Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Quinta-feira, 11 de Junho de 2020
Feriado

É sempre assim, 

Aos feriados amanhece como nos outros dias

Não se nota diferença, a luz corre devagar, 

As persianas da vida levantam-se ensonadas

Pequenos sons, quase nadas, escutam-se ao longe

Folhas secas batem na vidraça empurradas por um vento

Que faz levantar poeira e convida a ficar na cama

Na perguiça de saber que hoje é feriado

Tudo está fechado, não vou trabalhar e posso descansar. 

Comemora-se, sei lá o quê. Algo importante..

Um santo, uma ocasião que todos já esqueceram

Uma batalha, uma revolução... 

Hoje é feriado e mesmo com o tempo do avesso

Muitos irão à praia, visitar amigos, correr nos jardins

Alguns, farão a vida normal, sempre igual, outros... 

(trocam o dia por outro dia, o natal pelo carnaval,

Os Santos populares pela peregrinação na festa da aldeia) 

O feriado é um dia igual e neste contentamento

Fecho os olhos e festejo. 

 

 



carlos arinto maremoto às 06:56
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Quarta-feira, 10 de Junho de 2020
Retratos a sépia

Escolho retratos

Para um álbum que hei-de construir do nada

Um dia, quando o tempo sobrar

E não souber o que hei-de fazer.

(com as mãos, com o corpo e com a cabeça) 

Escolho fotografias 

Poses antigas, avôs, avós, sobrinhos

Gente que nem sei identificar 

E voltando as costas à moldura

Procuro escritos que digam o que foram

Alguma data, uma dedicatória, uma assinatura

Uma pista que me leve até aos meus antepassados. 

Sem querer, num acaso, encontro uma fotografia de nós, 

Esquecida no meio da papelada. 

(como estamos bem, jovens, bonitos, contentes) 

Procuro momentos, aconchegos, olhares

Coisas simples, grandes nadas 

Fotografias antigas em papel, em negativo

Embalsamadas, escondidas... muitas perdidas

Fotografias que esperam para serem lembrança 

Mesmo que já não tenhamos memória 

Mas sobreviva uma esperança de ser comparação,

De uma semelhança que nos desperte e revele

Uma ligação.

Antes de nós, outros existiram

(e foram jovens, bonitos, contentes) 

Que fizeram, por algum sentido desconhecido, 

Ou força que a natureza esconde

Com que, agora, estejamos aqui, a folhear retratos

A juntar pedaços, a admirar rostos, poses, brincadeiras

Olhares, maroteiras, caras sérias, carrancudas

Rostos mudos  na sépia do papel,

Aqui! onde tudo ficou e continua a estar. 

 

 

 



carlos arinto maremoto às 22:19
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Terça-feira, 9 de Junho de 2020
A sombra

A minha sombra anda a rir-se de mim.

Se dou dois passos ela dá quatro, 

Vai sempre lá à frente

Se dou cinco passos, ela encolhe-se

E com apenas dois fica para, trás. 

 

Também anda ao meu lado, 

Por vezes baixinha, outras esticada

E uma sombra arrepiada 

Não lhe ligo nenhuma. 

Ri-se de mim, faz negaças, simula monstros

E fantasmas nas paredes, bonecos, robertos

E se lhe pergunto para onde vai... Esconde-se

Desaparece!

Fica oculta debaixo dos meus pés. 

E se a noite me surpreende no passeio da caminhada

Não a encontro em lado nenhum... 

Deve ter corrido a esconder-se

A apressada. 

 

 



carlos arinto maremoto às 18:03
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Sos ajuda

Um joelho no chão. 

Outro fletido. 

Ou ambos de rojo

Respeito o sinal

A genuflexão 

O corpo vergado

A saudação 

De joelhos ajoelhado. 

 

É respeito, 

Não submissão,

É homenagem

Não vassalagem. 

Ajoelho para dignificar

Não glorifico

Não acredito

Ajoelho para unir e respeitar

 

De joelhos para erguer

Os que de joelhos

Não podem ficar. 



carlos arinto maremoto às 10:07
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Água gota a gota

A gota ficou parada no final da caleira

Pendurada. 

Agarrou-se com todas as forças ao redondo pvc

Tentou não cair e até soerguer-se, mas foi em vão

O pvc fez-se limbo escorregadio e a gota desabou

Com o seu corpo de água no canteiro em baixo 

Ao fundo, à beira da estrada, lá onde uma rosa nascia

E assim a terra ficou molhada. 

