Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
o encontro

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A noite estava seca. Já não era verão, mas o calor continuava a fazer-se sentir. Os entendidos diziam que eram consequências das “alterações climáticas”.

José, procurou uma cadeira, para continuar a ler o romance que comprara na última ida a Coimbra. Sabia-lhe bem, estar ali, no silêncio dos matos e na ausência de tempo.

Ali, onde os sinais de comunicação não chegavam.

Houvera cabos para telefones, ao longo das serras, estendidos em postes de madeira, como estendais de roupa, mas haviam ardido nos incêndios e ainda não tinham sido repostos. Se calhar nunca seriam.

Tudo estava ao abandono: os muros, as pedras, as ribeiras, os matos queimados que agora eram apenas cinzas, os caminhos e as casas.

As casas iam ficando destelhadas como bocas de peixe sem ar, onde silvas e animais se enrolavam, por entre cacos de louças, alumínios e restos de mobiliário.

As pessoas demandavam Lisboa ou o Porto á procura de emoções e melhor vida.

Ali o mato crescia em cada sulco das dobras da terra. Os telhados, que não tinham vergado, enferrujavam com o gelo e até as raposas vagueavam pelo casario em completa liberdade e despreocupação.

Continuava a haver eletricidade e água, embora esta última escorresse com pouca vontade das torneiras antigas, com punhos em cruzeta. As borrachas, as juntas, as paredes e os aramados, todos sem exceção, se iam deteriorando, estragando, ganhando vicio. Até os pinheiros e os carvalhos iam tombando do alto da sua copa para o chão, vencidos pelas térmitas, pelo caruncho, o gorgulho e pelos roedores da floresta que cada vez eram mais.

José gostava deste ambiente: cerrado, denso, emaranhado, quase tétrico.

Gostava dos animais selvagens, dos javalis, dos coelhos, das aranhas…

José gostava deste fim do mundo. Um mundo de sobrevivência depois do grande colapso, da ruina, do apocalipse anunciado e esperado, que finalmente chegara num dia de sol e calor, como se fosse novidade e natural.

Lia livros, ouvia música, escrevia poemas de amor ou devaneios próprios da solidão.

Preferia a solidão dos montes á solidão da cidade.

De há muito que José optara por estar só.

Hoje seria um dia muito especial.

Bem, hoje não, que o dia estava a chegar ao fim, mas amanhã. Teria companhia.

Em Coimbra contactara um serviço de acompanhantes: escorts como se diz ou se gosta de  chamar, adocicando a imagem.

Não! Nada disso, nada de putedo.

Este serviço era prestigiado e tem por finalidade fazer companhia, sem sexo.

Pode-se requisitar uma acompanhante feminina, ou acompanhante masculino para conversar, comer num restaurante, ou passear.

Os campos de cruzamento estão bem delimitados. Não pode existir contacto físico e a pessoa contratada tem de ter formação nos assuntos que se queiram discutir.

O convidado, chamemos-lhe assim, pode servir para ser exibido num qualquer evento social, numa apresentação ou jantar de grupo de uma qualquer fraternidade, havendo a combinar a titularidade do mesmo: namorada, mãe, amigo, parceiro, advogado ou madrasta….eram hipóteses plausíveis.

Ou então deixar a conclusão para a imaginação de cada um, consoante a tendência para a maldade ou a coscuvilhice.

Mas um homem não pode ser um solitário. Um homem sozinho não serve nem para comer, dizia o povo destas serras.

O encontro não poderia ser ali. Claro!

Aquilo era uma toca, uma caverna, um tugúrio distante.

Por isso, José levantar-se-ia cedo para ir até uma aldeia próxima, onde apanharia transporte para sul, onde, depois, se encontraria com a pessoa que viria ao seu encontro, para em conjunto almoçarem no restaurante da vila, famoso pelas iguarias e confeção dos seus petiscos.

Estes encontros teriam de ser sempre em locais públicos, pois havia os aspetos da segurança a ter em conta. José compreendia a cautela.

Numa outra fase da relação – se relação se pode chamar a este tipo de convívio, que agora os média chamavam de socialização – poderia evoluir-se para formas de presença distintas, mas impensável num primeiro encontro.

