Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Quarta-feira, 30 de Setembro de 2020
Tempo ausente

Acordo a pensar que a vida se ausentou

Que saiu para longe e ainda não voltou

Talvez esperando um transporte na madrugada. 

Para regressar a casa e ao convívio 

Dos que ficaram, dos que resistem, 

Dos que envelhecem. 

 

Acordo com a certeza de que sonho

E desfaço a tristeza de um amor ausente

Bebendo a realidade da luz que me abre

Cortinados, persianas e janela. 

 

Não lamento a minha solidão porque sei

Que o mundo é perfeito

E os meus queridos amores estão comigo

Mesmo lá longe onde prenoitam e se escondem. 

 

Os meus amores não morrem, frutificam

São amores para sempre, de longe para sempre. 

 

O que não evita que não tenha saudades. 



carlos arinto maremoto às 07:49
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Terça-feira, 29 de Setembro de 2020
Aproximação a uma definição

Fico à espera e nada. Não dizes nada.

Não deveria esperar e ser eu a amar-te

Porque o amor arde na urgência do encontro

E morre no abandono do desespero. 

Não morre, alimenta-se, dizem-me!

Pois, alimenta-se de ódio de rancor

De frustração, e então, deixa de ser amor 

É putrefacção, doença, loucura de demente

E morre no veneno do seu convencimento. 

 

O amor quer alegria, palavras, beijos, 

Sorrisos, lágrimas, porque não?

O amor quer desejos e conversas

Passeios, viagens, ternuras de aconchego

E sem abstracções,

Tudo o que pudermos acrescentar

Até um simples olhar. Uma espera. 

O amor é... E pode ser belo! 

 

 

 



carlos arinto maremoto às 20:00
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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2020
As estátuas

Estamos sentados numa esplanada. 

Nada nos une a não ser uma mesa e duas cadeiras

Um chapéu de sol, que também pode aparar a chuva

E dois copos com sumo de laranja

Já bebidos, vazios e a chocalhar porque a mesa

Precisa de um calço , numa das pernas para não baloiçar.

 

Estamos sentados a ler um livro, 

A olhar para o telemóvel 

E nesse alheamento passa um avião a ribombar

E ao mesmo tempo, erguemos os olhos para cima

E descobrimos que não nos conhecemos.

Estamos à tanto tempo ali que nos tornámos estranhos 

Somos apenas adereços para turistas verem.

 

O turno termina. Hoje não há mais aviões 

Nem a chegar nem a partir.

Queres que te leve a casa? Pergunto.

Não, obrigado, o meu marido vem-me buscar.

E assim o dia se fecha na paisagem da luz. 



carlos arinto maremoto às 22:10
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Domingo, 27 de Setembro de 2020
O belo e o sublime

Todos os dias nos sacrificamos

Por algo, por uma ideia, por um objetivo. 

Para alguém, para alguma coisa

Ou apenas por nós!?

Sinto um oceano,  sem fundo

E uma crista de vagas espumosas

Zangadas, turbulentas explodindo em liberdade

Que se transformam em coisas belas

Quando te olho, te penso e te invoco, 

Outras, mais ousadas, com arrojo demente

Em sublime estado de perfeição.

 

Somos a modificação, a exaltação 

O jogo dos prazeres e da imaginação. 

Somo o travessão que une e separa

A curiosidade e a aprendizagem, a experiência 

 

A Terrivel percussão da nossa exigência

Torna-nos sublime no holocausto do assombro

Onde explodimos em estilhaços de união 

(fusão de todos os metais preciosos e imprecisos) 

Atraídos pelo íman do universo que nos rodeia 

E ao qual nos acoplamos, para, no belo... 

Somos vitrais. 

 

 



carlos arinto maremoto às 10:52
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Sábado, 26 de Setembro de 2020
Este era o tempo

Então, esbarrámos com um muro de flores,

Tantas e tão variadas com cores, luz, 

Reflexos e tonalidades que o mundo se esmerou

Em deslumbrar, deixando-nos em êxtase,

Sem palavras. 

 

Este era o tempo de outra coisa qualquer

Que não a poesia, ou o conto sagaz, 

Do reencontro, do resolver do passado, 

Do deslumbramento e da saciedade. 

