Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018
reflexo matinal

A luz chegou

Refletindo-se nas vidraças da tua janela.

 

Ao longe

Avisto a torre da Igreja

O sotão, onde repousam os nossos baús

E a chaminé da antiga fábrica,

Hoje abandonada.

(sento-me num degrau da escada que leva ao céu

Pedra cheia de musgo que ali está a fazer de amparo)

Não sei se é sol, apenas luz

Ou outra coisa qualquer o que vejo, como

Um espelho que devolve alegria, serenidade

Cheiros e recordações.

(um rebérboro do passado, uma buraco

Na fuga do tempo, um rasgão na saudade

Fissura de gente que se mostra como era)

Lá, tal como aqui, onde o frio se desfaz

Em névoas, em geada, em lume

Em desejo, mas

A ilusão passa e os planetas voltam a estar

Alinhados

 

Se eu acreditasse

Se eu soubesse rezar

Se eu fosse quem não sou

Se eu quisesse

 

Minto para me sentir luz

E a luz mente para me enganar.



carlos arinto maremoto às 09:36
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
assombração

Tudo tem tormentos, inquietações

Ou não fossemos soldados, vigilantes

Riscos, relampagos, fissuras

No susto e na diferença, na margem

De uma virgula, em um fugaz repouso...

 

Tudo tem de ser coragem e vontade

Num repente tudo muda e se transforma

O que era, foi.

O amanhã não tem solução

Porque ainda não existe.

 

A Terra, planeta assim chamado pelos usuários

Modifica-se e percebemos que nos modificamos

Quando somos pedra, planta, flor ou pássaro

Ribeira, enxurrada e faisca. Quando somos verde-escuro

Incendio e nuvem na madrugada.  O tempo aí vem!

 

E tudo fica diferente, outro ou igual. Não sabemos!



carlos arinto maremoto às 17:11
link do post | comentar | favorito

Domingo, 11 de Novembro de 2018
Ladrão de mim

Transferi meus sonhos

Matei a beleza de ser jovem

Sou ladrão de mim.

E agora?

Onde me sento para receber a tua benção?

Minha mãe!

 

Os salteadores andam nas serras

Contavas-me quando eu era criança

E roubam os viajantes. Matam e fogem!

Querem comida, sangue e justiça

Dizias...desculpando-os da sua culpa.

Que outros culpa tinham.

 

O meu avô foi á guerra e lá morreu.

A guerra tudo roubou ao mundo

E a saudade ficou.

 

Eu também guerreiro fui

Numa outra guerra - é verdade!

Numa terra que desconhecia

E, talvez por sorte,

                                  não morri.

 

Somando todos os crimes

Fica o  mundo vazio

Que o dinheiro

É coisa antiga,

                              da Biblia

                              E das traições,

                              dos que roubam

E se matam, matando.

 

Os ladrões e os sentimentos

São os mesmos.

Comida, sangue e justiça!

 

Casei. Contigo vivi.

E agora que morro

Sou feliz.

 



carlos arinto maremoto às 11:09
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 9 de Novembro de 2018
motivos

Há sempre um motivo.

 

Não é que eu tenha razão,

Mas há sempre um motivo.

 

Por isso 

Declarou que

 

Foram diversas as razões

E os motivos

 

Foi tudo por motivos!



carlos arinto maremoto às 16:45
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018
O tempo no presente

Tudo me parece obsoleto

estranho

Cansado de tantas palavras

E bravatas

E também dos jogos

E de todos os desfiles 

Procissões militares

Paradas religiosas

E elogios, preces e maravilhas

Contos, luzes e sismos

Sem sono e sem fim

Na pele, no corpo, na alma

Na geografia de mim

Tudo me faz indiferença

E me nega vontade.

 

No sorteio da vida

Espero a loucura do desejo

Tudo o que volte a ser

Beijo, riso e consequência

 

Porque a diferença é estranha

Por ser nova diferente.

 

 

 

 



carlos arinto maremoto às 14:03
link do post | comentar | favorito

Domingo, 28 de Outubro de 2018
vento que flui

E o vento vem em rajadas

Desfazendo tudo.

 

Todos os dias o vento

Estilhaça  as ilusões da noite

Espalha desordem

Que temos que voltar a ordenar

E neste fazer e desfazer

Já antigo

Ficam as nossas vontades 

Desmembradas e possiveis.

 

O vento vem em rajadas

Triturando en lençois

De distancia o seu murro

Que nos empurra

desbarata e estilhaça

Sem pena ou pavor

 

Porque o vento é apenas a vida

Que recomeça

Depois da agitação do nada.



carlos arinto maremoto às 10:06
link do post | comentar | favorito

Domingo, 21 de Outubro de 2018
escrito

Escrito na água

em pingos de chuva

Vejo

O teu rosto

Sinto

A tua voz

E vivo

Toda a lembrança.

