Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ÔNFALO

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Carta de Ônfalo á sua amada princesa, num tempo em que já não existem anjos, querubins, morcegos ou raposas nem lugar onde os Homens pousem para “beber” e  saciarem a ambição de serem divinos: A cidade tem mil buracos e outros tantos alçapões.

 

Meu amor,

Durante anos, sem interrupção, escrevi-te…” cartas de amor”.

Eram cartas simples, sem muitas palavras, apenas cartas que numa frase, num suspiro, numa lembrança, faziam o necessário – o possível e a desarrumação - para te dar a conhecer que o amor não tinha morrido. (como dizem os poetas e os apaixonados que não sabem viver no mundo real dos ódios..o amor resiste)

Foram anos de lembranças em que o amanhã era igual ao hoje, mas o ontem iluminava a minha vida.

Escrever, tendo deixado de ser moda, foi persistência e retorno ao mais querido e sagrado das nossas lembranças comuns, e com essas lembranças em turbilhão, me renascia – todos os dias, todos os anos - para te confessar o amor: “O meu amor”!

(Nada diferente do que os amantes costumam fazer* vulgar, primário e instintivo* – tudo isso que possas imaginar num homem comum e insuspeito de actos criminosos ou aventureiros – que apenas sente a ternura e o desejo, titubeio de geodésico marco em dia de tempestade)

Numa palavra, num gesto, numa memória sonhava ter-te.

Dar-me, oferecer-me, possuir-te!

Queria respirar-te. Iludir-me. Ser o cheiro e a alegria dos dias felizes.

Amar-te! No amor episcopisa da insanidade mais louca.

Todos os anos, em dia certo do ano, enviava-te uma mensagem, a que respondias sem vacilar na volta do carteiro: obrigado!

Sabia, pelo menos que existias, que estavas viva e que tinhas noticias minhas, onde quer que te encontrasses e com quem vivesses. Como fosses e existisses, como és.

E assim fui construindo o meu geóglifo de sedução e de pensamento, esperando que esse mapa fosse eco e chamamento de retorno e de caricia.

(não para repetir o passado, mas para viver o presente, que o ontem nunca curou ninguém, nem ressuscitou os que se afogam na vida)

E os anos foram passando, sem outra modificação que essas palavras: amo-te! Obrigado!

Hoje, ao repetir o gesto e a ousadia, fui apanhado na cilada.

- Quem és? Perguntaste.

 Anos, séculos, inumeráveis dias e noites, por um nome, por um nada!

Deixo-me arder na paixão e morro sem pronunciar o teu nome que faz a minha desgraça de inconsolável amante desprezado. Que vulgaridade! Que barbárie! Que exclusa!

Não respondo.

Não sinto nada. Esqueci-me do que queria dizer. Não me lembro de nada!

Para o próximo ano, vou repetir “amo-te!” como se o mundo se rejuvenescesse e tudo fosse a primeira vez. Sempre o reacendimento sem explicação, como num fogo e numa vida.

Tudo e nada sou: o caminho, sempre o caminho, num rasgo de claridade e de solidão.

(Não se pode explicar as intermitências do amor nem viver na contraluz)

 



carlos arinto maremoto às 16:43
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