 

Este era o tempo que foi unindo tempos

Satisfazendo curiosidades, fermentando memórias

Explodindo em eclusas que nos apaziguam o destino

Que se reconstrói sem dor, apenas emergente

Certificando que somos.

 

Nunca se regressa, nunca se termina, mas tambem

Nunca se esquece! 



carlos arinto maremoto às 10:51
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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020
Crime perfeito

Sorrateira, como um animal manhoso

Aproximou-se.

Tinham passado muitos anos. 

Estava mais velha, mas irradiava beleza 

Aquele tipo de beleza que nunca desaparece

Evolui, aperfeiçoa-se, amadurece

Mas continua a existir. 

Aproximou-se

Com as cautelas e prudência da experiencia

O corpo em tensão, um cigarro na mão

Os olhos dardejando e pesando perigos

Aproximou-se em arco, dando espaço

Depois sorriu para ganhar confianca

E sem mais cuidados disparou.

 

Certificou-se que não falhara

E virou costas. Saiu.

Bebeu um pouco de água para serenar... 

O barulho do tumulto ficava para trás 

Regressou em meia volta e apontando para um dos lados

Exclamou: vai ali!

Foi quanto bastou, todos se precipitaram naquela direcção.

 

Com a mão enluvada tirou a carteira do cadáver 

As chaves e disse-lhe adeus pela última vez.

Depois desapareceu - juram os que foram testemunha-

Que subiu ao céu, na vertical. 

 

Claro, construíram logo ali uma igreja, uma mesquita

E uma sinagoga: há que aproveitar o momento! 

Todos beberam um copo

E foram felizes para sempre.

Ah! O cadáver? Foi incinerador rapidamente

Quando as autoridades chegaram já só havia a lenda. 



carlos arinto maremoto às 22:17
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Muxama

Lá vem um fenicio

Depois outro

Ainda mais outro. 

O turismo não acaba

Outro fenicio está a chegar. 

O Sul brilha 

A sardinha veste-se de cores

O abacate e as laranjas

Pousam nas mesas 

Enfeitadas com vinho gasoso 

Flores e ervas de cheiro, 

Marmelada, doces e manteigas

Que os desportos de inverno

Precisam para se alimentarem

De bons comensais. 

Turismo do filete

Do taco de golfe

Da sombra nas arribas. 

Mar sem noite

De bebedeiras na piscina 

De  estrangeiros

Que vem repousar, outros 

Para nos conquistar, 

Refugiados do silêncio 

Na procura de terras mais a norte

De melhor morte. 

E os jovens, fenícios de antigamente

Romanos, gauleses, castelhanos, 

Para ver os jogos, 

Os desafios, as competições,

E o novo ciclo de criar peixe, ostras, 

Polvo e algarvios em cativeiro.

 

Muxama que eu gosto. 



carlos arinto maremoto às 07:55
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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2020
Nostalgia 1 - racionalidade 0

Com o Outono regressam as nostalgias

É dos livros, do tempo, do hábito... 

E temos a sensação de que  perdemos algo

Alguma coisa, qualquer coisa que nos escapou.

Um sorriso, uma oportunidade, um amor impossivel

Uma resposta perfeita, uma viagem adiada... 

Uma gargalhada ou uma lágrima. 

Perdemos, 

Algo que deveríamos ter feito, mas não fizemos

Vá-se lá saber - agora-porquê - ou pior do que isso

O quê ?!? 

É apenas uma leve impressão, uma hérnia que incomoda

Um pequeno pormenor, como um acento gráfico 

Uma pontuação no texto ou um borrão que tudo mancha

E que pela sua dimensão , nem o percebemos. 

 

Deixemos o outono seguir o seu curso

Curar-nos-emos destes sintomas do espírito. 

Ficam, certamente, as cicatrizes, mas, 

Viveremos com elas e nas crostas que se formarem 

Faremos abrigo e protecção para o Inverno 

Que não tardando, também nos pode derrubar. 

Somos canavial, junco ou bambu, somos estaca

E cana-de-açúcar, somos a fragilidade do gelo

Quando agulha se apresenta na transição destas duas estações

Para nos testar. 

