Pequenas opiniões sobre quase tudo que servirão para quase nada
Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
Oumuamua

charuto.jpg

 

 

A vida é sempre igual e aquele dia não seria diferente de todos os outros.

Parei o carro no alto da serra e olhei para os montes em redor.

Havia cinzentos e castanhos, folhas secas em tapete no chão, estradas a cruzar todo o percurso que os madeireiros necessitavam para fazer a sua vida de trabalho.

Ao longe as eólicas.

Pequenos tufos de verde rebentavam aqui e ali. Eram manchas no meio de nada.

Numa enseada casas ardidas, sem telhado.

Pedras a lembrar paredes, abrigos e lares.

Os eucaliptos pareciam ter ardido apenas pela metade, nas copas verdes, no tronco queimados. O mesmo acontecia com diversas zonas de mato, que ardendo havia desaparecido, mas cujo fogo não atingira as árvores que no mesmo sítio cresciam.

O fogo ali, havia sido rasteiro, não menos mortífero.

Ao fundo os muros de antigos socalcos tinham o aspecto de eiras carbonizadas, de vinhedos destruídos, todos com as pedras a desabar e os terriços a fazerem monte.

Senti, mais do que ouvi, uma trepidação ou um rasgar de vento e notei um objecto alongado a voar no espaço.

Não andava depressa, nem devagar.

Não era folha a flutuar, nem parecia nave tripulada, como se descobre nos filmes de ficção cientifica, quando se quer impressionar com o inusitado.

Aquilo tinha o aspecto um enorme charuto.

Era qualquer coisa vinda do espaço.

Do alto, lá de cima, não tinha aparência de ser daqui – era certeza.

Qualquer coisa que se havia formado fora do nosso sistema solar, da nossa estrela: o sol. Sim qualquer coisa que havia tropeçado numa linha invisível, ao descrever curva, para se afastar em direção à origem a muitos milhões de anos-luz.

Afinal estamos no cosmos.

O seu formato alongado não deixava dúvidas. Rocha, metais e cores fazem deste piercing algo raro e muito curioso. Talvez, até, valioso.

Tem cerca de nove metros em comprimento por, apenas dois em largura, calculo.

Silencioso, mas rápido, deixo de o ver e ao procura-lo já o encontro espetado no chão, no fundo da ravina, que dali desce até ao fundo das escarpas, onde ziguezagueia um regato que empossa sonolento.

É um monstro espacial e deveria ter causado devastação ao cair no terreno, estou em Chão de Meninos, onde só existe mato e socalcos.  Mas não! Tudo o que se ouviu foi um baque surdo, um restolhar, um clarão mais fraco do que um trovejar.

Guardo as chaves do carro no bolso e desço pelas terras queimadas, sujando-me com as cinzas que existem por todo o lado.

A curiosidade é mais forte do que eu.

Ao investigar, porque o lugar, sendo perigoso, e abrupto,  não era longe da estrada em que me encontrava, deparo com o mencionado “charuto” enfiado entre ramagens de árvores e um ribeiro com águas ferventes, talvez devido ao impacto do estranho objecto.

Parecia um tronco carbonizado.

Mais um, de entre tantos, que os últimos incêndios se haviam espalhado em redor, igual a  outros que existem por todo o lado, deitados ao chão pelos primeiros ventos do outono.

À volta começavam a crescer pequenos cogumelos. Bombas atómicas? pensei!

Que disparate, se fossem bombas produzidas por átomos eu já estaria morto e não estou.

Parecem mais duendes com barretes na cabeça – que imaginação, com a devastação dos incêndios nem coelhos ou raposas havia.

A ponta que tocava na água modificava-se para amarelo. De gema de ovo escuro para uma tonalidade dourada.

Poderia ser ouro, o que via aparecer ali?

Na outra extremidade, o escuro tornava-se mais escuro.

Puxo do meu canivete e tento raspar a pedra, que para minha admiração se deixa cortar com facilidade.

Creio que chamam a este metal lítio.

As árvores ao meu redor escondem a descoberta.

Naquele baixio, que o fogo não consumiu, nenhum ramo foi tocado pela queda do misterioso asteroide, o que estranho. Tal volume teria de ter feito mossa maior do que fez, em tudo em que, obrigatoriamente, embateu, mas não há galhos partidos, nem rastos de destruição em redor.

Aliás, todo o “redor” onde escorre água por um regato que serpenteia vindo do cabeço, apresenta-se florido e com fetos verdes em rebentação.

Será que flutuou? Será que aterrou de nariz para o chão deixando-se escorregar por entre as árvores até se enfiar no solo, tombando na terra até se imobilizar junto á água.

Procuraria água? Estaria a beber?

Deixo-me escorregar até á ponta dourada procurando ver melhor o que se passa ali, caso algo seja diferente do que já observei, mas, rigorosamente, nada vejo além do reflexo que a luz projecta no dourado de textura rugosa.

Experimento com o canivete a superfície do tálamo e esta não se deixa riscar nem laminar.

O meu telemóvel começa a emitir um som de chamada.

Que diabo, que hora e momento para tocar.

Instintivamente abro o ecran e verifico que não é uma chamada de voz mas uma mensagem.

“Por favor afaste-se”

Afasto-me de onde? Quem diz isso?

Com espanto concluo que é o “charuto” que fala comigo.

Os chapéus dos cogumelos agitam-se para cima e para baixo mudando de cores.

Tudo aquilo me faz pensar num trombone ou num trompete a que caíram as patilhas e as tampas, numa varinha mágica da cozinha sem as laminas que arrancam e desfazem pedaços de leguminosas quando giram.

Dou um passo na retaguarda e sinto um impulso, quase empurrão na direcção do cimo do monte. Começo a ficar com o coração em sobressalto, a suar e com medo.

Tento controlar o pânico.

No ecrã do telefone aparece a palavra: “obrigado”.

O “charuto” gira sobre si e em movimentos graciosos emite um zumbido, não mais do que isso, quando se eleva acima do chão.

Primeiro a cabeça amarela, depois o resto do corpo escuro.

Num ápice já não está ali.

Sinto-me infinitamente pequeno e impotente.

Também já não existem cogumelos no chão. Não..espera, vejo um pequeno míscaro luminoso escondido debaixo de uma folha.

Ele também me vê, sinto-o, como se estivéssemos a olharmo-nos “olhos nos olhos”, então, esconde-se num buraco de bichos que existe por ali desaparecendo.

Nada a afazer.

Venho-me embora. Não tenho nada a fazer ali. Foi uma miragem, uma alucinação, devo ter escorregado e batido com a cabeça. Talvez! Talvez!

Ao chegar ao carro, descubro que deixei as chaves na ignição.

Podiam ter-me roubado o carro. Que parvoíce!

Podiam se por ali andasse alguém. Parvoíce é pensar que num sitio deserto como aquele alguém andaria.

Mas, aquelas chaves não são minhas, reparo com estupefação, pois as minhas e do carro encontro no bolso das calças, onde instintivamente as havia guardado.

As “chaves” que estão no carro são uma bitcoin.

Aperto-a com os dedos…

…e depois não me lembro de mais nada.

 

 



carlos arinto maremoto às 13:35
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