Dizem que são a mesma coisa.
Isso de achar que tudo é reciclável
E que torna a nascer
E que o imutável tem muitas caras
Etecetera e tal...
É pura fantasia.
A amizade é uma relação sem retorno.
Quando termina.... Acaba!
Já o amor... Tem dias!
Acordo a sentir-me mal.
Sinto ondas no peito
Borbulhas no nariz e não respiro
Com a garganta cavernosa
Tenho ganas e ânsias
Estou para morrer, eu sei.
Mas agora não me apetece!
Vou adiar, fica para logo.
Mais logo
Quando a lua me bater no rosto
E pensar que morri
Da febre, da sutura,
da turbulência do delirio,
E do fundo (com areias que
Me puxam movendo-se,
Para baixo, sempre para o fundo)
Sofucado, assustado,
Deitado.
Morri! Já não há nada a fazer.
Adeus para sempre!
Amanhã cá nos encontramos
No mesmo sitio
À mesma hora.
Talvez possamos festejar.
E foi assim.
Tanta publicidade, para isto! Para tudo e para nada,
Para o dia que vem, para o dia que talvez tenha sido
Que há-de chegar ou ser apenas ilusão que possa acontecer.
Para o consumidor que há-de ser - um dia - quando puder
Depois de ter vencido.
(coro grego a gritar, oh! My God!)
Tanta publicidade para coisa nenhuma.
A morte chega devagar à procura de quem não comprou
E fatal, é o destino.
Certeiros sorteios são estilhaços de paraísos
Vestidos de promessas e de faustosas orgias
De abundância e de garantia de mais e melhores
Volúpias. Mais e melhores dias.
(coro americano e festivaleiro: oh! My God!)
Os refugiados estão aqui.
O mundo implodiu e ninguém notou
Se a publicidade diz que não, é porque é verdade
Aqui só existe o belo, o bom, o bonito e o barato.
A publicidade só tem um rosto
Por baixo das escamas está um peixe.
Um concurso é um concurso
Até eu sei.
Alguém é distinguido,
Outros preteridos,
Todos qualificados,
Excluídos os que se ausentaram,
Eleito o melhor
Vai o carteiro dar a noticia
Que hoje é só carregar num botão.
Ganhou! Ganhou!
Que emoção!
E assim a poesia
Deixou de ser inédita
E passou a andar
De mão em mão.
Era bom que assim fosse, não era?
Pois sim, pois não!
É tarde. É sempre tarde para fazer o que não queremos.
E eu quero fazer, nada!
Esta tarde vou esperar que a tarde morra, para morrer com ela
Sem fazer nada!
Ficando, apenas, espreguiçando-me como gato à janela.
A mulher de plástico
Veste-se bem
Tem unhas coloridas
Corpo de arlecrim
Cara redonda
Lábios carmesim.
Rugas em toda a volta
É dura no olhar
E pulso de chicote.
A mulher de plastico
Aparenta ser de celofame
Mas é ilusao.
O cabelo uma armadilha
O pescoço gargalo
E o nariz ponteiro
Como quilha de petroleiro.
A mulher de plastico
Está aí. Não se desfaz,
Não vai embora.
Fogo, disse o capão,
Quando veio à rua passear o cão.
Derreteu-se a bit coin,
Sumiu-se, desapareceu,
ficou resina no chão.
O unicórnio duplicado
extingue-se
Na chama que dança
Qual bruxa
Que engravida
Do demônio.
Era robótica a erótica
Mulher bailarina
Com comando à distância
Como Salomé
A mulher de plastico
E plasticina
Apodrece, mas permanece.
Vai chover no fim de semana.
Que bom. Venha ela! A chuva.
Que o dilúvio extermine todas as coisas más.
Nas escadas do meu predio
Cheias de musgo
Nascem raminhos de salsa
E suculentas rasteiras.
São espontâneas as flores
Que decoram o caminho
Em socalcos
Que nos conduzem a nós.
Gosto da chuva onde afogo
Os sonhos maus.
Gosto da chuva que alimenta
A minha raiz.
Gosto de mim.
Não gosto de Poesia.
Tem qualquer coisa, assim...
Estão a ver!
Qualquer coisa mais adiante
Que me escapa,
Que não entendo,
Que me confunde
E baralha.
A poesia
É pragmática mas disfuncional
Faz pouco barulho
Está na rua, e no carnaval.
É uma coisa de sagrado
Pecado,
Uma peste, um vírus,
Uma praga.
A poesia tem cuidados
Que um paliativo precisa
Mas, deve ser tomada com precaução
porque
Também tem efeitos secundários.
(como qualquer remédio ou medicamento)
Aliás a dosagem,
Sugere-se que seja feita a conta gotas.
Para não cansar, para permitir a osmose.
Tenham cuidado
Ao lidar com os poetas
Eles são iguais a toda a gente.
Fujo de sítios onde nunca fui.
Fujo de lá e espanto-me por não saber
Como aqui cheguei e o que faço aqui.
Poderia e deveria não fugir,
Mas, é a minha sina, disse-me uma cigana.