Há três meses que não chovia!

Como surgiu esta gota na caleira da alçada

Qual o milagre que a fez ali plantada

Bamboleando-se até cair?

A noite, a madrugada, a lua, a orvalhada?

E a rosa se abriu e sorriu no canteiro

Abrigado debaixo de uma goteira. 

Basta uma pequena gota de água, uma minúcia 

Uma alasticidade que nos deixa baloiçar e cair

Sempre que nos empurram, para de novo comecar

Basta um pequeno movimento, um roçar 

Para que sejamos úteis e felizes. 



carlos arinto maremoto às 06:25
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Segunda-feira, 8 de Junho de 2020
O querubim encantado

Cheira a bolos acabados de fazer

É fim de tarde e todos estão no terraço. 

Há um sol amarelado e do outro lado 

A sombra preparar-se para saltar

Vestindo-nos como se vestem as luvas.

Um gato esperguiça-se,

Estica a cauda e as patas e boceja. 

O cheiro a bolos - acabados de fazer-

Abraça-nos e desperta-nos desejos

Prazeres de manducar. 

Uma garrafa de vinho, fresco, roda

Vertendo-se para os copos de mão em mão

E uma dormência suave fala de todas as coisas

Que os convivas, de pé, sentados e por ali, 

No terraço daquela casa isolada, 

Sabem apreciar, erguendo as narinas

Aspirando um perfume de bolos no ar

 

Ninguém se mexe ou fala, 

Seria tudo estragar. 

Bebamos à saúde, à paz, ao amor, 

A certeza - quem pode ter certezas? -

De que o amanhã chega

E o bolo, acabado de fazer, provo. 

Mastigo a óstia, o pão e a razão 

De ser o vale e a planície que me rodeia

A força e a coragem que incendeia

Tudo em redor, tudo cá dentro. 

Ficamos erguidos, estátuas ao vento

E todas as estrelas, lá no firmamento. 



carlos arinto maremoto às 19:28
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A metáfora de kafka

Que povo é este que anda de chinelos

Com cartazes na mão à procura de ser visto

Na rua, na manifestação? 

 

Em rebanhos, em viagens de manada

Em gritos de claques em vómitos 

em desperdício e lixo bolsado no chão. 

Que povo é este, que não identifico?

O que os torna estranhos, étnicos, religiosos? 

assustados? Acossados? 

 

O comportamento é de peixe fora do aquário 

Desorientados são a violência e a negação 

O escremento e a poluição.

 

Quem inverteu a metáfora de Kafka.

 

 



carlos arinto maremoto às 10:27
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Domingo, 7 de Junho de 2020
Datado

Escrevo a importância do hoje

Amanhã, já nada tem significado. 

Escrevo que a eternidade é um embuste

E o ontem um segredo

Nada foi, como nos contaram. 

As palavras crescem como figos 

E em cada ciclo se repetem,

diferentes ou iguais, como mel.

 

Escrevo o que passa e na crónica

No relato e na balbúrdia do que assisto

Retenho fragmentos do possivel

Talvez nadas. 

 

Todo o passado é uma data.

O presente uma festa

Por vezes, adiada, 

Uma efeméride que não houve

Uma paz feita de guerras. 

 

Descansa que o amanhã,

Que sempre acaba por chegar

Terá data emprestada e romãs para colher.

(mesmo que estiques o braço,

Entre o ontem e o amanhã 

Ninguém chegará lá primeiro)

Deixa a vida ser. Devagar. 



carlos arinto maremoto às 06:02
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Sábado, 6 de Junho de 2020
We want you

Faça favor de preencher

Está tudo aí anotado

O obrigatorio e o facultado. 

O formulário é de prescrição

Simples.

Sem cópias. 

É receituário para ser aviado

Candidatura

A ser considerada sem omissões

Tudo será verificado

Anotado e constará

do relatório final.

Basta carregar na tecla enviar

E será recepcionado. 

 

Da decisão do juri

Não haverá apelação.

 

O formulário é uma simples instrução

Um mapa orientador do tesouro

(pelo mistério que encerra)

E da inquisição (pelas consequências

que origina) Um jogo, um destino

Uma cartografia de desejos

(os técnicos psicólogos vêm tudo

mesmo no escuro) ninguém se engana.

 

juntar um código QR e uma foto actual

O seu digital interessa.

 

Queremos-te!



carlos arinto maremoto às 14:52
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Sons do silêncio

E de repente... 

Todos quiseram vir reivindicar o seu bocado de carne

De sangue, de vísceras e de glória. 

