Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 16 de Junho de 2020
Mulher

Mulher que respira sumo

Que é fumo e vento

De faces maduras

Mãos com dedos finos

Olhar acutilante, cabelos revoltos

E boca que em uva, 

Todo o corpo em cacho, 

num pescoço de pêssego 

Com penugem de marmelo

E uma forma de esplendor

Que apenas posso dizer que é solar. 

Mulher que encontro na esplanada da vida

Ns maternidade da criação,

Rumo à arteo e ao belo,

à perfeição

ao traço do criador. Escrita, tela, desenho

Ou aguarela

Que se compõe em reflexos de água 

Para descobrir a capacidade do êxtase 

Numa nuvem nua de orvalho. 

Essência da beleza na silhueta da sombra

Que é esteiro, hino e serena confiança. 

De mulher. Intuitiva. Natural. Sagrada.

Definitiva. 



carlos arinto maremoto às 12:29
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2020
O absurdo

O motorista esqueceu-se de tirar a mangueira

Do ânus traseiro do carro

(desconheço se também possuem ânus na frente) 

Quando na bomba fez o reabastecimento da viatura. 

Saiu arrancando a bicha, a mangueira e o que mais

Seguiu atrás: vísceras, gazolina, borracha queimada,

Um estampido, uma puchada e salto em esticão. 

Distração... Disseste. 

Onde estavas com a cabeça? 

Porque é que aquilo tudo não explodiu mandando

Para o caralho a tua distração? 

És muito distraída, muita dada a confusões. 

Santa Barbara de Nexe nos valha

E vê se te mexes

Que te afogues e te incendeies e desapareças. 

Gente assim, não faz cá falta. 

Incinera-se e pronto. Por cima coloca-se um creme

De cremação 

Tipo bolo de arroz. Cereja, ginga ou cigarro aceso no cu

Que absurdo! 

Tantos anos de evolução e depois dá nisto

Bêbada a andar de gatas no chão. 

O motorista é que tinha razão. Deixa que eu conduzo! 

 



carlos arinto maremoto às 18:20
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Domingo, 14 de Junho de 2020
Rodrigo guedes

Termino a leitura de um livro

 

Já morreram todos, já todos foram à enterrar

Triste desfecho, tantas páginas e aflições 

Para acabar tudo morto. 

O autor escreve bem. 

É claro, sucinto, usa as palavras para mexer

Connosco, com os personagens, com a vida, 

Mas exagera estraçalhando tudo e todos

Deixando-me arrepiado triste e desconsolado

Gostava mais de um fio de azeite a crepitar

Lambendo as páginas, sem fazer mal, porém... 

Tudo ali é mecha, explosivo, tubarão no mar

O autor  não deixa ninguém escapar

É torcidário, filho da violência e matador compulsivo

De chacina em chacina vai somando fuzilamentos, 

Suicídios, sovas, porrada e com água ou veneno 

Todos morrem por um acaso, uma desatenção 

Em percalços e bulhas de famílias às avessas.

Vou deixar que o retrato se apague da memoria

E que o escuro da ficção seja um mau momento da criação

E alguém sobreviva para contar :

Sim o mundo por vezes é assim! 



carlos arinto maremoto às 19:13
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Limpeza do terreno

Depois da missa, 

O som, sempre igual, monótono e constante

Arranca devagar... Pára, continua, acelera, volta a parar

Arranca em soluços, suspira, tem intermitências, 

Salta em decibéis iguais, uiva aflito,

Continua em esticão e vai-se prolongando pela manhã

Como uma lâmina que separa as horas e limpa as terras

 

Hortas, canteiros com flores, árvores de fruto, 

Matos selvagens, ervas eriçadas, urze, rosmaninho 

Todo um novelo de fios que se entrelaçam no verde

Salpicado por azuis, amarelo, roxos, brancos e violetas. 

 

Ramos, pernadas soltas, ervas e arbustos decepados

ficam em monte misturador com molhos de caruma. 

Algumas pedras  saltam e rolam escarpa abaixo

Em cardume, em bando em manada todos se espantam dali.