 

A minha alma não mente. Seja a alma gorgulho

Algodão ou hidrogénio (cavaco de fogueira, 

Combustível incendiário ou enzima) seja a alma

Equalizador e régua do carpinteiro, ancinho do jardineiro 

Ou o espaço sem medo do funambulismo entre duas escarpas

Que nos mantém agarrados ao louco segredo

Da existência. 

Só um louco se lembraria de chamar à existência vida. 

 



carlos arinto maremoto às 12:19
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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
Escrever

São duas horas. 

Uma já passou... 

É preciso escrever algo. 

O tempo foge

Desaparece 

Evapora-se.

Olho o relógio... 

Já são três. 

Enquanto estava diatraido

Outra hora já se foi. 

Caneta, teclado,

Ideias, por favor!

Campainha, telefone, 

Tudo me impede de começar 

Coloco a música mais baixo

Ajeito os cortinados

Endireito o quadro na parede 

Que dia é hoje?

É preciso não perder a prioridade

A oportunidade, a delação, 

Sinto fome

Vejo o boletim da metereologia

Cruzo as pernas

A mulher que distribui os bolos

Surge-me de repente

À porta da carrinha, e eu não resisto

De ficar a olhar para ela. 

Tomo um banho, 

Visto-me de lavado

Volta a procurar a escrita

Passando a palavras uma ideia 

Absolutamente brilhante, 

Original e epica

Que me surgiu no chuveiro, 

Mas, la-men-ta-vel-men-te

Esqueci. 

Agora já é tarde, já não vale a pena

Escrever. 

O carteiro passou. Não trouxe nada

Para mim.

Também não tenho destinatarios

A que mandar livros, cartas

Ou presentes. 

Morreram todos com a pandemia

Nada tenho a acrescentar 

O noticiário corre sem som

Resumindo o dia. 

Depois um filme um bocejo

Afinal quando escrevo? 

(bebo uma água com gaz

Alivia-me a digestão,

Embora não tenha jantado) 

22, 23...amanha volto a tentar! 



carlos arinto maremoto às 17:43
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Terça-feira, 22 de Setembro de 2020
adiado

O que era para ser hoje, ficou adiado.

Acontece!

Tem de haver prioridades, hierarquia, agenda.

Não se faz hoje, faz-se amanhã.

o problema é se mudamos de ideias,

Se pensamos melhor e desistimos

Se iamos cometer o "erro" que evitado

suspenso,adiado, por um acaso,

Constituiu a nossa "salvação"...

No inverso, foi uma oportunidade perdida

Que não se volta a verificar.

Amanhã todos os astros estarão num alinhamento

Diferente. Passou o momento. 

Eu quero lá saber dos astros.

O que não se fez hoje, far-se-á amanhã

Com mais paixão e garra, com vontade,

Entre o hoje e o amanhã vai um zig-zag de tempo

Que o meu tempo não anda em curvas 

Ou se deixa convencer por desvios magnéticos

porque eu não "tenho tempo" - ninguém tem!

Eu espero e me faço em cada esquina do hoje

Em todos as avenidas e alamedas do amanhã

Onde se faz a história, o rumo e a vida.

 

Gostos de me adiar.

Prolongo o acto do que tinha para fazer

para que se estendam os bons oficios

Dos diversos departamentos do meu corpo

Que o hão-de concretizar.

 

Adiando, prolongo a vida, saboreio a preparação

E vivo aventuras, que nunca imaginei poder viver

Porque espontâneas , de surpresa no espanto

De que é possivel adiar o passado. O contrário, não!

(sim o futuro chega de catrapuz, agarra-nos pelas ilhós

Surra-nos em massacre e não podendo fugir

Acabamos, muitas vezes, morrendo nos seus braços)

 

O futuro não pode ser adiado

Viver o ontem, fica para amanhã. 



carlos arinto maremoto às 19:22
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Não adianta ignorar

O primeiro sinal de alarme

Foi o lixo. 

Depois a falta de água num Inverno seco.

Ervas crescidas, plásticos, cartões, papeis

Ausência de tratamento de resíduos. 

A sujidade caía do ar para cima dos carros 

Que ficavam castanhos, ocres e pretos

Enquanto nas praias azeites de pez

Se misturavam com as areias e as aves mortas. 

