Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Sexta-feira, 29 de Setembro de 2017
as arvores

amadora desaparecida.jpg

 

AS ARVORES

Habituado aos sons da cidade, não me apercebi dos pássaros.

Quando estes voaram, como fisgas, á minha volta, descobri a serra

E fiquei admirado por estar ali!

(Não me lembrava de nada que antes tivesse acontecido porque

Me encontrasse ali – onde prédios, carros e pessoas não existem)

 

Troncos enormes e raízes como jacarés faziam uma cortina em biombo

Entre o que via e o que me era escondido. Uma neblina tapava tudo.

 

Escutei, ao longe, um cantar de águas em pedra nua. Não era a azáfama

Da manhã, na gare dos comboios suburbanos nem os apitos dos barcos

Que atravessam o rio. Era a terra e o sol a conversarem.

 

A noite já acontecera, faz tempo, e o murmúrio das folhagens segue

Sussurros que a intuição não anota. Não lembro dos rangido dos “elétricos”

A caminho da colina da Estrela, nas fotografias da minha infância.  

 

Por onde andarão os esquilos, as raposas, as andorinhas?

Tudo tem o seu tempo, dirás. Chove e vai fazer frio, agora é tempo das fogueiras

E dos almoços em família. A colheita está feita, não só os animais hibernam.

Sinto o gosto dos regatos a afundarem-se no turbilhão das nascentes.

Espreito pela nesga da janela: eles lá estão! Um leve crepitar faz-me voltar:

 

São as arvores a cair! É a serra a tombar e as árvores com ela!

 

Agitadas as folhas, abanadas as ramagens, apodrecidos os troncos

O vento, a chuva e o medo devoram as floresta que se pulveriza no chão.

Fica o húmus, a serpente, as formigas o musgo das festas natalícias

A germinarem fetos e cogumelos, como de muito, não havia.

 

Indiferente, lá longe, a cidade continua no frenesim do seu sentido ignoto

Há greve, eleições, crimes, doenças, aviões que chegam e partem…

 

Foi apenas um barulho, mas a torreira do verão derrubou as arvores

Que o tempo carcomeu. E nós sepultados com elas.

Na primavera, apenas elas voltarão a nascer. O resto será a cidade como

Um lupanar sem sentido.  

 

Mas, aqui, também nada faz sentido, porque sentido é dor que se tem.



carlos arinto maremoto às 09:01
link do post | comentar | favorito

contador
MAREMOTO
pesquisar
 
Abril 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
11
13

15
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


textos recentes

bom dia

alentejo

A paixão segundo o autor

alterações climaticas

biografia

saudade

domingo

Um rio sem barcos

advento

trintanario

arquivos

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Junho 2016

Janeiro 2014

Março 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

tags

todas as tags

links
alô planeta terra

localizador ip
hora de inverno
hora de verão
contador
a partir de:
28.03.2010