Restam verduras a secarem ao sol, paus, galhos, 

Logo mais, estrume e vegetais em decomposição 

 

Fica o chão seco, raso e o som dos ofícios extingue-se.

É hora do almoço. A pique, o sol encanta, e as gargantas 

Deliciam-se, finalmente, com o vinho maduro e a água fresca.

 

É assim, a vida no campo. Domingo, sem descanso. 

 



carlos arinto maremoto às 10:15
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Sábado, 13 de Junho de 2020
Moto-serra

Um qualquer barulho de motor trespassa a serra,

O arvoredo, as galinhas, a passarada e as ovelhas

Como se de trator, se tratasse, ou moto, ou serra de corte 

Bomba de recolher água em poço profundo,

Talvez roçadoura de lâminas afiadas, 

Um roncar insistente, uma troada

Que mancha o silêncio e a quietude do apaziguamento 

Confinado nestes vales onde até o ladrar de um cão 

Nos sobressaltada. 

 

Depressa nos habituamos.

 

O ronco pára tal como começou 

Subitamente.

Já nem nos lembramos que existiu e que nos assustou

Desapareceu, tal como chegou, com a urgência da serra

Antigo serrote movido a combustão de ruidoso propulsor

Que corta a madeira e terminada a função se cala.

 

A lenha será fogueira e lume

E o barulho crepitar. 

A tarde adormece com zumbidos de abelhas

E chocalhos de badalos do gado a recolher aos currais.

Tudo volta ao normal. Há um fumo no palheiro

Tudo o resto é silêncio.

Passa uma vizinha que me saúda, magra como agulha

E fica a noite companheira deste abandono 

Debaixo de uma luz mortica, de candeeiro rodeado de asas

De insectos que se aproximam circulando em volta.

O barulho da serra é agora um murmúrio 

Alguns pios de pássaros e as copas das árvores em abano

Nada resta do tronitroar. 

 



carlos arinto maremoto às 19:28
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Sexta-feira, 12 de Junho de 2020
O ruído em trovão

O ruído precepita-se em cachoeira

Sobre a minha cabeça. 

Risos, gritos, sons de televisão, 

Escapes de carros, conversas em gestos

E pregões de quem comunica à distância, 

Ar soprado artificialmente, vento das eólicas 

Chocalhar de copos, garrafas, mais gargalhadas

E bater com os pés no chão, vozes zangadas. 

O barulho cresce em arraial

Batem palmas, castanholas, incentivos,

Uma música irrompe como lança 

Um jogador conduz ao delírio os epectadores,

Público extasiado, adeptos e claques 

Todos os que não resistem em abrir a boca

E, gritar! Gritar! Gritar!

 

O barulho é um remoinho de insultos

De argumentos, de medicamento

Anestésico, alucinogenico, 

Receita para triturar ideias e pensamentos 

É no ruído que se avança para a guerra

Para a insurreição e para a morte

É no barulho da batalha que se decide

Os que sobrevivem e os que rebentam

E se estilhaçam.

É no ruído e no truculento badalar da insistencia

Que nos ameaçam e corrompem. 

Um matraquear. Um perfurar que penetra

Um demolir. 

O barulho é praga, martelo.

E se o questionarmos, se ingenuamente o inquirirmos

Dirão : barulho? Qual barulho? Não tinha reparado.

(estou tão habituado)

Sílabas estridentes saem por entre os dentes

Um tambor rufa, o coração dispara

Há tiros e fogo de artifício no ar. 

O barulho só não é insurdecedor, porque já ninguém ouve

O som mistura-se com o ruído o arranhar de unhas

E o batuque pulveriza quem passa, os que se aproximam.

É telúrico e desaba em pandemia colapsando. 

 

Não existem sobreviventes! 



carlos arinto maremoto às 08:14
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Quinta-feira, 11 de Junho de 2020
Feriado

É sempre assim, 

Aos feriados amanhece como nos outros dias

Não se nota diferença, a luz corre devagar, 

As persianas da vida levantam-se ensonadas

Pequenos sons, quase nadas, escutam-se ao longe

Folhas secas batem na vidraça empurradas por um vento

Que faz levantar poeira e convida a ficar na cama

Na perguiça de saber que hoje é feriado

Tudo está fechado, não vou trabalhar e posso descansar. 

