Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 14 de Janeiro de 2020
Um pensamento de chuva

Começou a chover

E não sentia que me molhava

Mas, por instinto

Corri para um abrigo

E a fim de me acautelar

(diria o meu pai

A quem devo todo

O juízo) 

Ali, 

Te fui encontrar. 

Esperavas por mim

E eu não sabia

Era a chuva que chovia

Nas tuas mãos, 

No teu rosto

Numa chuva, inesperada

Num tórrido mês de Agosto. 

 

Foi a chuva que nos juntou

E sempre que chove

Lembro esse momento infinito

Que me trás saudade. 

E, sendo já antigo o instante, 

Penso em ti

Como se de repente 

Me abrisse os braços e dissesses

Que bom estares aqui. 

 

Chove o teu olhar

Nos teus olhos de mosto. 

Chove o meu vaguear

Pelo teu corpo de lampreia

Lebre, puma, alcateia

Que a chuva tambem

Incendeia. 

 

Chove o meu pensamento

 

 



carlos arinto maremoto às 21:16
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Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2020
Algar profundo

Meu amor

Enxombrado

Por tanto te querer

Por tanto te desejar

Sou cumplice

De mil vontades

Em dias presentes

Em tempos passados. 

 

(sempre, todas as vezes

Que o mundo se faz

Que avança 

Que volta atrás) 

 

Possui-me nas velas

Do teu abraço

Leva-me a voar

Na chávega 

Que me faz prisioneiro

Planar e morrer nesse olhar

Feiticeiro, 

Nesse encantamento

Que emaranhado

Num mar de sargaços

De onde não é possível fugir

Me extasia. 

 

Como um rio, 

Ou o algar do vento

Que não se deixa

Agrilhoar

Afago sorrisos

No sal que perpetua

A sentença 

De que o mundo

Nos é indiferente, 

E nele somos excepção.

Únicos. 

Verdadeiros! 

( herdeiros que de longe chegam 

Que para longe vão

- que excepções e regras

Sempre houve) 

 

Sou teu

Sem dono, 

Sem tempo, 

Sem razão. 



carlos arinto maremoto às 11:15
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Pangeia

A noite

Era, toda ela, de lua cheia.

Um lobo, dos muitos que então existiam, 

Uivava. 

Toda a terra unida não era ainda nada, 

Embora já fosse tudo o que depois

Viria a ser, separados os continentes

No puzzle que rasga as famílias zangadas. 

Todos os sinais repousam, 

Ou nem existem. O mar é uma tormenta

E toda a vida, do seu interior, se agarra

Aos cumes mais altos das montanhas. 

Ter a ousadia do pensamento

É um absurdo.as florestas são lilases. 

Os gelos existem, mas todo o ar é quente. 

À noite, a lua, é toda ela cheia. 

 

Não tinha sido inventada a matematica

Nem as outras ciências do domínio das artes

Ou da construção do Homem. 

Eram apenas noites de lua cheia. 

 

A chuva, que havia com abundância

Era apenas água que escorria do ar

E a vida não sofria de desgostos. 

 

Tudo era fermento, colmeia, ninho

Abundância. E o mar

- toda a água e as suas conchas - 

Eram felizes. 

 

Hoje eu quero ser pangeia. 

Sem dor sem sofrimentos

À espera da lua cheia. 

 



carlos arinto maremoto às 06:56
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Domingo, 12 de Janeiro de 2020
O homem torturado

Pleno de farpas

Porque foi aplainado. 

Com tatuagens no peito, 

No pescoço e nos braços 

Segue caminhos de sedução 

Pelo canto do olho espreita

(Desconfiado de inimigos) 

Segue por trilhos apertados

Descalço ou calçado

(por vezes com as mãos no chão 

Por causa de uma luta

De uma conquista, de uma afirmação) 

Sem fé , sem votos ou credos, 

Conforme a vida lhe calha, 

No acaso de uma plangência

Umas vezes sim,

                   muitas vezes não! 

 

Fez como quis

O que escolheu

Nas opções que tomou, 

Sem arrependimento

Ou contrição, 

No galope da sorte

Numa sempre investida, 

Num revoar de ferimento

Colapsou

Um dia

Em que se sentiu cansado

E não voltou. 

 



carlos arinto maremoto às 17:32
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Sábado, 11 de Janeiro de 2020
Os velhos

Ainda o dia não começou e já há velhos no café. 

Dormiram mal, têm canseiras e outras aflições. 

Têm filhos, não sabem aonde e uma mulher que morreu

Uma mulher que se separou.

Ainda o dia não começou.

 

Os velhos ficam colados à porta do estabelecimento

Sem saberem para onde ir. 

Esperam que os venham buscar

Tem medo de sorrir.

Pagam-lhes para serem velhos.

