Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Terça-feira, 14 de Novembro de 2017
O pé calçado

marte.jpeg

 

 

Estando o tempo fresco e agradável, para passear, após um dia de sol, com algum calor, achei-me junto ás muralhas do castelo, em Guimarães, onde vivo, sem dar por isso.

Estar ali, ou noutro sitio qualquer, era-me indiferente, pois caminhava sem destino, quase ignorando as casas e as pessoas que me rodeavam, ou comigo se cruzavam.

Saltei um murete, e enveredei por um carreiro, com vegetação espontânea, indo dar um uma clareira cercada por arbustos altos.

Como o sol já se tinha posto à muito e estava uma noite de lua cheia magnifica, escolhi uma rocha, que me pareceu adequada, para me sentar um pouco.

Olhando á volta, havia vários pedregulhos, com as vestes do tempo, limbos, líquen azulados e flores amarelas pequeníssimas, que apenas se distinguiam, por entre os tufos agarrados à rocha, com uma fixação prolongada do olhar.

Nem barulho, nem sinal de bichos, aves ou repteis que sempre vagueiam pelos terrenos.

Olhei para cima e o céu apresentava-se como sempre se apresenta nesta época do ano: estrelado. Nada a estranhar ou a declarar.

Porém, quando voltei a olhar em frente – primeiro distraidamente, depois apurando a visão e  os sentidos, comecei a distinguir algo absurdo e estranho que me parecia real.

Um pé, dentro de uma bota, com uma sola com sulcos, por onde saía uma perna, tornozelo e canela que acabava logo acima, nada mais havendo a mostrar.

Sola com sulcos, porque a bota se encontrava levantada do chão, aí a metro e meio de altura, ligeiramente inclinada para trás, com a biqueira apontando para o lado em que me encontrava.

Para conseguir descrever a posição exacta do engenho, direi que era como se o dono do pé e da bota (logo também da perna que emergia para o corpo, que não existia) estivesse a subir uma escada, vindo de lá para cá, em direcção a mim. 

Eu ia ficando por baixo, dois ou três degrau, se a subida continuasse.

Da sola da bota escorria um fio de água, sinal de que anteriormente pisara um regato e a água que se juntara nas pregas do fundo do calçado, para uma melhor aderência, deixassem agora escorrer o liquido que fruía para o chão.

Trata-se de uma escultura, pensei de imediato, embora julgasse estranho o local para semelhante exposição de arte.

De que material era feito é que parecia absurdo, não era pedra, nem madeira, ou cimento, talvez de silicone – pensei.

A água que escorria não parava, e ao fim de algum tempo a observar esta anormalidade, conclui que deveria ser uma daquelas fontes sem fim, em que a água que cai, volta a subir, para cair de novo, por um processo oculto, que engana o observador.

Também não se viam fios, ou arames a segurar a “escultura”.

Passei a mão por cima e por baixo, bem como de lado e nada impedia a minha mão de andar com liberdade ao redor do objecto.

Era uma “coisa” suspensa, escorrendo água e sem finalidade á vista, oculta de todos os olhares e que me parecia constituir alucinação, pois não lhe encontrava finalidade ou interesse maior para além de me intrigar.

Passei-lhe a mão pela textura do perímetro e pareceu-me sintético no calçado, mas de carne e osso na parte da perna que saia da mesma. Seria feita em cera?

A bota era todo-o-terreno, diria, mas parecia antiga e com uso. Estava desapertada, com cordões estragados e alguns golpes no pretenso cabedal, que se abria em ferida.

Virei-lhe costas, disposto a esquecer a sua existência.

Seria uma coisa para contar aos amigos, em noites de cavaqueira, quem sabe, regressar lá para confirmar a sua existência, amanhã, dia seguinte, com a luz do sol.

Lembrei-me que tinha a camara de fotografar comigo, fazendo parte do aparelho multiusos que agora ninguém dispensa, e que era – até à bem pouco tempo, conhecido como telefone – novíssimo canivete suíço da nossa juventude.

Disparei flashada, uma duas vezes e guardei o aparelho para ver mais tarde o que acabava de fotografar, não fosse alguém duvidar do meu encontro com o diabo.

Perdão, a bota, com pé, mas sem corpo, presa por nadas, flutuando e escorrendo água, a despropósito e num local sem significado, antes perdido, oculto e escondido dos olhares de todos.

Naquela noite não pensei mais nisso e acabei o meu passeio, no outro lado das ameias do castelo, ali, onde começou a nacionalidade e o verde das relvas bem cuidadas e das flores fazem ninho junto a estátuas e á recordação de uma senhora de seu nome Munna Dias, que não tinha ideia de ser dali, mas se apresentava como abadessa.

Soube depois que fora ela que mandara construir o castelo e o mosteiro de s. Mamede, antes de haver rei.

(continua)

 

 

 



carlos arinto maremoto às 19:09
link do post | comentar | favorito

contador
MAREMOTO
pesquisar
 
Abril 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
11
13

15
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


textos recentes

bom dia

alentejo

A paixão segundo o autor

alterações climaticas

biografia

saudade

domingo

Um rio sem barcos

advento

trintanario

arquivos

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Junho 2016

Janeiro 2014

Março 2013

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

tags

todas as tags

links
alô planeta terra

localizador ip
hora de inverno
hora de verão
contador
a partir de:
28.03.2010