 

São os dias

Assim

Que escarpam

Silencios

Esculpem medos

E fazem do fogo

serenas labaredas

De saudade

 

(existe um fogo 

Que a chuva molha

existe um fogo

Que a chuva

Não apaga)

 

Escrevo

Em frio molhado

Em orvalhos

De luz

 

Porque o tempo

O tempo

O tempo

O tempo

Não regressa

O tempo

Não é.

 



carlos arinto maremoto às 16:20
link do post | comentar | favorito

Sábado, 20 de Outubro de 2018
amanhã

Onde anda o amanhã, que ainda não chegou?

Que venha sem pressa, devagar

                                                   quero estar aqui

Neste mesmo lugar, hoje, sempre,

                                     quando o amanhã chegar.

 

porque hoje sou o sempre

                                    Onde habito e inteiro sou

E o amanhã pode ser em qualquer outro lugar



carlos arinto maremoto às 17:07
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 12 de Outubro de 2018
Ser outro

Se eu pudesse ser diferente

Ser outro

Lembrar-me-ia do teu riso

E com esse unico pergaminho

escreveria o teu nome 

Em todas as estrelas 

Que te viram nascer e morrer.

 

As estrelas são a minha recordação

O teu nome uma ficção.

(Tenho a casa cheia com o teu retrato

Mas será que exististe

Ou terei amado uma ilusão?)

 

Se eu pudesse ser diferente

Ser outro

Esqueceria tudo e voltaria a nascer.



carlos arinto maremoto às 09:01
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018
viajem a Lisboa

Fiz sinal ao autocarro

Que leva passageiros

estendendo a mão.

Este, não parou!

 

"A ausência é um estar em mim"

Carlos Drumond de Andrade

 

Não fiquei triste.

Logo apareceu outro autocarro

Que me trouxe até mim

Tudo o que o tempo fizera seu

 

E nessa nave sem asas voei

Adormeci e me consolei

Na riqueza do que fui

Na alegria do que sou.

 

Por vezes, tenho sonhos assim!



carlos arinto maremoto às 17:43
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 8 de Outubro de 2018
mudanças

O céu prenuncia que vai haver chuva.

O tempo arrefece

As almas dos encarcerados ficam nuas

E eu encontro a paz das horas mortas

No teu olhar. 

              Não precisamos de dizer nada

 

São esteiros, estas árvores

Que se preparam para o inverno

São folhas e bosquímaros

De que me despeço sem o saber

Num imovel fim de tarde

Num riscado poente de estação

Que não recebe mais viajantes

(vidros foscos, azulejos partidos

Relógo parado e vivalma na caliça

Da gare e dos horarios rasgados

Antigos, abandonados)

 

Tudo prenuncia anunciando

Que a certeza do que for

Será. 

Sempre tudo se faz e transforma

Em outra coisa.

Coisas que na vida acontecem.

 

Gosto de ver o mundo mudar.



carlos arinto maremoto às 18:56
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 3 de Outubro de 2018
deixar a cidade

Vou deixar a cidade e partir.

(era para ser ontem, depois

Amanhã, mas hoje é agora)

Não sei para onde vou

Apenas partir e descobrir

O que tiver que descobrir

Porque ao encontro me leva

A paixão pelo renascer.

 

Descobro romarias de frutas,

E as ondas do mar

Ainda são praia e frescura

No tempo alegre e quente

De um outono tardio.

 

Vou deixar a cidade 

Tenho pressa de chegar

Viajando pelo vento,

Pelo ar

Rumo ao sul empoeirado

Por dentro de uma vinha

Onde o azul de um estio

Feito adobe e montanha

Me espera adormecido

 

Vou deixar a cidade.



carlos arinto maremoto às 12:20
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2018
noticias

Há um coro de noticias

E em todas se juntam

As pessoas que amamos.

 

São noticias de nós

São noticias de mim

 

São palavras, imagens

Pensamentos.

As noticias são alimento

De um passado

Num presente que é hoje

E se quer amanhã

Porque a noticia pode ser

(também ela adivinha)

Futuro.

 

Chegam noticias de nós

No distante ano

Em que já não existem

Noticias.

 



carlos arinto maremoto às 19:52
link do post | comentar | favorito

Sábado, 29 de Setembro de 2018
os lugares do passado

Regresso a um passado

Qure não tem regresso

É apenas passado.

Ainda existem sobreviventes

É verdade.

Mas, nem esses testemunham

Que o passado foi um tempo

De rebeldia, de vitalidade

E de bulhas constantes.

Um passado de vida e pujança

De vinho bebido na taberna

De namoros, festas e procissões

E trabalho feito a musculo.

 

Regresso a um passado 

Que futuro há-de ter outro

Talvez amanhã grito

De vidas renovadas

De repouso escondido

E glórias celebradas.

 

Toda a aldeia é um passado

Que hoje é diferente

E o passado fica longe

Cada vez mais longe

Do sitio para onde hoje

Se faz o presente.