Comemora-se, sei lá o quê. Algo importante..

Um santo, uma ocasião que todos já esqueceram

Uma batalha, uma revolução... 

Hoje é feriado e mesmo com o tempo do avesso

Muitos irão à praia, visitar amigos, correr nos jardins

Alguns, farão a vida normal, sempre igual, outros... 

(trocam o dia por outro dia, o natal pelo carnaval,

Os Santos populares pela peregrinação na festa da aldeia) 

O feriado é um dia igual e neste contentamento

Fecho os olhos e festejo. 

 

 



carlos arinto maremoto às 06:56
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Quarta-feira, 10 de Junho de 2020
Retratos a sépia

Escolho retratos

Para um álbum que hei-de construir do nada

Um dia, quando o tempo sobrar

E não souber o que hei-de fazer.

(com as mãos, com o corpo e com a cabeça) 

Escolho fotografias 

Poses antigas, avôs, avós, sobrinhos

Gente que nem sei identificar 

E voltando as costas à moldura

Procuro escritos que digam o que foram

Alguma data, uma dedicatória, uma assinatura

Uma pista que me leve até aos meus antepassados. 

Sem querer, num acaso, encontro uma fotografia de nós, 

Esquecida no meio da papelada. 

(como estamos bem, jovens, bonitos, contentes) 

Procuro momentos, aconchegos, olhares

Coisas simples, grandes nadas 

Fotografias antigas em papel, em negativo

Embalsamadas, escondidas... muitas perdidas

Fotografias que esperam para serem lembrança 

Mesmo que já não tenhamos memória 

Mas sobreviva uma esperança de ser comparação,

De uma semelhança que nos desperte e revele

Uma ligação.

Antes de nós, outros existiram

(e foram jovens, bonitos, contentes) 

Que fizeram, por algum sentido desconhecido, 

Ou força que a natureza esconde

Com que, agora, estejamos aqui, a folhear retratos

A juntar pedaços, a admirar rostos, poses, brincadeiras

Olhares, maroteiras, caras sérias, carrancudas

Rostos mudos  na sépia do papel,

Aqui! onde tudo ficou e continua a estar. 

 

 

 



carlos arinto maremoto às 22:19
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Terça-feira, 9 de Junho de 2020
A sombra

A minha sombra anda a rir-se de mim.

Se dou dois passos ela dá quatro, 

Vai sempre lá à frente

Se dou cinco passos, ela encolhe-se

E com apenas dois fica para, trás. 

 

Também anda ao meu lado, 

Por vezes baixinha, outras esticada

E uma sombra arrepiada 

Não lhe ligo nenhuma. 

Ri-se de mim, faz negaças, simula monstros

E fantasmas nas paredes, bonecos, robertos

E se lhe pergunto para onde vai... Esconde-se

Desaparece!

Fica oculta debaixo dos meus pés. 

E se a noite me surpreende no passeio da caminhada

Não a encontro em lado nenhum... 

Deve ter corrido a esconder-se

A apressada. 

 

 



carlos arinto maremoto às 18:03
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Sos ajuda

Um joelho no chão. 

Outro fletido. 

Ou ambos de rojo

Respeito o sinal

A genuflexão 

O corpo vergado

A saudação 

De joelhos ajoelhado. 

 

É respeito, 

Não submissão,

É homenagem

Não vassalagem. 

Ajoelho para dignificar

Não glorifico

Não acredito

Ajoelho para unir e respeitar

 

De joelhos para erguer

Os que de joelhos

Não podem ficar. 



carlos arinto maremoto às 10:07
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Água gota a gota

A gota ficou parada no final da caleira

Pendurada. 

Agarrou-se com todas as forças ao redondo pvc

Tentou não cair e até soerguer-se, mas foi em vão

O pvc fez-se limbo escorregadio e a gota desabou

Com o seu corpo de água no canteiro em baixo 

Ao fundo, à beira da estrada, lá onde uma rosa nascia

E assim a terra ficou molhada. 