Todo o mundo estava invadido por refugiados

Pessoas assustadas, bandidos armados. 

 

Fumos, águas a espumar ácidos, ribeiras azuis

Com detergentes e lixivias

A vida selvagem morre enquanto caranguejos

De tenazes envenenadas espalham a tempestade. 

Inoculando malignos exorcismos.

Um mosquito torna-se carraça

E ameaça destruir o dinheiro, mesmo o virtual

Cegando e interceptando circuitos

Derramando o medo e próteses de contaminação. 

 

Os jogos pararam. Um lago de cal solidifica.

Flores, frutos e árvores apodreceram com o frio

Um homem gordo vê explodir as tripas

Ao beber um abatanado ao balcão da pastelaria

Um avião desaparece no espaço sem ter caido

Em oceano ou lugar algum da terra. 

 

Nos santuários a mística continua.

Um bando de amputados toma conta do governo

Em cada estado e nação excruciando ranho

Baba e mel os líderes lideram. A receita é letal!

 

O grande tumor está solto. O cancro generalizado. 

Sargetas entupidas, esgotos routos, cérebros inundados

Sangue, puz, petróleo, conchas vazias, gaz entubado

Camiões cisterna com corações incinerados

O pranto é total. Não há regozijo nem regresso. 

 

Eram cinco da tarde, de um dia qualquer

Quando o mundo acabou. 



carlos arinto maremoto às 02:24
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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2020
fantasias de fim de verão. Observem!

Entre a premonição e a epifania, 

Venha vossa excelência escolher. 

Estou à disposição.

Se quer saber o futuro vai ter de esperar

Mas anuncio que o Outono está a chegar. 

Não é premonição nem epifania 

É calendário. 

Não é previsão é destino, conclusão, 

Consequência das voltas que a nossa cabeça dá.

Passe-me o sal menina,

Não tenho mais nada a observar 

Um cafezinho, depois disto, vinha a calhar. 

Premonição e fantasia, 

Dizem-me que tenho contas para pagar

Acertos a ajustar, saldos e créditos a haver

E despesas a eliminar. 

Já a epifania volta não volta está-me a maçar 

Com enredos de cabo e novelas de cordel

Já não a posso aturar. 

(essência é perfume compreensão do átomo 

Iluminação da realidade) 

 

Não as levo a sério, nem elas a mim, 

Somos a mentira e o burlesco da comédia

Na representação da vida. 

Meus senhores, agora palmas, por favor. 

 

O espetáculo terminou! 

 



carlos arinto maremoto às 14:29
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Noites perfeitas

Esta noite foi perfeita, porque não existiu. 

(joël Dicker)

 

Perfeitas são as noites que não existem. 

Sim, imaculadas, sem tempestade, amores ou insónias. 

Noites sem o barulho da discoteca, sem conversas, 

Sem chuva no asfalto, sem passeios escorregadios

E luzes de candeeiros acesos que pouco iluminam. 

Noites de Verão sem vento e com céus estrelados

Que nos mostram o universo e que temos de ver

E identificar constelações e luas e planetas e auroras 

Uma chatice, como diria o meu pai. 

Noites perfeitas são aquelas que não existem, 

Que nunca aconteceram, que estavam para ser

Mas foram adiadas e depois... Já não se justificam. 

 

Noites perfeitas são aquelas em que dormimos 

Sem sonhar. 

Como se não estivessemos cá. Como se não existissemos.

Sim, somos a pedra no sapato que torna a existência desconfortável. 

De noite e por todas as noites. 

 

De noites que se transformam em dias, em pesadelos 

Em arrelias... E nos deixam perturbados, chateados

(volto a repetir) 

Porque as noites, todas as noites, se sucedem

Se repetem, se duplicam, se prolonguem e estendem

Depois do razoável, do admissível, do suportável. 

 

Noites perfeitas, são aquelas que não existem. 



carlos arinto maremoto às 09:51
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Domingo, 20 de Setembro de 2020
Sem-abrigo

A mochila não me pesa. Pouco transporto. 

Sinto-me leve, com um pouco de fome, apenas,

Mas, posso aguardar. Bebo água num jardim.

Sento-me numa elevação verde que tem um banco

E fico a ver uns miudos que andam por ali

De bicicleta, de skate, de patins.