Foi um dia triste. 

Há dias assim. Nem todos os dias

                                                    são de galhofa e de riso

Só os tolinhos vivem no embalo das sereias

Com que adormecem a sonhar. 

E de repente....

Os abutres, as hienas, todos os necrófitos

Se entusiasmaram. Era chegada a sua vez.

Nada a opôr. 

Temos de ser uns para os outros. 

Tirei o veneno do saco e da mochila

E deixei que comessem à vontade.

Quem era eu para lhes interromper o mastiganço?

E bem manducavam... sôfregos, azedos, aflitos

Foi um prazer ter-vos conhecido!

Era já verão e os campos estavam mais limpos

Até as varejeiras se afastavam da peçonha 

-vamos para eleições! Disseste.

Vai tu, respondi! 

Oferecendo a cara e o outro lado da moeda.

E foi assim, quando tudo corria tão bem

Quando estávamos prestes a chegar

Ao outro lado do mundo ao outro lado do mar

Que tudo acabou. Ficamos assim:conclui! 

 

E nunca mais ouvi falar de ti. 



carlos arinto maremoto às 09:53
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2020
O ciclo, no circo, em circulo

Amarrado com cordas

Despenteado

Caindo em qualquer lado

Peregrino alucinado

Procurando a noite 

De todos os sossegos. 

 

A febre não me deixa respirar

Tenho a garganta, 

Os pulmões e os ouvidos

Esmagados. 

Os olhos desapareceram

O nariz é puro sangue

E a boca assemelha-se

A um intestino. 

 

Estou derrotado.

 

Neste barro amassado

Onde já nada se destingue

Vejo as mãos como fios, 

Cordames de aranhas em teia

E nos pés uma raiz que se afunda.

 

Já não sou o que era

Desfaço-me em cada bofetada

Do mar,

           no chicotada que o vento trás 

E o sol abre em ferida que crosta.

Já não sou. 

A tortura é minha. 

 

Consigo escapar das cordas

fugo derretendo-me

E no rasto das feridas

Escrevo "piedade"...

Ninguém me ouve, nem quer saber. 

Então, caído, em lágrimas 

Subo às nuvens e desabo em tempestade. 

 

Estou vingado. 



carlos arinto maremoto às 07:28
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2020
jardins fechados

O jardim está um matagal. 

Porque não foi cuidado

Secou. Ficou sem flores,

Sem relva, sem beleza

Porque tudo cresceu disforme

Em erupção, selvagem

Como uma explosao de cores

Que morrem no esforço 

De se erguerem.

Os ramos, as hastes, os rebentos

Cruzam-se e amaranham-se

Sobem apressadas 

Magras, raquiticas, desengonçadas.

 

O jardim até podia estar bonito,

Mas não está: sujo, porco de lixo

Urbano.... atulhado.

Sim, o jardim está fechado.

 

O éden, acabou! 



carlos arinto maremoto às 07:39
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Layoff

Sou vicário de mim.

Sou alcateia

E jardim. 

 

E no tempo que lá vem

Serei o céu estrelado

O luar engomado

E a terra sem fim. 

Mar de fantasia

Estrumado, adubado, 

Pronto a deixar-se semear

Colher, pescar, 

E no início, como sempre, 

Regressar, continuar. 

 

Aqui começa o vento

Sou vicário de mim. 



carlos arinto maremoto às 00:42
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Quarta-feira, 3 de Junho de 2020
Eu tenho uma galinha

Eu tenho uma galinha

Uma galinha eu tenho

Não há galinha como a minha

Nem canja mais saborosa. 

 

Eu tenho uma galinha. 

 



carlos arinto maremoto às 15:56
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Terça-feira, 2 de Junho de 2020
Tal, tão, tal e tanto

Tal e tal

E coiso e tal

É como digo

E falo

para não ficar calado. 

Que talo tão bonito

O da couve. Digo. 

Entalo a língua e falo

Escuto sossegado

O tal que tudo diz

Com tal pregão 

E tal vez razão 

Etecetera e tal

Fico tal qual estou

E tal, truz, tal taruz. 

Tau, tau, no tal

Tiro liro ló. 

 



carlos arinto maremoto às 18:30
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Segunda-feira, 1 de Junho de 2020
O cotovelo

O homem tem um cotovelo

Disseste. 

Um? Então não tem dois?

Um em cada braço. 

Ah, pois, estava de perfil

Não reparei. 



carlos arinto maremoto às 21:44
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