 



carlos arinto maremoto às 08:36
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 28 de Setembro de 2018
Mentiras

As mentiras que eu escrevo

Fazem alguém acreditar?

Digo que estou triste e fico alegre

Diga que tenho saudades e amores

E é tudo mais uma mentira

Pois, a vida não é poesia

Mas cruel ousadia de viver.

As mentiras que escrevo

Iludem os mais corajosos

Derrotam os aventureiros

E até eu fico convencido

De que sou guerreiro e estrela polar.

 

Com mentiras me alimento

E esqueço que a mentira

pode ser verdadeira

Quando minto por brincadeira.

 



carlos arinto maremoto às 18:28
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
outono

E o tempo fez-se escuro e vieram as chuvas

As nuvens e algum frio, nada desagradável

Ainda, antes equinócio de abraços e promessas

De mil ternuras, num beijo ao luar.

Fomos erguendo os nossos corpos ao vento

E todo o momento de saudade chegou até mim

Porque se disse: hoje acabou o verão!

 

Colho um cheiro no aroma da tarde

Cada ano um novo recomeço

Cada ano uma desigualdade

Um adeus! Folheio o tempo que passa

E numa luz que se dobra em véus

Fico àrvore desencantada e nua

Resistindo ao outono que passa.



carlos arinto maremoto às 17:31
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
Não procuro nada

Não procuro nada e tudo chega até mim.

(naquela forma leve

                               que o mar ter de se aproximar

Das pessoas, nos dias de verão

Suave, devagar lambendo-nos os dedos dos pés,

Agitando a cauda, 

Como um cachorro de companhia

Ou os esboaçantes cabelos de um amor ausente) 

 

 

Sigo um caminho que se basta, sem busca

Sem ambição, procurando ser apenas poeira

No turbilhão da tempestade, no vento que mistura

Sal, sentimentos, luzes, mentiras e verdades.

 

Desisti de procurar, porque o que queria não existe

desisti.

O que queria não era possivel em palavras.

 

Todos temos no passado os segredos do infinito.

Nos sonhos, a inconsciência do que somos.

 

Eu não sou todos, ou outro ou alguém

Mais além. Apenas

A ambição de ficar

Não existe,

porque nada fica.

(tudo vai com a vaza mar

Em retorno. Em reversão.

Sem audácia. Apenas

Porque é um costume antigo

Deixar-se engolir pelo mar)

 

Não procuro nada.



carlos arinto maremoto às 08:52
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
deflagração

Ouvi um barulho

Algo a estilhaçar-se

Um tombo, 

Um chapinhar

 

Rebentamento

 

Fui eu

Que disparei

Sim, fui eu

Que parei

Para

 

respirar!

 

(No suave momento da vida

Em que se respira e vive

Há dias perfeitos. Sou parte

Dessa implosão.)

 

 



carlos arinto maremoto às 12:31
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 17 de Setembro de 2018
a máquina da inversão

o programa, devidamente esculpido

Pelo técnico de serviço

Elaborou o poema, ordenando as palavras

Numa sequência de efeitos

Para um arranho oral e de leitura.

 

(ou outra coisa qualquer, tanto faz,

Diz-se que é materia criativa, construção

Sintese ou figuração, enfim, poema)

 

O computador não sabe o que é isso de leitura

Por mais que o seu programador lho explique

Mas sabe adicionar, juntando e disciplinando

As palavras e o seu sequencial previsivel efeito

 

Na projecção dos arabescos, feitos palavras,

Frases, pequenas virgulas e acentos, riscos,

Traços e elegantes caracteres do alfabeto

(deste ou doutro, consoante a convenção)

São retirados os andaime e descoberta a arte

Presumivelmente bela, erudita e sensivel.

 

Sem biografia, sem verdade.

O leitor deixa-se enganar pelas emoções.

Afinal é ele, leitor, (todo) o poema!

 

 



carlos arinto maremoto às 08:33
link do post | comentar | favorito

Sábado, 15 de Setembro de 2018
o enigma

Encontro-te sempre só.

Quem és tu?

Vejo-te sempre numa luz transparente.

E parecendo ausente, sei que sentes

Que o mundo te abraça e beija

Como nenhum outro mundo faz.

Mas, olhando em volta

Encontro-te sempre só.

 

Quem és?!

Mulher-pássaro e poeira do mar

Batizo-te na incerteza

Que as flores, de que não sei o nome

Me oferecem beleza e paz

 

 



carlos arinto maremoto às 08:47
link do post | comentar | favorito

MAREMOTO
pesquisar
 
Novembro 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

12
13
14
15
16
17

18
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29


textos recentes

reflexo matinal

assombração

Ladrão de mim

motivos

O tempo no presente

vento que flui

escrito

amanhã

Ser outro

viajem a Lisboa

arquivos

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Junho 2016

Janeiro 2014

Março 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

tags

todas as tags

links
a partir de:
28.03.2010