 

Fim de tarde. 

Amanhã estarei longe ou aqui. Não sei. 

Um cão ladra a outro cão e passam atletas 

Em corrida, com fatos brilhantes. 

Duas mulheres jovens conversam no outro lado do parque.

Alguém fuma um cigarro, chega-me o cheiro,

Outro alguém fala ao telefone esbracejando.

Respiro o ar da tarde não pensando em nada.

 

Tenho um encontro marcado mais logo

Não sei se irei. Não sei se quero estar presente. 

Olho o céu, esperando um presságio , um sinal...

Vem lá chuva, talvez mais logo, certamente, 

Mensagem que me ajude a decidir da minha vida: Nada!

 

Também eu não quero decidir nada. 

O melhor é continuar ali e ali ficar até depois

Até que o frio e a noite me expulsem. 

A mochila não me pesa. Transporto quase nada. 

 

Também as estátuas em pedra ali dormem 

E os patos e os gansos no lago

O taxista na "praça" à entrada do jardim

E já se sentem borboletas noturnas a esvoaçar

O som de grilos,

O silêncio, porque todos já se foram... 

Tiro a manta e embrulho-me no banco

Abrigando-me nas estrelas

Confesso os meus pecados e adormeço.

 

Amanhã tomo posse, hoje é o meu último dia 

De liberdade!

 



carlos arinto maremoto às 19:31
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Curioso, disse ela!

Curioso!

Sou um tipo curioso, e no entanto... 

Tudo me é indiferente. 

Então, onde me fica a curiosidade?

E a interrogação?

E o querer saber mais é ir mais adiante?

Não fica! Dirás.

São apenas impulsos como os da amiba gigante

Que se contorce, faz esgares e coa líquidos, ar

Ou outra coisa qualquer que as ambas façam, 

Não quero saber

A minha curiosidade está no ponto zero, 

Quando me perguntam - o que fazes aqui?

Encolho os ombros... Já é um bom reflexo, 

Quase uma resposta, uma satisfação à curiosidade

E nem penso no motivo da curiosidade

Que desapareceu muito antes de se ter formulado 

Como um  velcro descartável a que faltou aderência

Curioso, disse ela. 

Gosto de ti assim. 

Há curiosidades que não se explicam. 



carlos arinto maremoto às 12:21
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Sábado, 19 de Setembro de 2020
Semáforo

Existem semáforos na minha vida. 

É assim, não sei explicar, nem quem os colocou lá. 

Por vezes obedeço. Outras não! E trangrido.

Existem semáforos na minha vida. 

Talvez com a melhor das intenções 

Talvez pela melhor das razões. 

Eu é que não me sei comportar. 

 

O semáforo diz-me que o mundo que está em meu redor

Se choca entre si, se modifica e se ergue eriçado 

Criando erupções constantes, remoinhos, tempestades

E que temos o dever do recolhimento, para nossa proteção. 

Outras vezes, informa que o mundo está cordato, pacífico, 

Tranquilo e sereno a convida-nos a ousadias breves

Pois nunca sabemos quando volta a estar zangado. 

 

Somos o que nos permitem. 

A vaidade é apenas devaneio. 

O meu semáforo diz-me que sou um transgressor

E eu, encolho os ombros, indiferente, e brejeiro

Digo-lhe que não tinha reparado,

Que estou surpreendido, 

Que vou ser mais respeitador, atento e zeloso. 

Deixando a sua existência indiferente

Entre "alertas vermelhos" e "bandeiras azuis"

 

Nem sempre estamos em sintonia, ignoro imposições 

E violo precauções. 

Agradeço aos semáforos a informação, são bem-intencionados

É sempre que posso dou-lhes razão, acendo uma vela,

Rezo uma oração. 

 

Como tudo o que é importante sigo adiante

E outros semáforos me convencem a avancar

Ou a recuar, num constante marear

(de aventuras pelo espaço, de amores divertidos,

De segredos escondidos e prazeres com pouco sentido)

Entre a blasfémia e o impropério, o arrependimento

E o regresso ao medo, à ousadia e à hibernação

Porque sou o que se canta e na diversidade se faz.

Porque sou o que não tem sentido, e juízo... 

Nem quero ouvir falar. 

