Cheira a bolos acabados de fazer
É fim de tarde e todos estão no terraço.
Há um sol amarelado e do outro lado
A sombra preparar-se para saltar
Vestindo-nos como se vestem as luvas.
Um gato esperguiça-se,
Estica a cauda e as patas e boceja.
O cheiro a bolos - acabados de fazer-
Abraça-nos e desperta-nos desejos
Prazeres de manducar.
Uma garrafa de vinho, fresco, roda
Vertendo-se para os copos de mão em mão
E uma dormência suave fala de todas as coisas
Que os convivas, de pé, sentados e por ali,
No terraço daquela casa isolada,
Sabem apreciar, erguendo as narinas
Aspirando um perfume de bolos no ar
Ninguém se mexe ou fala,
Seria tudo estragar.
Bebamos à saúde, à paz, ao amor,
A certeza - quem pode ter certezas? -
De que o amanhã chega
E o bolo, acabado de fazer, provo.
Mastigo a óstia, o pão e a razão
De ser o vale e a planície que me rodeia
A força e a coragem que incendeia
Tudo em redor, tudo cá dentro.
Ficamos erguidos, estátuas ao vento
E todas as estrelas, lá no firmamento.
Que povo é este que anda de chinelos
Com cartazes na mão à procura de ser visto
Na rua, na manifestação?
Em rebanhos, em viagens de manada
Em gritos de claques em vómitos
em desperdício e lixo bolsado no chão.
Que povo é este, que não identifico?
O que os torna estranhos, étnicos, religiosos?
assustados? Acossados?
O comportamento é de peixe fora do aquário
Desorientados são a violência e a negação
O escremento e a poluição.
Quem inverteu a metáfora de Kafka.
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