Há três meses que não chovia!

Como surgiu esta gota na caleira da alçada

Qual o milagre que a fez ali plantada

Bamboleando-se até cair?

A noite, a madrugada, a lua, a orvalhada?

E a rosa se abriu e sorriu no canteiro

Abrigado debaixo de uma goteira. 

Basta uma pequena gota de água, uma minúcia 

Uma alasticidade que nos deixa baloiçar e cair

Sempre que nos empurram, para de novo comecar

Basta um pequeno movimento, um roçar 

Para que sejamos úteis e felizes. 



carlos arinto maremoto às 06:25
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Segunda-feira, 8 de Junho de 2020
O querubim encantado

Cheira a bolos acabados de fazer

É fim de tarde e todos estão no terraço. 

Há um sol amarelado e do outro lado 

A sombra preparar-se para saltar

Vestindo-nos como se vestem as luvas.

Um gato esperguiça-se,

Estica a cauda e as patas e boceja. 

O cheiro a bolos - acabados de fazer-

Abraça-nos e desperta-nos desejos

Prazeres de manducar. 

Uma garrafa de vinho, fresco, roda

Vertendo-se para os copos de mão em mão

E uma dormência suave fala de todas as coisas

Que os convivas, de pé, sentados e por ali, 

No terraço daquela casa isolada, 

Sabem apreciar, erguendo as narinas

Aspirando um perfume de bolos no ar

 

Ninguém se mexe ou fala, 

Seria tudo estragar. 

Bebamos à saúde, à paz, ao amor, 

A certeza - quem pode ter certezas? -

De que o amanhã chega

E o bolo, acabado de fazer, provo. 

Mastigo a óstia, o pão e a razão 

De ser o vale e a planície que me rodeia

A força e a coragem que incendeia

Tudo em redor, tudo cá dentro. 

Ficamos erguidos, estátuas ao vento

E todas as estrelas, lá no firmamento. 



carlos arinto maremoto às 19:28
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A metáfora de kafka

Que povo é este que anda de chinelos

Com cartazes na mão à procura de ser visto

Na rua, na manifestação? 

 

Em rebanhos, em viagens de manada

Em gritos de claques em vómitos 

em desperdício e lixo bolsado no chão. 

Que povo é este, que não identifico?

O que os torna estranhos, étnicos, religiosos? 

assustados? Acossados? 

 

O comportamento é de peixe fora do aquário 

Desorientados são a violência e a negação 

O escremento e a poluição.

 

Quem inverteu a metáfora de Kafka.

 

 



carlos arinto maremoto às 10:27
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Domingo, 7 de Junho de 2020
Datado

Escrevo a importância do hoje

Amanhã, já nada tem significado. 

Escrevo que a eternidade é um embuste

E o ontem um segredo

Nada foi, como nos contaram. 

As palavras crescem como figos 

E em cada ciclo se repetem,

diferentes ou iguais, como mel.

 

Escrevo o que passa e na crónica

No relato e na balbúrdia do que assisto

Retenho fragmentos do possivel

Talvez nadas. 

 

Todo o passado é uma data.

O presente uma festa

Por vezes, adiada, 

Uma efeméride que não houve

Uma paz feita de guerras. 

 

Descansa que o amanhã,

Que sempre acaba por chegar

Terá data emprestada e romãs para colher.

(mesmo que estiques o braço,

Entre o ontem e o amanhã 

Ninguém chegará lá primeiro)

Deixa a vida ser. Devagar. 



carlos arinto maremoto às 06:02
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Sábado, 6 de Junho de 2020
We want you

Faça favor de preencher

Está tudo aí anotado

O obrigatorio e o facultado. 

O formulário é de prescrição

Simples.

Sem cópias. 

É receituário para ser aviado

Candidatura

A ser considerada sem omissões

Tudo será verificado

Anotado e constará

do relatório final.

Basta carregar na tecla enviar

E será recepcionado. 

 

Da decisão do juri

Não haverá apelação.