 

 



carlos arinto maremoto às 06:35
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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020
Mutação

Chuva e vento (como nunca se viu,

Ou, se se viu, já esquecemos)

Águas mil a fazerem tempestade 

Rios a transbordarem dos seus leitos preguiçosos 

Depois de um Verão pacífico. 

Ondas que varrem o areal trazendo escolhos 

Ossos, lixos, alguns cadáveres de afogamentos

Que aconteceram antes, já esquecidos, 

Dados como desaparecidos. 

 

O tempo muda e nós (todos nós ) também.

 

Mudamos, adaptando-nos ao frio que está para chegar

Ao desconforto do vento, aos salpicos da chuva, 

No vestir, na forma de encarar o mundo, que sentimos

Estar a mudar. 

E muda muito para além do clima: no pensamento

Na ordenação, no cruzar de relacionamentos, 

No respirar do que somos, constatando fragilidades, 

Imponderáveis, angústias e depressões,

Que nem os sorrisos mais abertos e estridentes

Fazem esquecer. 

Estamos condenados!

 

Mas como por vezes acontece, sobrevivemos, 

Resistindo. 

Como por vezes acontece ficamos ainda 

Mais um bocado, 

A acompanhar a mutação que evolui 

E os seres que se adaptam.

 

Do fundo dos tempos, passamos por aqui. 

Viajamos empurrados pelo vento, pelas ondas, 

Pelo ar e florimos uma e outra vez, 

Sempre que a energia nos mantiver capazes 

Com sentimentos, activos em movimento, 

Porque, neste mundo, nada nasceu e cresce, para estar parado.

 

 



carlos arinto maremoto às 10:02
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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2020
Retrato

Quando me retratarem,

Se estiverem para aí virados, 

E não tiverem mais nada que fazer

Façam-me jovem,

Bonito, saudável, façam-me por prazer

Que obrigação não tem motivo

Nem acrescenta prazer. 

 

Ao retrato, que é criação, arte, inspiração 

E não precisa de ser a realidade 

Que viva da ilusão de que fui actor 

Que num momento de paz 

E alguma inquietação, 

Tomei por apontamento

O que aqui lêm, 

O que vêm, o que aqui está. 

 



carlos arinto maremoto às 19:08
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This is the question!

Hoje, ainda somos os mesmos

Ou já só somos memes?

Ou seremos, outros? 

Ou outra coisa, algo, talvez. 

Na dúvida, na incerteza, 

Vamos devagar...

 

Disse esta manhã ao acordar

Com o espanto da incerteza

Preocupado por não saber

Se era eu ou outro qualquer

Que despertava na bruma da solidão. 

 

M e smo que não creia, que não acredite

Mesmo que possa ser confundido

Com um meme  inventado, ficionado, 

Diferente de ontem e do programado.

Serei o que disserem

Um mesmo transviado, desorganizado, 

Desprogramado, lançado aos algoritmos 

Cercado, acossado, mal tratado,  

Desafiado

E quando interrogado recusei concluir

Porque não falo, não me pronuncio

Sobre os outros

E eu não sou ao adormecer o mesmo 

Que se levantou ao acordar. 

 

Só um outro mesmo/meme poderia

Responder assim. Sou uma unidade

Evolutiva, logo é meme assim. 



carlos arinto maremoto às 10:18
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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2020
O regresso na gestão (crónica economicista)

Gerir a angústia, a perspetiva 

A paz ou a guerra, 

Gerir a saudade, o futuro, a realidade

Gerir a fome que só desaparece 

Quando se mata, 

Gerir a vontade, o desejo, o lume que nos enxameia

O sol que nos abraça e o mar que nos rodeia.

 

Gerir as lágrimas e os sorrisos

O que pensamos ser

A noite e o dia que trazemos dentro de nós

E nesta contenção de sermos sociais

Termos tempo para ficar e ir

Meditar e lembrar sem esquecer de amar

Que somos a única vida que nos une, 

E gratos voltamos a beijar e a percorrer

O caminho dos corpos na torrente da urgência

E da plena ousadia de continuar. 

 

O mundo só acaba depois de amar.

O mundo só acaba depois... 



carlos arinto maremoto às 17:31
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MAREMOTO
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