Têm vontade de fugir.

 

Os velhos

Não estão a ficar novos

Não! 

 



carlos arinto maremoto às 07:51
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Sexta-feira, 10 de Janeiro de 2020
O amor por inteiro

O amor existe numas águas-furtadas

Na cave de um condominio

Num comboio que ruma a braganca

E por maioria de razões num elevador

Numa prancha de surf, 

Numa corda de alpinista 

E também  na casa da dona Amélia

Que é minha vizinha.

O amor existe para o senhor António 

E esposa, para a senhora Lucinda. 

E até a menina de saia travada

E seios enfunados sabe que o amor

Ao sábado é autorizado. 

O amor existe na paz do senhor

E no aconchego de uma mãe, 

Onde sempre esteve, onde sempre existiu. 

Na ternura de uma idade avancada

Na criança que tropeca

Nas mãos que seguram, nuns bracos

Que abraçam. 

Num beijo de bocas urgentes, 

Em línguas dementes. 

 

O amor existe 

Por inteiro

(com inverno, verão e o verde e castanho

De todas as estações, com montanhas e abismos

Como em toda a natureza, com fome, frio, calor

E saciedade, com nevoeiros e tempestades, mas

Sempre manso ou selvagem conforme as idades

No silêncio gritado de ser sentido de ser amado)

 

O amor existe! 

 



carlos arinto maremoto às 21:59
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Paradoxo sentimental

Cansado de andar sempre a dizer o mesmo.

Cansado da morte e às vezes também da vida. 

Cansado de estar cansado. 

Fica descansado que não te vou incomodar.

Porque não há incómodo que o possa pagar. 

 



carlos arinto maremoto às 08:32
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Ten years after

Acenas-me com a gelosia

Das pontas do teu cachecol. 

Sorris, sopras-me um beijo

Devolvo-te o mesmo em desejo

E na madrugada que em amarelos

Nasce a oriente levanto a mão

Para um adeus. 

 

Sou estilhaço, 

Fragmento, 

Espuma

E nada faço. 

Erguendo-me no sol

Das recordações 

No areal dos sentidos

No coar das lembranças 

É no fumo dos dias

Que me desfaço! 

 

 



carlos arinto maremoto às 08:13
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Quinta-feira, 9 de Janeiro de 2020
O mês da lampreia

Por onde navegam os meus amigos? 

Em terras do oriente

Na América do sul

Em tudo o que é diferente.

Escrevem-me cartas, poemas, 

Desenhos rabiscados, 

Fotografias e filmes enviados

De onde andam às avessas 

Porque o mundo está aqui. 

Regressem consolados que vos quero

Junto a mim. 

 

 

 



carlos arinto maremoto às 13:03
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Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2020
As nuvens negras

Nuvens pretas

Ao fundo da minha rua

Vão passando no restolho

De uma tarde

Que ainda tem luz. 

Tudo o resto são luzes da cidade

E os passeios e os jardins

Onde as crianças ainda brincam

Depois da saída das escolas

Enchem-se de cores, sons, flautas

Risos e choros

Que a vida tem tudo embrulhado. 

As nuvens pretas

Lá vão fazendo caminho

Para o cume de um bairro

De casas azuis

Semeadas como uma réplica 

De uma colmeia inigmatica 

Íntima, entrelaçada entre muitos telhados

abrigada do negro

Com janelas viradas para nascente

Que logo, mais tarde, há-de chegar.

 

Agora, 

O sol já se pôs, 

E tudo ficou igual. 

 



carlos arinto maremoto às 17:42
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Terça-feira, 7 de Janeiro de 2020
Sincelo

Os meus olhos foram sincelo

Ao admirar os teus.

Não sabia que o frio

Pudesse ser tão belo

Aos meus olhos junto dos teus

 

 



carlos arinto maremoto às 16:51
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Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2020
Original

Porque aqui recomeça

O que não acabou

E se vai continuar o que

Dura e permanece

Na memória, na poeira do passado, 

No inventar de despojos, 

Lixo, sedimentos, coisas e plumas

Que sempre vamos sacudindo

No vento do tempo que sopra

E nós sacode e fortalece. 

Nos passos bamboleados

Lembrados em foto, em filme

Em delírio sonhado

(um neto, um amor, uma viagem,

Uma aflição, um êxito conquistado, 

Uma desilusão)

Para hoje estar no inicio

De mais qualquer coisa

Que pode ser um não sei quê 

De nada ou uma enxurrada

De tudo. 

 

Original

Porque se cria o que não existia. 

Sendo novo

Passa a ser cura, remédio, 

Frio de inverno

Que renova

E na essência está pronto a florir. 

 

Original

Porque primeiro

Original

Porque inteiro. 

 



carlos arinto maremoto às 10:30
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