Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
as especiarias

rua nova dos mercadores.jpg

 

Os primeiros vinte anos, foram passados á procura da ideia original e ampla, que lhe permitisse poder depois esfrangalhar os horizontes e rasgar as minudências de uma imprecisão. A imperceptivel presença de uma pulga a estragar o percurso das águas da escrita, que devem escorrer sem obstáculos ou a tomada de posse, numa zona da floresta, por uma manada de elefantes em fúria, tudo era possível emendar, riscar e melhorar para que não houvesse duvidas sobre o dito e pretendido dizer.

Fez arquivo e foi inventando tudo o que havia para inventar utilizando todos os truques que possam ser permitidos com ousadia de manter uma coerência.

Ao encontrar o “estado perfeito” da límpida nudez do primeiro e inicial escrito Américo Barroso começou a torturar as palavras, os textos, as imagens e os mapas gráficos onde inseria o documento universal de pegada que haveria de deixar para os vindouros.

Se vindouros houvessem.

Pela ordem “das coisas” haveria, mas isso não era preocupação sua. Se os vindouros não chegassem a existir a sua escrita manter-se-ia com a função do nada, como agora acontecia, já que ninguém lera os textos e as histórias que escrevia.

Fazer o mesmo, sempre, em escalas desiguais, acrescentando ou diminuindo o pormenor, trocando tabuinhas por plásticos, celofane por papel pardo e misturando as ementas para gostos diferentes ou possíveis.

Sempre criativo. Pode-se dizer que foi sempre criativo.

E um sucesso. A palavra sucesso dizia respeito apenas a si, mas que lhe importava.

Então, após o seu falecimento prematuro – morreu com quarenta nos, por um tumor vesicular, a acreditar na certidão de óbito – os seus “papeis” foram entregues aos herdeiros.

Estes, que não esperavam nada de bom da fortuna do pai, que sabiam inexistente, fizeram vista grossa e ignoraram o testemunho.

Nunca a escrita, os livros ou a arte dera comer a ninguém, diziam.

Outros eram de opinião de que se deveria dar a ler os “escritos” a quem soubesse avaliar a possibilidade de ali estar tesouro que valesse ser preservado e que o nome do progenitor pudesse ter simpatia nalgumas ramagens do grupo de cidadãos da aldeia, que eram o mundo dos sábios.

Américo Barrosos fora cauteloso e guardava o seu génio criativo como se preciosidade fosse.

Por isso, encadernou cada escrito em embalagem diferente e espalhou as mesmas por diversos cofres de armazenamento.

Em envelopes, em pastas de cartolina, em “canetas” informáticas, em sobrados de prateleiras de cozinha, nas estantes – evidentemente – em cartolinas coloridas e peles de borrego tratadas, á maneira antiga, como embrulho.

Mas nas arrumações e nas mudanças que sempre acontecem quando o dono da casa desaparece, muito se perde.

E neste caso, que não é único, perdeu-se tudo.

Quando procuraram encontrar que mostrar, para uma leitura apressada, apenas encontraram invólucros vazios, sem conteúdos. Letras no fundo de latas de legumes secos, assim como massinhas para a canja de galinha – que a mulher fazia pelo Natal – qual sopa de alfabetos.

Onde estava a originalidade de um conto que não pode ser lido?

Começava em África e depois falava-se do oriente. Dizia-se dos além oceanos e descrevia povos europeus e tribos que viviam na era do gelo.

Filósofos, dramaturgos, poetas, aventureiros e mitos, compilados por um concilio de que só Américo Barradas conhecia a data da celebração.

Guerras e emoções, desastres, descobertas, provas cientificas e tudo o que a humanidade tinha vivido eram poeira, nas histórias de Barroso. O leitor "atento" tardava em chegar, só ele descobriria a magia de transformar o encantamento em literatura.

Sobrou um "pau de canela" enrolado como a Tora que está exposto no frontespicio do chafariz, com a legenda: oferta de beberagem: todo o conhecimento faz sede.

-Parece-me mais o torniquete de um saca-rolhas antigo. Diz alguém.

- Talvez!

Tudo em literatura é possível.

 

 



carlos arinto maremoto às 19:46
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