José não era tímido, mas tinha dificuldade em relacionar-se.

As mulheres pareciam-lhe perigosas, cheias de caprichos e demasiado absorventes.

Ele gostava da sua solidão. Sempre foi assim. Mas, claro, precisava também do convívio e da relação social para se equilibrar.

Os amigos? Ah! Os amigos…outro conceito estranho, perigoso e destituído de significado.

Cada perna com seu passo, ambas movendo-se para fazer a caminhada: mulheres e amigos.

José tinha consciência de que deveria ter nascido com algum defeito genético ou então foi a sua evolução darwiniana que merdara em sentido contrário á espécie e ao espectável.

O mesmo se estava a passar com o clima.

José tinha pena de não ser crente numa qualquer forma de fé.

O clima já não era o que fora. “Está sol e a chover” estão as bruxas a nascer.

Que saudades! Meu Deus. Que saudades!

As procissões, os sacrifícios, as oferendas, as rezas, a devoção…

Se, se socorrera do serviço de acompanhantes era para impressionar os vizinhos (tinha de dizê-lo, era verdade, sempre habituados a vê-lo sozinho) e para poder desentorpecer a língua, conversando.

Mas se o local é isolado, inóspito e escondido, existem vizinhos?

Sim, vizinhos virtuais nas redes sociais, vizinhos do instagram, vizinhos no twiter, vizinhos de uma realidade que nos acompanha mesmo quando não existimos nessa realidade

Estamos rodeados de vizinhos. Os vizinhos são a nossa paz social, os vizinhos são esteiros, mesmo quando somos maus vizinhos. Vizinhos e gadgets, o mundo avança para abstrações tecnológicas. 

Exercitar a mente, também, pois a acompanhante que lhe havia sido sugerida era licenciada em ciências da natureza.

Fora o tema proposto e escolhido.

Se era bonita? José nem tinha pensado nisso.

O dia chegou rapidamente.

Então o que é que me contas?

- Madalena, muito prazer.

- O prazer é todo meu, Chamo-me José.

Da estação dos autocarros foram em passeio até ao largo frondoso onde um repuxo aspergia água em redor devido ao vento, salpicando os transeuntes. Que não eram muitos diga-se, mas alguns idosos e um ou outro bombeiro.

Havia duas lojas de venda de bens de primeira necessidade. Um restaurante, mais casa de pasto, como ainda não se disse e uma venda de produtos variados que tanto são desinfetantes para a agricultura, como ventoinhas para o teto.

- O que faz aqui, José? Pergunta Madalena, admirada por descobrir um jovem apresentável, com aspeto citadino e não deformado pela vida do campo, num lugar distante e obscuro que havia tido dificuldade em localizar no Google.

José, sorri. Faço nada! Estou simplesmente aqui. Satisfaço o meu desejo de solidão e de conhecimento.

- De conhecimento?

- Sim observo a natureza. Vejo a natureza nascer, crescer e morrer, modificar-se. O que me pode dizer acerca disso, é um assunto que lhe interessa?

José pede autorização para tirar fotos com a sua acompanhante. Faz parte do contrato, não é preciso recordar. Faz igualmente algumas selfies, em que Madalena aparece por detrás ou ao lado. (“ciências da natureza”, lembram-se)

No sitio que habita não há espaço para as redes sociais, mas é bom estar em consonância com o  mundo. As redes sociais pairam numa nuvem acima da cabeça das pessoas, talvez aquela que vai ali…diz apontando uma feia e escura mancha no céu.

Madalena olha para José com incredulidade. É ingénuo ou está a fazer de mim parva?

José ri-se. Não temos muito por onde escolher, existe apenas uma nuvem, o dia está claro e limpo.

- Vamos comer, estou cheia de fome.

O espaço está quase vazio, porque ainda é cedo, mas mesmo assim existem turistas numa mesa junto á janela.

Os turistas são a nova praga. A infestante natural que tudo domina.

Línguas eslavas, formas esquisitas de vestir, próprias de outras culturas, longitudes e tradições. Peles brancas, cabelos apanhados em carrapito ou rabo-de-cavalo. Corpos esguios, sedentos e enxutos de líquidos (estes turistas não são bebedores de cerveja, nem de vinho ou outras bebidas alcoólicas) que se alimentam com frugalidade.

