sempre,

                                     quando o amanhã chegar.

 

porque hoje sou o sempre

                                    Onde habito e inteiro sou

E o amanhã pode ser em qualquer outro lugar



carlos arinto maremoto às 17:07
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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2018
Ser outro

Se eu pudesse ser diferente

Ser outro

Lembrar-me-ia do teu riso

E com esse unico pergaminho

escreveria o teu nome 

Em todas as estrelas 

Que te viram nascer e morrer.

 

As estrelas são a minha recordação

O teu nome uma ficção.

(Tenho a casa cheia com o teu retrato

Mas será que exististe

Ou terei amado uma ilusão?)

 

Se eu pudesse ser diferente

Ser outro

Esqueceria tudo e voltaria a nascer.



carlos arinto maremoto às 09:01
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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018
viajem a Lisboa

Fiz sinal ao autocarro

Que leva passageiros

estendendo a mão.

Este, não parou!

 

"A ausência é um estar em mim"

Carlos Drumond de Andrade

 

Não fiquei triste.

Logo apareceu outro autocarro

Que me trouxe até mim

Tudo o que o tempo fizera seu

 

E nessa nave sem asas voei

Adormeci e me consolei

Na riqueza do que fui

Na alegria do que sou.

 

Por vezes, tenho sonhos assim!



carlos arinto maremoto às 17:43
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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2018
mudanças

O céu prenuncia que vai haver chuva.

O tempo arrefece

As almas dos encarcerados ficam nuas

E eu encontro a paz das horas mortas

No teu olhar. 

              Não precisamos de dizer nada

 

São esteiros, estas árvores

Que se preparam para o inverno

São folhas e bosquímaros

De que me despeço sem o saber

Num imovel fim de tarde

Num riscado poente de estação

Que não recebe mais viajantes

(vidros foscos, azulejos partidos

Relógo parado e vivalma na caliça

Da gare e dos horarios rasgados

Antigos, abandonados)

 

Tudo prenuncia anunciando

Que a certeza do que for

Será. 

Sempre tudo se faz e transforma

Em outra coisa.

Coisas que na vida acontecem.

 

Gosto de ver o mundo mudar.



carlos arinto maremoto às 18:56
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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2018
deixar a cidade

Vou deixar a cidade e partir.

(era para ser ontem, depois

Amanhã, mas hoje é agora)

Não sei para onde vou

Apenas partir e descobrir

O que tiver que descobrir

Porque ao encontro me leva

A paixão pelo renascer.

 

Descobro romarias de frutas,

E as ondas do mar

Ainda são praia e frescura

No tempo alegre e quente

De um outono tardio.

 

Vou deixar a cidade 

Tenho pressa de chegar

Viajando pelo vento,

Pelo ar

Rumo ao sul empoeirado

Por dentro de uma vinha

Onde o azul de um estio

Feito adobe e montanha

Me espera adormecido

 

Vou deixar a cidade.



carlos arinto maremoto às 12:20
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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2018
noticias

Há um coro de noticias

E em todas se juntam

As pessoas que amamos.

 

São noticias de nós

São noticias de mim

 

São palavras, imagens

Pensamentos.

As noticias são alimento

De um passado

Num presente que é hoje

E se quer amanhã

Porque a noticia pode ser

(também ela adivinha)

Futuro.

 

Chegam noticias de nós

No distante ano

Em que já não existem

Noticias.

 



carlos arinto maremoto às 19:52
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Sábado, 29 de Setembro de 2018
os lugares do passado

Regresso a um passado

Qure não tem regresso

É apenas passado.

Ainda existem sobreviventes

É verdade.

Mas, nem esses testemunham

Que o passado foi um tempo

De rebeldia, de vitalidade

E de bulhas constantes.

Um passado de vida e pujança

De vinho bebido na taberna

De namoros, festas e procissões

E trabalho feito a musculo.

 

Regresso a um passado 

Que futuro há-de ter outro

Talvez amanhã grito

De vidas renovadas

De repouso escondido

E glórias celebradas.

 

Toda a aldeia é um passado

Que hoje é diferente

E o passado fica longe

Cada vez mais longe

Do sitio para onde hoje

Se faz o presente.

 



carlos arinto maremoto às 08:36
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Sexta-feira, 28 de Setembro de 2018
Mentiras

As mentiras que eu escrevo

Fazem alguém acreditar?

Digo que estou triste e fico alegre

Diga que tenho saudades e amores

E é tudo mais uma mentira

Pois, a vida não é poesia

Mas cruel ousadia de viver.

As mentiras que escrevo

Iludem os mais corajosos

Derrotam os aventureiros

E até eu fico convencido

De que sou guerreiro e estrela polar.

 

Com mentiras me alimento

E esqueço que a mentira

pode ser verdadeira

Quando minto por brincadeira.

 



carlos arinto maremoto às 18:28
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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
outono

E o tempo fez-se escuro e vieram as chuvas

As nuvens e algum frio, nada desagradável

Ainda, antes equinócio de abraços e promessas

De mil ternuras, num beijo ao luar.

Fomos erguendo os nossos corpos ao vento

E todo o momento de saudade chegou até mim

Porque se disse: hoje acabou o verão!

 

Colho um cheiro no aroma da tarde

Cada ano um novo recomeço

Cada ano uma desigualdade

Um adeus! Folheio o tempo que passa

E numa luz que se dobra em véus

Fico àrvore desencantada e nua

Resistindo ao outono que passa.



carlos arinto maremoto às 17:31
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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
Não procuro nada

Não procuro nada e tudo chega até mim.

(naquela forma leve

                               que o mar ter de se aproximar

Das pessoas, nos dias de verão

Suave, devagar lambendo-nos os dedos dos pés,

Agitando a cauda, 

Como um cachorro de companhia

Ou os esboaçantes cabelos de um amor ausente) 

 

 

Sigo um caminho que se basta, sem busca

Sem ambição, procurando ser apenas poeira

No turbilhão da tempestade, no vento que mistura

Sal, sentimentos, luzes, mentiras e verdades.

 

Desisti de procurar, porque o que queria não existe

desisti.

O que queria não era possivel em palavras.

 

Todos temos no passado os segredos do infinito.

Nos sonhos, a inconsciência do que somos.

 

Eu não sou todos, ou outro ou alguém

Mais além. Apenas

A ambição de ficar

Não existe,

porque nada fica.

(tudo vai com a vaza mar

Em retorno. Em reversão.

Sem audácia. Apenas

Porque é um costume antigo

Deixar-se engolir pelo mar)

 

Não procuro nada.



carlos arinto maremoto às 08:52
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