O ruído precepita-se em cachoeira
Sobre a minha cabeça.
Risos, gritos, sons de televisão,
Escapes de carros, conversas em gestos
E pregões de quem comunica à distância,
Ar soprado artificialmente, vento das eólicas
Chocalhar de copos, garrafas, mais gargalhadas
E bater com os pés no chão, vozes zangadas.
O barulho cresce em arraial
Batem palmas, castanholas, incentivos,
Uma música irrompe como lança
Um jogador conduz ao delírio os epectadores,
Público extasiado, adeptos e claques
Todos os que não resistem em abrir a boca
E, gritar! Gritar! Gritar!
O barulho é um remoinho de insultos
De argumentos, de medicamento
Anestésico, alucinogenico,
Receita para triturar ideias e pensamentos
É no ruído que se avança para a guerra
Para a insurreição e para a morte
É no barulho da batalha que se decide
Os que sobrevivem e os que rebentam
E se estilhaçam.
É no ruído e no truculento badalar da insistencia
Que nos ameaçam e corrompem.
Um matraquear. Um perfurar que penetra
Um demolir.
O barulho é praga, martelo.
E se o questionarmos, se ingenuamente o inquirirmos
Dirão : barulho? Qual barulho? Não tinha reparado.
(estou tão habituado)
Sílabas estridentes saem por entre os dentes
Um tambor rufa, o coração dispara
Há tiros e fogo de artifício no ar.
O barulho só não é insurdecedor, porque já ninguém ouve
O som mistura-se com o ruído o arranhar de unhas
E o batuque pulveriza quem passa, os que se aproximam.
É telúrico e desaba em pandemia colapsando.
Não existem sobreviventes!
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