Então, que assim seja
Que eu em sinas não acredito
E para fugir, não é preciso muito
Basta não ficar.
Há pessoas que gostam de ler
Sentem-se bem a ler
Pessoas que gostam das palavras
Dos seus sons, das suas formas
Da sua fragrância
E que desenham e imaginam
Mundos, amores, aventuras,
Risos e dores, nascimentos,
Enigmas, paixões,
Momentos de felicidade
E de recolhimento, reflexão,
Pensamento.
Tudo o que existe em todos os universos
Galáxias, nubelosas, sistemas,
Aquém e para além deles.
Tudo o que existiu, foi criado e será mito
Realidade, sonho ou possibilidade apenas.
Há pessoas que gostam de ler
Para aprender, para educar
Para voar na volúpia da imaginação
Que a leitura fermenta.
Há pessoas que gostam de ouvir
De escutar e de saborear
O que as palavras, as frases,
Os incontáveis sinais ortográficos
Dizem! Ou escondem!
Cavalgam, arreião e devolvem.
Há espaços para respirar
Virar de páginas para suster a respiração
Avanços e recuos na forma, na dança
No emaranhado de tudo
Que nada é pouco.
A minha mãe, tinha orgulho em saber ler.
Juntando as letras
A pouco e pouco
Como um crochet.
O seu pouco era tudo.
O meu tudo é nada.
Vale a pena começar
Numa madrugada enxuta
Mesmo que enevoada
E salpicada de cores
Em amarelos florescentes
Azuis, vermelhos, rosa,
Em cintilantes repentes
Que quando nos apercebemos
Já é pleno dia e madura a manhã.
Vale a pena continuar.
Insistir. Prolongar.
Vale a pena registar o universo
E deixarmo-nos levar por ele
Até ao outro alvorecer que acorda
Todas as manhãs, no dia seguinte
E a seguir, e a seguir, e a seguir
Sem se cansar, entorpecer ou acabar
Continua, sempre! E sempre!
Vale a pena respirar o ar lavado
A luz atirada sobre as nossas cabeças,
Corpos e pensamentos.
Vale a pena sermos lavados
Envolvidos e protegidos
Pelo luar que depois da luz
Se faz manto, capuz e auréola
Estátua erguida, em louvor
De petreficados deuses
Que ganham vida.
Presságio?
Capicua?
Está um bonito dia de sol.
Harmonioso.
Confortável em temperatura.
Risonho nas nuvens
Que andam lá pelo céu.
Tudo está molhado
Porque ontem choveu.
As crianças Batem com os pés
Nas poças de água
Que encontram pelo caminho.
Outras, jogam com uma bola.
Amo Fevereiro com os seus cheiros
A liberdade,
a paisagens doces
A mulheres sentadas nas esplanadas
Da minha cidade.
Até para o ano
Em 12.12.21
Mas já não é a mesma coisa.
Falta-lhe capicua.
Falta presságio.
Falta elegância na raiz quadrada
De uma tarde de sol
Junto ao Tejo,
De uma orvalhada nos campos
Tolhidos pelo frio do inverno
Que ainda avança e cá está.
Por essa luz intensa que transforma a vida
Em magia, em delírio, em êxtase
Como um carnaval suave
Por essas mulheres escondidas
Por detrás de óculos escuros
Que mostram seios
como ovos de chocolate
Pernas como avestruzes
Rostos de santeiros e bocas de pecado
Dedos esguios em serpentinas
tâmaras em vez de unhas
segurando elipticas
Chávenas de café.
Consagro a minha razão de vida.
Será pressagio
O sumo do diospiro
O escorrer do limão
O caudal libertador
(Depois do degelo)
Da efluvia manga espremida
E do sugado ananás
Que serpenteia pelos teu corpo
Em mel e fermento.
O dia enfeita-se
Escorre silencioso
E se transforma
Em único.
Importa repetir
02.02.2021
Disse um chiste
Pensaram que era chispe
E comeram-no!
Atiraram-se aos ossos,
Raparam toda a cartilagem
Lamberam os tendões
E sem sorrir
Babados com a gordura
Que lhes escorria
Do queixo, queixaram-se
Da falta de sal
E do conduto para acompanhamento
Que não existia.
Com gente assim, não há chiste
Que resista, nem chispe
Que sobre. Vai tudo por conta
Do caixão, vasculhar as coronárias
Razões das sargetas entupidas.
(estupidas sargetas)
No alçapão da gargalhada
Fica o chispe sem mão
Faz o chiste contra-ordenação
E foram muito felizes.
*Nota: o porco só tem pé, a vaca só tem mão, e o bife que é de vaca em Lisboa é de boi no Porto. Coisa assim, nunca vista, é lição!
Ensaio geral.
Simulação.
Experimentar o diferente.
Criar conforto
Emoção.
Voar numa estrela
Perceber o risco
Determinar a ousadia
Andar na corda
Do funambulismo
Ter medo, gritar
Ficar calado, rezar.
Olhar o silêncio
Comunicar.
Estou a fazer um casting de vida.
Os meus links