Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Segunda-feira, 6 de Novembro de 2017
Gado Transmontano

 

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Pedem-me que aqui narre a história do homem que tinha um cão.

Recuso, pela vulgaridade.

Não encontro motivo para acreditar que o assunto possa interessar a qualquer possível leitor que um dia se depare com esta história.

Quem me ler, abandonará o livro em menos de um segundo, logo após escutar as frases iniciais.

Um homem tinha um cão. Então e depois?

O que é que o leitor tem a ver com isso, ou eu, o narrador?

Mesmo os que ao ler um livro possuem um cão aos pés, pensarão: deixa ver se o conto é longo e comprido, tenho mais coisas para fazer hoje, e – especialmente hoje – não me apetece ler histórias de cães, que sempre conviveram e seduziram os humanos como companheiros de raça.

De raça, de caça, de guarda e de companhia.

E de colaboração no trabalho, como hoje chamam aos empregados as companhias modernas.

Já se disséssemos que um cão tinha um homem, poderia causar um sorriso e alguma curiosidade, mas – estou em crer – não iria além desse sorriso o esforço para seguir adiante.

Há coisas bem mais interessantes com que nos preocuparmos.

Uma matilha! Por exemplo! Uma matilha cria-nos a necessidade de fugir, especialmente se esta arreganhar os dentes na nossa direcção.

Se não, podemos sempre enrolarmo-nos com ela (a matilha) em brincadeiras de adolescente, recordando que também já fomos pequenos e todos os bichos, animais e companheiros domésticos fazem parte do reino em que vivemos e até podem ter sido geradas pelo mesmo criador.

Um cão tem um homem ou uma mulher por adopção.

Sim, acontece, sabe-se que os cães são seres vadios que se apaixonam.

A paixão resulta sempre de uma necessidade. De afecto, de comida, de protecção, de saúde…

E talvez por essa relação, pedem-me que a descreva para que possa ser lida e não esquecida, quando houver interesse em lembrar.

Quem pede?

Ora, aqui está a pergunta que pode ter como resposta: o dono do cão.

O dono do cão é homem de muitos anos, alto, espigado, de carnes magras, com uma barba por fazer. Foi engenheiro, sendo o título académico uma marca que determina a sua estatura física, intelectual e até doméstica.

Percebe de construções, de artimanhas de factos, de emaranhados protões em complicados cálculos matemáticos, logísticos e financeiros.

Vive com a família e tem uma vida normal.

Não se inventa uma história que não existe só para encher papel.

E tem um cão.

Mas o cão morreu, como morrem todos os seres vivos, pela idade avançada. Não por doença ou acidente. Morreu porque era velho.

Feitas as exéquias o nosso engenheiro passou a andar sozinho. Nem melhor nem pior. Mas sem o cão. É natural. Um amigo não se substitui.

Sente a falta do seu companheiro de caminhada, mas que pode fazer? Sente a falta de um olhar e de uma troca de carinhos, mas que pode fazer?

Acontece que (está a ver caro leitor) aqui começa o enredo.

Antes que estranhe, dir-lhe-ei que família e cão são coisas diferentes. Por vezes os humanos confundem uma coisa com a outra, mas não é patologia que não se trate com um bom clinico da especialidade.

O engenheiro Aboim é conhecido por gostar de ir passar o verão a uma Lagoa junto á costa alentejana, que se situa junto a um parque dunar de caravanas e aconchegos de praia.

Rulotes de caravanismo, abrigos em madeira, tendas de lonas esticadas por cordame náutico.

Foi como é costume, com a família – não seja impaciente leitor, já lhe digo de quantos pessoas é constituída a família.

A família do engenheiro Aboim é constituída pelos filhos, um rapaz e uma rapariga, e a esposa.

Os filhos são menores e o carro é um suv que agora é moda e o engenheiro e a esposa têm posses e capacidades para pagar carro, impostos, combustível e oficina. Sim, eu sei que não se deve falar em dinheiro.