 

O formulário é uma simples instrução

Um mapa orientador do tesouro

(pelo mistério que encerra)

E da inquisição (pelas consequências

que origina) Um jogo, um destino

Uma cartografia de desejos

(os técnicos psicólogos vêm tudo

mesmo no escuro) ninguém se engana.

 

juntar um código QR e uma foto actual

O seu digital interessa.

 

Queremos-te!



carlos arinto maremoto às 14:52
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Sons do silêncio

E de repente... 

Todos quiseram vir reivindicar o seu bocado de carne

De sangue, de vísceras e de glória. 

Foi um dia triste. 

Há dias assim. Nem todos os dias

                                                    são de galhofa e de riso

Só os tolinhos vivem no embalo das sereias

Com que adormecem a sonhar. 

E de repente....

Os abutres, as hienas, todos os necrófitos

Se entusiasmaram. Era chegada a sua vez.

Nada a opôr. 

Temos de ser uns para os outros. 

Tirei o veneno do saco e da mochila

E deixei que comessem à vontade.

Quem era eu para lhes interromper o mastiganço?

E bem manducavam... sôfregos, azedos, aflitos

Foi um prazer ter-vos conhecido!

Era já verão e os campos estavam mais limpos

Até as varejeiras se afastavam da peçonha 

-vamos para eleições! Disseste.

Vai tu, respondi! 

Oferecendo a cara e o outro lado da moeda.

E foi assim, quando tudo corria tão bem

Quando estávamos prestes a chegar

Ao outro lado do mundo ao outro lado do mar

Que tudo acabou. Ficamos assim:conclui! 

 

E nunca mais ouvi falar de ti. 



carlos arinto maremoto às 09:53
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2020
O ciclo, no circo, em circulo

Amarrado com cordas

Despenteado

Caindo em qualquer lado

Peregrino alucinado

Procurando a noite 

De todos os sossegos. 

 

A febre não me deixa respirar

Tenho a garganta, 

Os pulmões e os ouvidos

Esmagados. 

Os olhos desapareceram

O nariz é puro sangue

E a boca assemelha-se

A um intestino. 

 

Estou derrotado.

 

Neste barro amassado

Onde já nada se destingue

Vejo as mãos como fios, 

Cordames de aranhas em teia

E nos pés uma raiz que se afunda.

 

Já não sou o que era

Desfaço-me em cada bofetada

Do mar,

           no chicotada que o vento trás 

E o sol abre em ferida que crosta.

Já não sou. 

A tortura é minha. 

 

Consigo escapar das cordas

fugo derretendo-me

E no rasto das feridas

Escrevo "piedade"...

Ninguém me ouve, nem quer saber. 

Então, caído, em lágrimas 

Subo às nuvens e desabo em tempestade. 

 

Estou vingado. 



carlos arinto maremoto às 07:28
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2020
jardins fechados

O jardim está um matagal. 

Porque não foi cuidado

Secou. Ficou sem flores,

Sem relva, sem beleza

Porque tudo cresceu disforme

Em erupção, selvagem

Como uma explosao de cores

Que morrem no esforço 

De se erguerem.

Os ramos, as hastes, os rebentos

Cruzam-se e amaranham-se

Sobem apressadas 

Magras, raquiticas, desengonçadas.

 

O jardim até podia estar bonito,

Mas não está: sujo, porco de lixo

Urbano.... atulhado.

Sim, o jardim está fechado.

 

O éden, acabou! 



carlos arinto maremoto às 07:39
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Layoff

Sou vicário de mim.

Sou alcateia

E jardim. 

 

E no tempo que lá vem

Serei o céu estrelado

O luar engomado

E a terra sem fim. 

Mar de fantasia

Estrumado, adubado, 

Pronto a deixar-se semear

Colher, pescar, 

E no início, como sempre, 

Regressar, continuar. 

 

Aqui começa o vento

Sou vicário de mim. 



carlos arinto maremoto às 00:42
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Quarta-feira, 3 de Junho de 2020
Eu tenho uma galinha

Eu tenho uma galinha

Uma galinha eu tenho

Não há galinha como a minha

Nem canja mais saborosa. 

 

Eu tenho uma galinha. 

 



carlos arinto maremoto às 15:56
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