Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
Fylella Fastidiosa

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O comboio para Bragança estava atrasado. Não faz mal, eu não vou para Bragança.

O tempo só é importante quando vamos para Bragança.

Começa-se um bocadinho depois, e vamos atrasando pelo caminho, acabando por chegar tarde ao nosso próprio funeral.

O que é uma maldade fazer os voluntários e profissionais da saudade, esperar!

Em Bragança, será a cerimónia religiosa.

Um padre que amaldiçoará o defunto dizendo-lhe que ele foi um pecador. Mas que como está arrependido, Deus compreende e perdoa.

E se não está arrependido, agora é tarde: vai mesmo assim para o céu, com as imperfeições.

Um padre insultará toda a congregação revelando que o finado não foi um bom cristão e que terá que pagar pelos seus pecados.

Sim, a cerimónia tem um custo, se bem que em euros.

E o viajante ali, sem se poder defender, nem ninguém que lhe tome a justiça de uma acareação de um contraditório.

Pela boca do sacerdote saem as palavras de Deus.

Ainda bem que vou na direcção contrária, para sul, onde os comboios não se atrasam e cumprem horários.

Pode ser que seja porque é a descer, afinal o sul fica lá em baixo.

Fujo das oliveiras, mas esbarro com as amendoeiras. Videiras há por todo o lado e vinho bem bom.

É preciso tomar decisões e ter atitude.

A philaenus spumarius deixou a sua terra natal, no mediterrâneo e ameaça a costa. Trata-se de uma praga. De uma infestação para a qual não se conhece cura, remédio ou combate.

Se fosse tão fácil como construir um muro, de pedra, de arame, de betão, fá-lo-íamos, mas a philaenus spumarius voa. Portanto não resulta!

Também anda, se desloca e migra.

A estrada nacional dois – que liga faro a Vila Real e á fronteira – encontra-se assim em alerta máximo. Quase encerrada.

Depois do Tejo, desfilam as horas pela paisagem das janelas fechadas.

Conheci Margarida, rapariga simpática, enquanto adormeço ao atravessar o Alentejo.

São verdes a perder de vista. Pequenos montes, searas, azuis e amarelos nos salpicos dos inclinados arrozais ou nos caneiros que embalam a água que há-de ser tudo o que Deus quiser.

Azuis e amarelos que se enxameiam com pássaros, borboletas e toda a espécie de insectos dos mais pequenos aos maiores. Abelhas, zangões, carochas, moscas e o sempiterno mosquito.

Há aquela luz e aquele sol que se conhece e ama.

Vinhedos, plantações de pasto. Gado e mais gado.

Este comboio não apita. Escorrega de mansinho, não perturbando a estiada, nem as nuvens de vapor que se levantam do chão, em direcção ao sempre, como ondas de miragem.

Era bom que chovesse, mas também é bom que não chova.

Margarida tem os olhos azuis como as pequenas flores que se avistam ao longe.

Que belos os sobreiros, na sua imobilidade de tela em “umbrela”. Não conheço palavra melhor que defina o chapéu de um sobreiro.

Que esquadria e mapa fazem os olivais. Que conforto oferecem as azinheiras para quem olha sem clemencia para o arrasador sol que é luz, cabaça e refresco hortelão.

Os melões estão maduros. A azinhaga dorme a sexta da tarde, com alguns patos no colo..um ou outro pescador aventureiro segura uma linha que se estica entre a cana de titânio  e a superfície da água, que os melhores preferem a madrugada.

Ainda falta muito para chegarmos á terra das figueiras? Pergunto ao revisor.

Estamos no horário. Duas horas.

Duas horas? O tempo de viajar de Lisboa a Paris, em avião.

Aqui o tempo possui outra dimensão, outra textura, outros afazeres.

Aqui o tempo não voa, saboreia-se, faz-nos apreciar a delícia da maturidade das coisas boas, como o pastoreio.

O tempo não para e traz-nos a felicidade.

Margarida, meu amor. Ainda nem trocámos uma palavra, mas sei que este é o amor da minha vida.

Há paixões assim!

E, por instinto, sei, também, que ela me ama. Há sua maneira, com o seu feitio, com os seus caprichos, mas sem hesitações. Como quem se dá e oferece tudo!

Cambaleio com o embalar do comboio.

Já não a dormir, mas ébrio.

Apetece-me o cação ou a moreia frita para um branco orgulhoso, cheio, incorpado.

Do bater do mar nas escarpadas falésias, onde praias e portos se cruzam, até à fronteira árida pejada de animais em vara, soltos, livres e em solar crescimento alimentados, tudo existe: o espelho da água, a secura dos campos, os cavalos de raça o queijo, o mel e a cortiça.

Sinto o cheiro do pão acabado de fazer.

Todo o Alentejo tem padarias com fornos a lenha. Lenha que é aproveitada da limpeza dos pinheiros e das árvores que se desbastam. O pão é a base de uma alimentação que persiste. como sempre foi, a moçarábica linguagem.

Sinto que o meu destino é este!

Margarida vem comigo! Chegámos!



carlos arinto maremoto às 10:46
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