Isso são tiques de gente pobre. Eu sei.

Mas sai-me a escrita para o borralho, especialmente agora que escrevo, enquanto espero que umas castanhas fiquem cozidas, pois estamos no S. Martinho e tenho de colorir esta história com alguma vibração e acrescentos de pigmentação.

Sim, continuo a achar que a história de um homem e de um cão, não é história.

Não faço ideia se os filhos do senhor engenheiro gostam de cães, mas todos os miúdos gostam, portanto, tome nota, temos uma família feliz (não confundir com um prato gastronómico dos restaurantes chineses) que ficou recentemente sem o seu animal de estimação.

E já cometi um erro de que gostaria de pedir absolvição: disse que o cão tinha um dono.

Um dono?

Procuro um termo mais adequado, mas não encontro.

Os donos dos cães têm dono? Então porque é que os cães hão-de ter dono? Acasalam, juntam-se e obedecem se forem ensinados a obedecer. Convivem e relacionam-se como sempre fizeram com reis ou imperadores.

O dono de todos os cães é uma esfinge que existe no Egipto, como todos os deuses sabem.

(Pssiut…a esfinge é um leão, não um cão! Ignoro esta chamada de atenção da minha consciência)

Pois estava o nosso homem estendido ao sol, quando um cão se aproxima.

Ronda por ali. Afasta-se, volta a aproximar-se. Senta-se junto. Deixa-se ficar um tempo. Olha o engenheiro Aboim – sem saber que ele é engenheiro - os cães não sabem essas coisas – lambe-lhe a mão.

Num gesto reflexivo o engenheiro Amboim faz-lhe um afago.

Aquilo que qualquer um faria.

O cão adormece junto ao seu novo dono.

O nosso engenheiro em férias vai á procura do provável dono do cão. Um cão daqueles não anda por ali, sem dono.

Nota-se que está bem tratado. Não carece de alimento. Não está sujo.

O que fazer?

Não existe rasto do possível dono do cão. Ninguém sabe quem possa ser a pessoa – homem ou mulher – que criou este animal.

O cão já é adulto, se bem que jovem, e nas voltas que o engenheiro Aboim dá pelo parque, pelo areal, pelas caravanas e na recepção do alojamento coletivo, o cão segue-o para todo o lado.

Curioso, muito curioso, pensa.

Aboim estranha uma coisa. A raça do cão.

Cão de Gado Transmontano.

Não é uma raça comum no sul do País. É um animal grande, corpulento. Um animal de trabalho e de guarda.

Aboim conhece muito bem esta raça, pois é a mesma do seu anterior cão. Uma coincidência. Sabe que são persistentes, lutadores, resistentes, aguerridos e meigos. Meigos e cheios de doçura, como oitenta quilos de peso – na idade adulta – podem ser.

Seria possível que este cão quisesse adoptar o engenheiro Aboim, talvez pelo cheiro que as suas roupas tinham?

É possível. Tudo é possível. O estranho é não existir dono para este cão. Donde terá surgido?

Aboim informa as autoridades de que vai ficar com o cão. Não faria sentido deixar o cão ao abandono.

Se o dono aparecer será devolvido.

Um cão deste porte não se perde, não se abandona, não se desliga de um tutor.

Impossível estabelecer um rasto.

Misterioso, este cão reage com a docilidade que a raça possui. Balança a cauda, dança na rua a caminho de futura casa, enrosca-se em buracos e no chão – sempre que descobre terra ou relva - para mostrar que está contente e confortável.

Amboim sente-se repousado e tranquilo.

Perdeu um cão ganhou um cão.

A vida agora é a mesma.

Quinze dias foi o tempo que o seu cão foi e voltou ao reino mágico dos cães, não aguentando a saudade.

Também tive uma gata que….

Chega. Não conto mais!

 



carlos arinto maremoto às 09:42
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