Discretamente José vai tirando fotos.

- Conte-me o que faz?

Madalena, sabe que este “trabalho” é confessional. Por isso tem uma história preparada. É uma boa profissional.

Sou auxiliar de enfermagem. Não acabei o curso, embora pretendo conclui-lo, no próximo ano. Vivo em Condeixa e trabalho num hospital de Coimbra. Tenho namorado e vivo com os meus pais. Que mais quer saber?

- E gosta do que faz?

- Sim, gosto! E o José porque está aqui?

A prática clinica de enfermagem possui algumas características terapêuticas, como levar o paciente a falar sobre si, a tomar consciência de si, a introspecionar-se. 

- Sou um guardião do tempo, diz meio a brincar, estou aqui a admirar a beleza da criação.

- Um discípulo, portanto? É crente?

- Se quiser.

Começam a chegar pessoas. Trabalhadores que vêm almoçar, pessoal das redondezas, gente que mora longe e está deslocada das suas casas.

O espaço é pequeno e com os turistas, e agora José e Madalena, faltam mesas para os habituais.

Ouve-se o arrastar de mesas para o exterior, faz-se uma algazarra no transporte das toalhas em papel, nos pratos e talheres, no jarro de vinho e no cesto do pão.

- Deixe estar dona Isabel, nós ajudamos. Trate lá da comidinha… são frases que se ouvem.

Madalena olha para José que parece estar a apreciar a sua companhia. Ainda não começaram a comer, mas não têm pressa.

- Vive aqui todo o ano?

- Sim e Não! Como consigo estar em dois lados ao mesmo tempo, estou aqui e não estou. Uma parte de mim vive aqui, a outra não!

Erro de perceção, sim, tem aparecido muito nos jornais – vai pensando Madalena, quase técnica diplomada nas ciências do foro psíquico, sem ter frequentado a universidade, mas na universidade da vida -  mas o melhor é deixá-lo dizer o que quiser, afinal estou a ser paga para ser ouvinte.

- Como assim?

- Não lhe posso explicar. É assim.

Ah! Bom. OK. Os perturbados não devem ser contrariados.

Este tipo de “encontros” tem os seus riscos e ousadias. Esta pode ser uma delas.

- Como é que uma futura enfermeira tem uma especialização em “ciências da natureza”?

- Por mero acaso. Tal como o José diz que vive em dois lados ao mesmo tempo e é um guardião do tempo, eu sou um rio que tem braços e vida nas memórias que passam. Fui duende e bicho da floresta, em outra vida. Fiz bio paisagismo em Coimbra.

“Não sei se acertei, mas parece-me que este tipo de conversa é adequado” pensa.

- Eu sou a mátria, conclui, aquela que tem o condão de povoar.

- Tem razão, diz, desculpe, devia ter percebido. A Madalena é a chuva e o milagre.

- Claro! E bebem um copo de vinho. Fazem um brinde. Então, “ao nosso encontro. Que seja sempre feliz.”

Como toda a eternidade, dura enquanto durar.

Comem com gosto, apetite e vontade. Vão falando sobre trivialidades.

Depois, José paga a conta, e saem para a praça, agora com a luz forte da tarde a tornar as pedras do chão espelhos.

Vão até um lugarejo, onde um homem solitário toca concertina.

José e Madalena ensaiam uns passos de dança.

- Foi muito bom conhecê-la. Diz, pois aproxima-se a hora da camioneta de regresso.

- Também gostei de o conhecer.

José acena um adeus, porque Madalena já não está ali.

Quando Madalena deixou de estar ali, sentiu a solidão, mas reteve o calor da sua conversada numa espécie de vibração, junto a si.

 Foi agradável. A solidão faz mal, mas a solidão purifica. E José não é de se “meter nos copos” ou em “drogas” para combater o medo e enfrentar a realidade.

Foi uma coisa que aprendeu cedo com os pais.

Ser valente!

Não ter medo, saber combater o medo.

 

 



carlos arinto maremoto às 10:28
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