Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 30 de Janeiro de 2018
UM NOVO AEROPORTO PARA LISBOA, RESOLVIA A SITUAÇÃO

 

 (escrito para comemorar o dia dos namorados. 2017)

 

O mundo estava para acabar, mas não acabou.

De vez em quando surgiam profecias. Algumas,  nem davam para salvar as nossas almas em piedosas contrições.

Por isso quando novo anúncio foi feito, ninguém o levou a sério.

Mas, desta vez era “pessoal e intransmissível”, descobriu-se depois!

Ana Luísa Ganhão sempre tivera uma paixoneta por Cardoso e Cunha.

Nunca nada se concretizou, entre os dois, para além de uma amizade fugaz e de uma troca de mensagens com algumas segundas intenções obscuras. Por isso cada um era o amor da sua vida para o outro e vice-versa.

Quando esteve em Macau, Cardoso e Cunha convidou Ana Luisa Ganhão a ir conhecer o oriente, mas nunca chegou a haver oportunidade.

Também Ana Luísa, que costumava passar o verão no Algarve, com o marido e os filhos, quando estes eram pequenos, sugeria que Cardoso e Cunha a visitasse para disfrutar do mar magnífico e do “calor das águas” que naquela região se fazem sentir.

Era, portanto, um amor desencontrado. Como tantos, como às vezes acontece.

Estando o voo para Munique atrasado, Cardoso e Cunha julgou ver a silhueta familiar de Ana Luísa no aeroporto.

A chamada para o embarque estava a ser feito e já não pode estabelecer diálogo ou contacto visual com a amiga, embora ainda tivesse acenado ao longe, com o bilhete na mão, mas sem resultado. Ana Luísa não viu.

Se tivesse visto não teria embarcado. Cardoso e Cunha nunca se perdoou por não ter sido mais afirmativo, mais determinado, mais apaixonado: o avião onde Ana Luísa viajava caiu duas horas depois e não houve sobreviventes. O oceano não tem sentimentos.

Pensou que a vida era injusta. Ele é que merecia morrer, pela falta de ousadia, de atrevimento…de coragem.

Comprou uma flor, que colocou na lapela – hábito que não tinha, nem nunca havia feito – e passeou junto ao mar, pelas arribas de um sítio a que chamam “boca”.

Uma onda, engalanada com espuma e rendas sopradas pelo vento, recolheu-o, com a suavidade possível, para que não se magoasse.

Deixou-o junto a Ana Luísa, no fundo do mar, depois de algumas voltas e rodeios, em correria louca, porque a urgência era muita.

Descansam como qualquer par de enamorados, em convento de pedra erigido pelos fazedores de passados.

A felicidade, ás vezes, pode ser eterna.



carlos arinto maremoto às 16:43
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Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2018
Luar de cetim

Os Corpos dos amantes são os corpos dos amantes. Existem, colam-se, fundem-se e entrelaçam-se como se tudo em redor deixasse de existir.

Fica o novo, a essência e a fertilidade.

Tal como as vinhas lançam gomos, cachos, sumos e os esporões, em haste, se multiplicam, logo as varas se alcandoram, se incendeiam e erguem em rios de tormentosa corrente, aluvião ou marmoto de enxurrada.

Os amantes esmagam-se, na vertigem do desejo e da  loucura, que é só deles,  na alucinação que o momento  prolonga.

Arte e tropia que faz mundos e néctar, criação, risonhos traços de volúpia e aquele sentido de – homens e mulheres - se poderem maravilhar, com o infinito e a intensidade.

Com eles próprios!

Onde as crianças possuem a fragilidade dos velhos e estes a doçura dos perfumados nascidos.

Lá, onde a cova do animal se acoita e a gruta das noites se guardam no ninho abrigado - fragância de aromas - teia, colmeia e lar.

Em fera, em animal, em segredo.

Não existem palavras no acto do amor.

Apenas os sons da criatividade urgente, da satisfação.

Um urro, um ronco, uma violência arrancada ao fundo dos oceanos e ao escalavrar da sementeira.

Uma missa, uma consagração ritual. Um carinho!

O que torna o mosto palavra é a mastigação. A igualdade. A violência da importância, que o silêncio nega, sublinhando.

Fecham-se os corpos em labirintos. Em estrela. Em águas suadas ou ventos caprichosos.

Abrem-se os sismos do infinito. Bebem-se os cálices de todos os sentimentos, pela atração do belo e na voragem da fusão.

Os amantes são uma taça de vinho que se faz verbo.

A terra mistura-se com as cepas, os verdes, a chuva, mas sobretudo o sol. A terra e a luz que o homem ama e trabalha: em seara, em vinho, em rebanho e alma sem outra religião que a sua.

Nas fronteiras que também são peixe e sal. Azeite e fruto!

Além e aquém,Tejo!

 



carlos arinto maremoto às 19:38
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Terça-feira, 23 de Janeiro de 2018
sem compaixão

Procuro no efémero a vulgaridade.

Nada mais do que a vulgaridade.

 

Porque haveria de querer vida de santo

Ou mordomias de síndroma de poder

Se tenho todas as coisas que do mundo

São minhas e me fazem crescer

Desde sempre, ontem, hoje e até morrer

 

Procuro no efémero o transitório

Agarro a luz e fico nevoeiro, orvalho

E num fresco rodopio de vento

Olha as estrelas que do firmamento

Me dizem que tudo é universo.

 

Sou tornado, vitral e sentimento

 

Nada mais do que os momentos

Um somatório de girandolas numa iris

Fazem a felicidade de ter flores

Numa janela e um sorriso no rosto

Sempre que me lembro dos amores

Que tive, que tenho e com que sonho

 

A cidade é um vulcão

Não quero nada com ela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



carlos arinto maremoto às 09:55
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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018
luzidio obscuro e sagaz

linhares.17.JPG

 Vem do alto das montanhas e enche de sorrisos o rosto das crianças

Tudo à volta é selvagem e desconhecido, pleno de luz e corpo novo

São as trovoadas do inverno a substituirem-se ás gentes que houve

Nas ribeiras que agora crescem sozinhas e desaguam em futuros novos

 

O frio, e a geada são companhia. de manhã em espesso nevoeiro.

À tarde em dourados bailes nas folhas verdes do etéreo calendário

 

Onde estão as gentes da beira-serra? Onde desapareceu o moinho,

O lagar, a azenha, as pedras de xisto empilhadas com o saber antigo?

Onde estão os avós e os que antes desses foram nossos pais?

Apenas ficou a natureza e a sua generosa brutalidade despida.

 

Um sol clarissimo embala toda a serra que cria a ribeira e os poços

Onde os chãos fermentam vida e apaziguam lumes ancestrais

Não se ouvem outros cantares que o silencio que a água cria

 

E a alma de quem se atreve fica mais velha, mais triste, mais só.

Perdida nos gostos de outrora, como se o mundo fosse hoje

O absoluto, obscuro, e estupido abandono de todo o  sagrado.

 

E tudo descansa na tranquilidade da paz que é nada! 

(beleza, dirão, pois que seja, mas que os meus olhos a vejam)

E o mundo segue perfeito, mais uma vez, no rosto de uma criança

Bamboleante no rastilho de uma estrela magica adormecida.

 

 



carlos arinto maremoto às 18:32
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Sábado, 13 de Janeiro de 2018
Peregrinação

Os percursos são caminhos que nos unem

Vias e estradas que nos conduzem, faróis que nos orientam

Os percursos levam-nos. Arrastam-nos. Trazem-nos de volta

 

Entre o percurso e o caminho está o pisar do chão

A pedra, o cascalho, a lama e os sonhos

 

O mundo pode ser um casino, uma lotaria ou coisa nenhuma

Somos nós que somos o mundo.

 

Os percursos são caminhos que nos separam

Sulcos que deixam marcas, luzes que nos cegam e inebriam

Vozes, doenças, amores, ilusões… risos e choros.

 

Uma abelha fecunda a sombra de onde nascem os sorrisos

E depois chapinhamos na militância da velocidade

Desaparecendo no vórtice da voragem e no eclipse dos rostos

 

Todos os rostos são meus. Eu sou a saudade!



carlos arinto maremoto às 19:06
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Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018
Novo ano, ano novo

Um certo amanhecer cheio de luz,

Água, vento, réstias de ontem pelo chão.

 

Barcos e aviões na chegada

Festas e familia na consoada do encontro.

Um dia colorido, um erguer de janeiro

Sinto-me outro, sendo o mesmo

Juro que sou igual, mas envelheci.

 

Um certo amanhecer que me embala

Uma lágrima que também é sorriso

 

Penso que o tempo é ilusão, mas sinto

A dor que se instala nos ossos

(quem não quer ser jovem outra vez?)

A memória, a recordação, o arrependimento

De qualquer coisa que não fiz

Abana-me o corpo e o juizo

Chama-me á razão, grita-me aos ouvidos

Devolve-me o chão, o céu e os sentidos

E anuncia que a vida continua.

E nisto...neste desvario embriegado,

Um certo amanhecer me diz:

- Tens razão!

A vida é um tufão.

 

Olho o teu retrato e sou feliz.



carlos arinto maremoto às 18:22
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